Life
59 Capítulo 58
Notas iniciais
Bom, sem mais delongas... o anti-penúltimo cap!
Boa leitura!
Pensei que estando preso ao corpo de Alex, não podia assumir minha forma natural. Mas lá estava eu, encarando meu reflexo através dos olhos de meus irmãos.
- Irmãos...
- A guerra começou Raphael, os Céus estão revoltos, muitos de nossos irmãos caíram e sangue celestial foi derramado diante dos olhos do criador. No Reino dos Céus, restarão apenas aqueles que amam a obra do Senhor incondicionalmente.
Encarei os olhos dourados de Miguel e suas palavras em invadiram a alma. As coisas mudariam de agora em diante no Reino dos Céus e aqueles que renunciaram ao Criador viveriam agora em outro lugar.
- O que eu faço aqui? – perguntei a eles sem entender – Meu corpo deve estar quase morto.
- O corpo que abriga sua essência no plano terrestre não está morto porque não está vazio. – Uriel disse enquanto eu via o brilho dos seus olhos violetas e puros.
- Alex... – falei.
- Você precisa lutar, meu irmão, precisa terminar a missão que o Pai lhe incumbiu. – Uriel voltou a falar.
- Eu... não sei se devo voltar. Alex me permitiu assumir o controle completo pra salvar seus amigos e não acho justo controlar o que pertence a ele. – falei para meus irmãos o que estava realmente sufocando meu coração enquanto via o olhar compreensivo deles.
- Mas esse não é o momento de escolher. – Gabriel falou e eu olhei fundo em seus olhos azuis e misteriosos.
- Eu sei... só... o deixem lá por mais um tempo antes que eu volte. – pedi.
Eu sabia que eles tinham o poder de me mandar de volta, mas, enquanto eu estivesse ali com eles, era Alex quem estava no controle do corpo dele... e eu sabia que Manuella sentia a falta dele, muito mais do que deixava transparecer. Eu sabia que, eu estando longe, ela estaria mais feliz com ele, mesmo em meio ao caos.
...
Os dias passavam lentos na base subterrânea e tudo estava triste. Já fazia uma semana que havíamos chegado e a missão de encontrar uma cura estava longe de ser cumprida. Eu tinha finalmente conseguido chegar até aqui, depois de ter enfrentado tanta coisa, tantos perigos, tantas perdas. Mas ali, diante daquele mundo de possibilidades, eu estava impotente e infeliz.
A rotina se resumia em estudar o máximo possível e sobreviver naquele lugar. O corpo de Raphael e de Alex ainda estava ali, deitado na maca e ligado aos aparelhos, sem brilho. O pulso estava fraco, mas constante, o coração batia, mas eu senti como se o interior estivesse vazio. Eu, Marcos, Lisa e Dornelles havíamos feito de tudo, tudo o que os recursos e o conhecimento que tínhamos pôde oferecer, mas eu sabia que agora, só dependia dele... ou melhor, deles... Cada minuto que eu tinha durante as refeições ou descanso, eu ficava ao seu lado, conversava com eles sobre o que fizemos no dia, como estávamos, como eu sentia sua falta, até que adormecia segurando sua mão ligeiramente fria.
Aprendemos rápido sobre o funcionamento da base e tínhamos acesso a tudo. Havia comida em pó e congelada, bons quartos, um laboratório de primeiro mundo e todos os registros da pesquisa sobre o projeto MEV 1 e 2. Eu e Lisa estudávamos muito, assistíamos aos vídeos dos experimentos e dos diários eletrônicos gravados por cada membro da equipe científica. Vimos a cenas chocantes da primeira transformação, das primeiras cobaias do MEV 2 que se transformaram naquela bestas que rondavam lá fora e que quase exterminaram a raça humana.
