Life
58 Capítulo 57
Notas iniciais
Boa leitura meus amigos!
Senti uma lágrima involuntária escorrer pelo rosto e a imagem de Júnior sendo morto ficou congelada em minha mente. Senti Marcos ainda me puxando para trás e Lisa discutindo com Dornelles sobre qualquer coisa sem importância... Júnior tinha morrido por minha causa.
De repente ouvi o som de um bip curto e uma porta se abriu, com o som dos pistões. Entramos num corredor escuro e Dornelles tratou de fechar a porta que ficou pra trás e nós ficamos na mais completa escuridão. Após longos segundos, apenas ouvia a respiração de meus companheiros e os sons abafados da luta de Raphael lá fora. Meu coração parecia que ira explodir dentro do peito.
- Vamos. As luzes deviam acender com o movimento, mas deve ter havido algum problema... Precisamos alcançar o fim do corredor antes que aquela criatura entre aqui. – a voz controlada de Dornelles foi ouvida na escuridão.
- Vamos. – Marcos falou perto de mim e me ajudou a seguir em frente.
Enquanto andávamos, sentia as lágrimas escorrerem e ouvi o som de mais alguém chorando, provavelmente Lisa. O corredor estreito tinha as paredes de textura áspera, como cimento cru, e tinha uns vinte metros de comprimento.
- Aqui! – Dornelles voltou a falar – Tem uma porta de elevador aqui, mas precisamos achar o painel pra digitar a senha. Alguém tem uma lanterna?
- Minha mochila se perdeu quando caí de moto. – falei com a voz embargada ainda sentindo as dores da queda.
- Aqui! Tenho isso. – Lisa falou segundos antes de acender um fósforo. A luz fraca foi suficiente para iluminar o ambiente fechado.
Havia a nossa frente uma porta metálica, como um elevador, e um painel numérico na parede do lado direito. Dornelles rapidamente tratou de digitar a senha fornecida por Lauriê e, instantes depois, a porta se abriu silenciosamente. O elevador estava aceso e Lisa apagou o fósforo que já quase lhe queimava os dedos.
Entramos na máquina que tinha pelo menos quatro câmeras de segurança, e a porta se fechou automaticamente, para logo após iniciar uma descida rápida que durou muitos segundos. Durante o trajeto, Dornelles tratou de esclarecer algumas coisas que Lauriê havia revelado sobre a base.
- Aqui era uma base de pesquisa secreta. Lá em cima tem uma espécie de forte, um quartel que funcionava de verdade para evitar levantar suspeitas. Para o conhecimento geral, ali era uma base de treinamento e a região desértica e afastada servia como campo para os soldados treinarem táticas secretas. O laboratório funciona no subterrâneo, há quase quinhentos metros de profundidade, onde existe uma base autossustentável e altamente tecnológica. Por isso estamos descendo tanto.
- Como assim, autossustentável? – Marcos perguntou.
- Funciona por geradores que utilizam uma fonte nuclear de energia. Mesmo se o mundo inteiro acabasse, aqui ainda teria energia suficiente para abrigar mais de duzentas pessoas por diversas décadas. – Dornelles respondeu.
- Bom, aqui é tão isolado que e imagino como foi o caos quando as coisas saíram de controle e a infecção se espalhou entre as cobaias... deve ter sido um massacre aqui em baixo. – Lisa observou assim que o elevador parou e as portasse abriram.
- E foi Lisa. – Dornelles completou – Lauriê contou que os imunes que não se transformaram foram massacrados aqui em baixo e que os corpos dos malditos foram expulsos só com um ataque militar de grande escala. Depois muitos cientistas e pessoas de alta patente ainda viveram aqui por um tempo, atrás de uma cura, protegidos de lá de fora, mas ninguém conseguiu resistir a esse isolamento por muito tempo... por isso que depois de anos, essa base foi abandonada.
O lugar era incrível, realmente. O salão no qual nos encontrávamos mais parecia cena de filme futurista. Era enorme, com diversos computadores e um telão gigante no centro. No canto, havia diversas telas com as imagens de monitoramento de toda a base subterrânea onde podíamos ver corredores, cômodos e laboratórios vazios. Havia, ainda, câmeras que monitoravam o lado de fora e vi, em preto e branco, a luta que Raphael travava com os dois demônios.
