Life
61 Capítulo 60
Notas iniciais
Boa leitura!!!
Senti a dor da separação como se tivesse sendo arrancado do corpo por uma força maior, que me sugava pra longe e tudo o que eu queria era aquilo, poder salvá-la, poder sair dali. Ouvi meu grito diante da dor imensa e logo a minha voz se transformou na voz de Alex e senti a leveza da minha forma original.
Meus irmãos estavam ali, prontos para me levar onde eu precisava ir. Olhei para trás e vi Alex confuso, desnorteado, abraçado ao corpo frio de Manuella no chão.
- Agora! – gritei para eles, que imediatamente se uniram para me mandar até onde ela estava.
Fui levado para outro lugar, em outro tempo, em outra dimensão. Uma onde só havia sofrimento e dor. Havia fogo, havia gritos e tudo era desforme e confuso, escuro, quente e frio ao mesmo tempo. Havia muito ódio e sofrimento.
Os demônios tentavam me tocar, mas não conseguiam, pois eu não era como eles, eu não pertencia àquele lugar. Ali estavam muitos de meus antigos irmãos celestiais, que escolheram repudiar a obra do criador. Vi, entre todos, Caliel. Ele berrou em desespero ao me ver, não esperava que eu fosse até lá.
Segui adiante, flutuando acima do sofrimento, passando direto por eles, seguindo para a única força pura que havia ali. Em meio ao caos, lá estava ela, linda, resplandecente, serena... Manuella sorriu pra mim e veio flutuando em minha direção. Ela sabia que eu vinha, ela tinha fé em mim.
Quando toquei sua mão, senti a energia de meus irmão, a energia do Pai Celestial nos puxando de volta, nos trazendo para o lugar de onde ela não devia ter saído.
...
Estava de volta à casa de Alex, ainda segurando a mão quente de Raphael. Era estranho porque eu o segurava, mas não sentia seu toque como antes... era apenas a força imensa de sua presença.
Eu olhava o meu próprio corpo deitado no chão, nos braços de Alex. Dornelles, Marcos, Lisa e alguns outros estavam lá, mas eu via tudo de longe enquanto os outros três Arcanjos se aproximaram.
- Obrigada. — falei encarando-os.
Eles sorriram e olharam para Raphael antes de sumirem bem diante de meus olhos. Eu sabia o que vinha agora.
Virei lentamente para ele, finalmente podia ver como Raphael realmente era. Era perfeito, da maior beleza que podia existir. O cabelo branco, liso e longuíssimo se perdia de vista atrás do corpo alto e atlético, envolto pela armadura. Em sua mão, a Gladius dourada brilhava intensamente, e só perdia para o brilho dos olhos bancos como a paz.
- Você é tão lindo. – falei enquanto sorria e esticava a mão para tocar sua face.
Novamente não o senti como antes, não era carnal, era um outro tipo de toque, um que não se pode descrever em palavras.
- Você tem que voltar agora – ele disse – precisa terminar o que começou e livrar o mundo deles.
- Não vou mais ter você comigo, não é? – perguntei já sabendo a resposta, enquanto sentia que chorava sem lágrimas.
- É claro que vai, eu vou estar sempre com você. – ele disse, na sua voz aveludada e perfeita de sempre.
Num impulso corri para seus braços, querendo senti-lo pela última vez. Como eu poderia deixa-lo partir? Como viveria sem Raphael?
- Eu sempre vou te amar, Manuella, sempre vou estar com você. – ouvi-o dizer pouco antes de sentir o empurrão leve que me levava para longe do calor reconfortante e familiar.
Foi como ser tragada de volta, como cair de um avião e acordar momentos antes de alcançar o chão. Meu corpo tremeu levemente e senti os braços de Alex a minha volta.
- Alex? – perguntei discretamente e ele se afastou apenas o suficiente para me encarar.
- Manuella... – ele disse, sorrindo, me encarando com os olhos azuis esverdeados brilhantes.
- Eu te amo. – falei entes de abraça-lo apertado e pude ver apenas um brilhou branco discreto no canto do quarto, sumindo aos poucos, enquanto Raphael voltava para junto de seus irmãos e me deixava ali nos braços de Alex.
...
Nós viajamos o mundo espalhando o vírus Life em todos os continentes e, um ano depois de ter encontrado finalmente a cura para o mal trazido pelo MEV 2, o mundo voltava a ser reconstruído. As cidades eram mais uma vez habitadas pelos homens e já fazia meses que não ouvíamos relatos de vampiros.
Naska prosperou, assim como todas as províncias que antes viviam entocadas em seu próprio medo. Eu retornei a Santa Clara e reencontrei Helena e a trouxe comigo para a cidade de São Raphael, que eu, Alex e os outros fundamos assim que voltamos da viajem pelo globo. A vida estava voltando a ser como era antes, mas muita coisa ruim tinha ficado para trás e nós esperávamos que isso permanecesse por longos anos. As pessoas, finalmente aprenderam a lição, viram onde a ganância e a natureza humana podem nos levar eu tinha a certeza de que o mundo no futuro seria um lugar muito melhor para se viver.
Foi numa manhã bonita de primavera quando Dornelles se despediu de todos. Ele iria viajar o país em busca de sua mulher e filhos e eu tinha a certeza de que, se estivessem vivos, ele os encontraria. A despedida foi emocionante, pois ele era um amigo para todos nós, mas foi com alegria que vi o soldado valente, que tanto me ajudou, subir na moto com a mochila nas costas e ir atrás de sua família e de sua felicidade.
Lisa e Marcos ficaram noivos e estavam sempre juntos conosco e Roger acabou se tornando melhor amigo de Helena.
Eu e Alex... bem... nós éramos simplesmente felizes. Eu sentia como se os dias ao seu lado não fossem suficientes. Alex era todo meu mundo, todo meu coração e não havia absolutamente nada que ele não fizesse para me fazer feliz. Eu sabia que teria ao seu lado uma vida longa e muito feliz porque, dentre todos, ele era a minha felicidade. Alex me salvou de um mundo muito pior que qualquer vampiro, que era o mundo do medo, da reclusão e da insegurança, um lugar de onde apenas ele conseguiu me tirar... ele e Raphael.
Eu nunca falava sobre isso, não mais, e eu tentava disfarçar a falta que sentia de Raphael. Toda noite antes de dormir eu lembrava do brilhos branco de seus olhos e de seu calor tão protetor; de quando ele me salvou dos malditos, de como ele me trouxe de volta do mundo de trevas e sofrimento. Eu amava Alex com todo meu coração, mas naquele dia, na última vez que o vi, ele partiu e levou junto com ele uma parte de minha alma.
Raphael foi o nosso Salvador. Ele confiou em nós quando nem mesmo nós achávamos que tinha algo a ser salvo. Sua história foi contada pelos quatro cantos e seria lembrada ainda por muitos e muitos anos, a história do Arcanjo de Deus que veio à Terra nos salvar e nos mostrar que, acima de tudo, não devemos perder a fé.
FIM
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