Vimos também o que aconteceu depois, as imagens das câmeras de segurança filmaram o massacre, do banho de sangue que aconteceu lá embaixo. Imagens de programas de televisão da época mostrando como o mundo estava mudando, como a infecção se espalhou pelo mundo a fora. As imagens se transformaram em registros apenas sonoros, pois em determinado ponto, o mundo perdeu a capacidade de comunicação, perdeu a tecnologia avançada que tinha, tendo que recorrer a meios mais primitivos para poder trocar informação.
Vimos como, numa última e desesperada tentativa de desfazer tudo aquilo, a base foi reativada e um pequeno contingente de cientistas sobreviventes, incluindo Lauriê, tentou, por muito tempo, encontrar uma cura aqui em baixo, mas a busca sempre foi em vão. Vimos também a última gravação de Lauriê. Ela falava de seu quarto, sentada na cama. Estava tão diferente da Lauriê que eu conheci naquela igreja... perecia cansada, desanimada e entregue à derrota. Eu copiei um trecho de sua gravação e ficava ouvindo a todo o momento, pois de tudo o que tinha visto, aquilo foi o que mais me chamou a atenção. Ela dizia:
“Aqui é Lauriê Fernandes, uma das últimas pesquisadoras remanescentes na base original do Projeto MEV. Sei que minha missão era, junto com meus companheiros, encontrar a cura para esse mal que nós mesmos criamos... infelizmente, isso não foi possível. Durante os meses que passamos aqui vimos o mundo se acabando lá fora, vimos nossos familiares e amigos morrerem, vimos a raça humana se extinguir aos poucos. Sei que prometemos encontrar a cura, mas apesar de tudo o que fizemos, não encontramos nada. O MEV2 é maior que todos nós, maior que tudo o que já vimos e o que mais machuca é saber que fomo nós que o criamos.”
“Ontem mais um companheiro de equipe tirou a própria vida. Ambrósio era um homem bom, inteligente, mas, como tantos outros, não resistiu a tudo isso. Eu estou aqui pra dizer pra quem quer que encontre este vídeo, que a ciência tentou de tudo, mas não há esperança, pelo menos não pelas mãos humanas. Se você está vendo este vídeo agora, eu peço por favor, que tenha isso em mente: nós cavamos nossa própria cova e agora, não podemos sair daqui sozinhos.”
Eu escutava mais uma vez estas frases, ditas por Lauriê, em seu momento de desesperança, o mesmo o que eu viva agora. Estava diante da tela gigante, no laboratório mais avançado do mundo, e via todas as tentativas que eles fizeram. Todas as idéias que eu e Lisa trouxemos dos outros pesquisadores de Naska e também minhas e de Evelyn, já tinham sido testadas. Eles já tinham tentado de tudo, mas nada tinha surtido efeito. Eu me sentia vazia, desolada e triste.
- Manu? – a voz de Lisa soou tranquila da porta.
Encarei minha amiga. Seus cabelos loiros estavam mais compridos e os olhos verdes pálidos um pouco cansados. Mas eu via um brilho dentro deles que era diferente. Lisa era mais velha do que eu e seu irmão, mas não parecia, absolutamente, pois tinha coragem e disposição de dar inveja a muitos jovens e um corpo jovial e bem feito. Ela aprendeu e cresceu muito nessa jornada, assim como eu, e tinha uma motivação a mais desde quando seu pai foi assassinado pelos malditos.
- Já está tarde, por que não se deita? Recomeçamos amanhã. – ela disse aproximando-se de mim.
- Eu... eu acho que está certa. – respondi desligando o monitor. Já passava das três da manhã e meu corpo não aguentava mais.
- Lis?
Vi o rosto de Lisa avermelhar e o brilho em seus olhos aumentar ligeiramente. Marcos estava na porta encarando a gente. Vestia sua velha calça camuflada e uma camisa branca.
- Eu... já vou. – ela respondeu virando-se pra ele rapidamente – Já estou terminando aqui.
- OK. – Marcos respondeu antes de acenar discretamente pra mim e sair.
Olhei pra ela com um sorriso no rosto e um olhar incriminador. Lisa colocou o cabelo pra trás da orelha, disfarçando.