Sem pensar, corri até o monitor e fiquei com os olhos grudados, sem ar, vendo as criaturas o cercarem e atacarem sem piedade. Marcos e os outros correram até mim e ficaram igualmente paralisados vendo o que se passava lá fora. As criaturas voavam e avançavam sobre ele, que se mantinha firme, desviando do máximo de golpes possíveis. As criaturas eram rápidas demais, tanto que eu não conseguia acompanhar todos os movimentos deles.
Havia no chão, vários corpos de vampiros mutilados e o sangue negro empoçava no chão. De vez em quando ainda via os braços e corpos cortados mexerem involuntariamente. Lisa estava assustada e com a mão cobrindo a boca parcialmente. Eu estava vidrada, como se minha vida estivesse em jogo, como se eu mesma estivesse lutando lá fora. Sentia uma agonia imensa e uma impotência enorme.
De repente, vi o corpo de Raphael enrijecer e, na mesma hora, ouvimos aquele silvo alto e fino que penetrava o cérebro. Marcos e Dornelles ajoelharam de dor, Lisa caiu no chão, contorcendo-se, enquanto eu me apoiei na bancada próxima, tentando não ceder à dor imensa que invadia minha mente. Eu me esforcei ao máximo, tentando continuar olhando a luta, preocupada com meu Arcanjo. Vi quando as duas criaturas horrendas se aproveitaram daquele momento de fraqueza para ataca-lo. Tentei gritar, mas a dor na cabeça era grande demais. Mais um deles estava surgindo e Raphael não conseguiria lidar com três demônios sozinho, era loucura!
O ataque deles foi tão forte, que vi algo espirrar na lente da câmera. Céus... era o sangue dele.
- RAPHAEL! — gritei desesperada enquanto me arrastava pelo chão, ignorando a dor, para ir ajudá-lo.
- Manuella! – Dornelles veio em minha direção e me segurou pelo braço.
A dor foi diminuindo, mas me desespero foi crescendo quando via a as garras dos demônios cortando o corpo de Raphael. A Gladius tinha voado pra longe com aquele ataque e ele estava desprotegido e sozinho.
Me debati, angustiada, mas Dornelles me segurou firme.
- Se você for lá, vai ser pior! Por favor! – ele falava comigo.
- NÃO! NÃO VOU ABANDONÁ-LO ELE VAI MORRER LÁ! – berrei de volta.
Marcos veio e me segurou junto com Dornelles. Minha mente entendia o que eles faziam, mas, ao mesmo tempo, queria atirar em cada um para que me soltassem e eu pudesse ir até Raphael.
- Confia nele! Raphael vai conseguir! – Marcos falava pra mim, enquanto me segurava.
Lisa veio pra perto e concordou com eles. Sem poder sair dali, olhei novamente pra tela que passava a batalha. Com uma esquiva perfeita, Raphael conseguiu se desvencilhar deles e contra-atacou. Com socos e chutes firmes, se livrou de uma das criaturas que sangrava pelo nariz e boca, um líquido viscoso que eu sabia ser negro como a morte.
No instante seguinte, o terceiro demônio surgiu por trás e acertou Raphael com força. O Arcanjo voou e caiu rolando há muitos metros de distância, onde a câmera não conseguia registrar. Rapidamente vi os três vultos voarem em sua direção e meu coração parou. Eu não conseguia mais ver a luta, não sabia o que se passava lá fora, mas sabia que não era bom. Raphael podia ser bom, mas aquelas criaturas demoníacas estavam em três e eram muito mais resistentes que os vampiros, além de tudo o que imaginei.
Os minutos passaram sem que nada pudesse ser visto além de vultos ao longe. Dornelles tentou achar algum controle que pudéssemos usar para movimentar as câmeras, mas havia muitos botões e computadores ali e a luta acabaria muito antes de acharmos isso. Foi então que vi um corpo voando na direção da câmera até bater na parede de concreto. A câmera estremeceu e vi uma criatura voar na mesma direção e, em seguida, ser arremessada de volta com força.
Raphael surgiu de costas pra câmera, a roupa rasgada, o corpo coberto de sangue por completo e um corte enorme nas costas. Um de seus braços parecia quebrado e ele apoiava o peso do corpo em apenas uma das pernas. Gelei. A criatura que ele arremessou longe voltou, cambaleante, também muito ferida. Raphael se movimentou com dificuldade e vi quando correu para o lado direito, saindo novamente do alcance da câmera. Instantes depois vi um reflexo brilhante aparecer em cena. Era a Gladius. Raphael a segurava com ambos os braços, embora estivesse visivelmente com dor. A criatura avançou e Raphael, num giro espetacular, saltou por cima do demônio, apoiando as costas nas asas quebradas do infeliz e quando aterrissou do outro lado, cravou a Gladius com precisão no peito da criatura que explodiu na hora, virando nada mais que pó.