- Ele é... nós... – ela não conseguiu terminar e eu ri pela primeira vez em dias.
- Vai lá, não o deixe esperar muito. – falei sorrindo pra outra que não esperou dois segundos para seguir os passos do soldado moreno.
Respirei fundo, mais uma vez sozinha no laboratório e decidi dormir... pelo menos tentar. Passei no meu quarto e troquei de roupa, fiz minha higiene pessoal e tomei um banho quente e demorado antes de me encaminhar para a enfermaria onde o corpo de Alex e Raphael estava. Já havia posto uma confortável cadeira ao lado da maca, onde passava as noites e as horas fora do laboratório.
Antes de sentar na cadeira reclinável, fiquei de pé ao lado de seu corpo adormecido. Ele sempre me intrigara. O estado em que chegou aqui era de quase morte e só mesmo um ser especial como ele pode ter sobrevivido. Se não fosse seu extraordinário processo de recuperação, sem dúvidas eu estaria sozinha agora. Mas algo que me intrigava era o motivo pelo qual Raphael ainda não havia acordado. De um jeito estranho e que me fazia querer chorar, eu sentia que ele estava mais distante do que parecia. Era como se o corpo estivesse somente ali, sozinho, vazio, esperando alguém voltar pra casa.
Dobrei o corpo sutilmente e colei meu rosto no dele, sentindo a textura de sua pele que me fazia cócegas pela barba levemente pronunciada. Sorri com a sensação boa. Por um instante foi como ter Alex de volta, como se ele tivesse assumido o controle novamente e vindo me fazer sorrir.
Afastei o rosto lentamente e vi os olhos dele se apertarem, como de quem não vê a claridade por algum tempo. Meu coração disparou no peito e quando ele abriu os olhos lentamente, vi aquela cor indefinida e perfeita que me deixava sem ar, aquele azul que parecia um verde, aquele verde que era como o azul.
- Alex? – falei quase sem ar.
Vi o brilho em seus olhos quando sorriu pra mim. Sua mão levemente gelada foi até meu rosto e sua boca desenhos no ar as palavras que eu tanto queria ouvir “eu te amo”... mas, rápido demais, seus olhos foram clareando e o tom colorido deu espaço para o branco brilhante e infinitamente incrível que eram os olhos de Raphael.
- Alex?!
Eu meio que gritei, meio que chamei por ele de volta. O coração estava apertado e senti vontade de chorar.
- Desculpe... sou só eu. – Raphael falou com a voz mais rouca do que de costume enquanto me encarava.
Vi quando uma lágrima minha escorreu pela bochecha dele e senti vergonha e remorso, pois vi um ar triste por trás da íris branca. Imediatamente eu o abracei forte. Senti seu corpo quente mais uma vez, finalmente ele havia voltado.
- Raphael... eu estava com medo que não voltasse pra mim. – desabafei deixando as lágrimas escorrerem por seu peito.
Senti seus braços em volta de mim e ficamos por longos minutos daquele jeito. Eu sabia que Alex tinha desistido de tudo por mim, sabia que, pra que Raphael pudesse me salvar, ele tinha escolhido perder o controle de seu corpo. Talvez, naquele estado de coma em que Raphael estava, Alex tenha conseguido assumir o controle por alguns instantes, mas vê-lo ali comigo, foi como ver o sol depois de tanto tempo. Era certo que eu amava Raphael, mas era ainda mais certo que foi Alex quem primeiro tocou meu coração.
Afastei-me dele e avaliei seu estado rapidamente com o olhar. O monitor apontava sinais vitais normalizados... eu tinha presenciado mais um milagre ao seu lado.
- Como está? – perguntei sorrindo, passando a mão em seu rosto que não parava de me encarar.
- Bem. Só não queria ter te magoado. – ele disse sentando-se na maca.
- Magoado? – perguntei suavemente, sem entender – Do que está falando? Eu amo você, Raphael, sabe disso.
Ele sorriu e me puxou pra si. Raphael me abraçou apertado e senti seu coração acelerar um pouco. Era tão estranho e bom... às vezes eu esquecia que ele era uma Arcanjo e quando eu lembrava disso, como agora, eu me sentia especial por perceber o quanto ele me amava.
- Desculpa... eu só... sinto a falta dele. – falei em seus braços – Mas não quero que você me deixe.
- Eu sei. – ele disse, beijando minha testa e limpando as lágrimas que teimavam em escorrer.
...
No dia seguinte todos comemoraram muito a volta de Raphael. Ele nos contou o que tinha acontecido na luta contra os demônios e disse que encontrou seus irmãos enquanto seu corpo se recuperava. Disse que a batalha entre os seres celestiais tinha sido sangrenta e que as forças rebeldes estavam praticamente derrotadas, onde a maioria tinha sido expurgada do Paraíso e que agora só restavam os anjos que amavam ao Homem como a obra mais sagrada de Deus e que a humanidade teria guias mais puros.
Mesmo depois de tudo, eu não conseguia compreender o significado das palavras de Raphael, pelo menos não no nível que ele entendia. Era difícil pra mim compreender a grandeza dessa vitória. Por outro lado, nós não havíamos avançado em nada em relação a uma cura contra o MEV 2. Segundo Raphael, depois que ele escolhesse nos salvar, Deus permitiria que encontrássemos a cura que tanto procuramos, mas parecia que essa cura estava cada vez mais distante. Todas as possibilidades haviam sido testadas e a esperança, praticamente perdida.
Dia e noite nós tentamos. Eu, Lisa e os outros, procuramos nos arquivos, nos livros... repetimos experimentos pra ter certeza de que não funcionavam. As semanas passaram e já havia mais de um mês que nada do que fazíamos funcionava. Eu estava deitada na cama, esperando Raphael sair do banho e lembrava de como Lisa havia perdido a cabeça e, com raiva, quebrado um dos computadores do laboratório. Eu a entendia. Por muitas vezes eu mesma queria fazer aquilo. Marcos foi o único que conseguiu acalmá-la e nós decidimos parar mais cedo este dia.
Peguei o pequeno gravador que estava sobre a cabeceira e apertei o play. Fazia semanas que eu não escutava a gravação de Lauriê. Era como se aquelas palavras, de alguma forma, me confortassem, como se eu precisasse ouvi-las, mesmo que só pra lembrar de que muitos já tentaram e fracassaram como nós.
- Será que Lisa está melhor? – Raphael perguntou assim que saiu do banheiro.
Estava parado na minha frente, a toalha enrolada na cintura, o peito nu ainda molhado. A luz que batia em sua cabeça formava um reflexo em forma de halo no cabelo úmido quando a luz fluorescente batia nas gotas de água. Fiquei parada naquele instante, sem me mover. Era como se houvesse uma auréola ao redor de sua cabeça, um sinal de sua origem.
Naquele momento eu ouvi as últimas palavras de Lauriê que saíam pelo gravador “... Eu estou aqui pra dizer pra quem quer que encontre este vídeo, que a ciência tentou de tudo, mas não há esperança, pelo menos não pelas mãos humanas. Se você está vendo este vídeo agora, eu peço, por favor, que tenha isso em mente: nós cavamos nossa própria cova e agora, não podemos sair daqui sozinhos.”
Meu coração parou de bater por um momento. Era isso, eu sabia agora a resposta.
- Manuella, meu amor, você está bem? – Raphael perguntou, aproximando-se de mim após ver meu estado de transe.
Eu senti suas mãos quentes em meus braços e mirei no fundo do branco sobrenatural de seus olhos, dos olhos do verdadeiro Salvador.
- Raphael, é você. – falei diretamente pra ele, que não compreendia minhas palavras – O tempo inteiro era você.
- Do que está falando? – ele perguntou, já levemente assustado comigo.
- Você é a cura, Raphael. – finalizei, finalmente sentindo que minha missão estava cumprida.
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