Raphael andou com dificuldade para frente, de volta para a região que fugia da lente da câmera e vi quando o pó voou pelos ares por duas vezes, indicando que ele tinha acabado de pulverizar os corpos dos outros dois.
Um alívio caiu sobre mim e era tão grande que parecia pesado. Raphael tinha vencido e estava vivo. Seu corpo desfigurado caminhou de volta, cambaleante, e vi quando desmaiou de exaustão, deixando a espada sagrada cair ao lado do corpo ferido.
Imediatamente eu corri de volta para o elevador.
- PRECISO DE AJUDA! – gritei.
Marcos e Dornelles correram até mim e entramos de volta no elevador após Dornelles digitar o código de acesso de Lauriê. A máquina começou a se mover e meu coração batia forte no peito enquanto eu caminhava de um lado pro outro no pequeno espaço metalizado. Raphael estava vulnerável lá fora, havia sangue por todo lugar e ainda era meio da noite, certamente seria morto se mais vampiros aparecessem, com anjos no controle ou não.
O elevador levou uma eternidade para chegar de volta ao corredor escuro, mas não me importei, apoiei as mãos nas paredes de cimento nuas e corri para a porta.
- Aqui! – Marcos falou, acendendo um fósforo para que Dornelles pudesse digitar outro código.
A porta principal se abriu e nós estávamos do hall, atrás da parede de concreto. Depois de mais um código, Dornelles finalmente abriu o portão e eu corri com os dois em meu encalço. Vi o corpo de Raphael desmaiado há metros dali, antes da grade de metal, deitado sob uma enorme poça de sangue que crescia lentamente. Parecia morto.
Ajoelhei-me ao seu lado e sujei as mãos no sangue morno que cobria seu corpo. Logo Marcos e Dornelles chegaram e me ajudaram a levantá-lo.
- Cuidado, vamos leva-lo pra dentro. – Dornelles falou nervoso, já olhando a nossa volta.
— E a espada? – Marcos questionou, olhando para a linda espada celestial ao lado do corpo da Arcanjo.
Na hora ele tentou pegar o metal dourado resplandecente, mas não conseguiu levantá-la.
- Caralho, como essa porra pesa! – ele falou, enquanto fazia mais força. A espada, no entanto, nem se mexia.
Antes que pudéssemos pensar, senti o cheiro deles e os grunhidos vindos da escuridão da noite.
- Deixa a espada aí. – falei enquanto levantava o corpo de Raphael com a ajuda de Dornelles – Acho que estando nessa forma, ninguém além deles pode pegá-la.
Os dois me ajudaram e eu arfei quando vi a quantidade de sangue que escorria das feridas e do rastro que fazia no chão. Segurei as penas de Raphael e corremos desengonçados para a porta de metal. Assim que chegamos perto, vi os vultos dos malditos se aproximarem.
- VAMOS DORNELLES, ABRE ESSA PORRA! – Marcos gritou enquanto o outro digitava a senha para abrir o portão imenso.
Senti o cheiro cada vez mais forte e vi quando uma mulher jovem e grande, com olhos negros como a noite chegava correndo na frente de um pequeno bando que vinha voraz em nossa direção.
O portão se abriu e em menos de dois segundos Dornelles já digitava a senha do lado de dentro do hall enquanto eu e Marcos arrastávamos Raphael para trás na direção da porta principal. Dornelles se jogou para trás no instante exato que a vampira conseguiu enfiar a mão na fresta enquanto o portão estava quase fechado. Mais mãos se juntaram a dela e eu agarrei Raphael como pude enquanto Marcos digitava a outra senha e errava.
- VAMOS MARCOS! – gritei nervosa enquanto Dornelles sacava uma pistola da parte de trás da calça camuflada e atirava na fresta e acertava os malditos.
- CONSEGUI! – Marcos falou assim que a porta principal se abriu.
Dornelles correu até nós e entramos no corredor escuro. Dornelles rapidamente digitou o código interno e a porta fechou, deixando os malditos presos lá forta.
- Calma, meu amor, já vamos ajudar você... – falei na escuridão, abraçando o corpo morno de Raphael e carregando-o comigo.
Marcos riscou o fósforo e digitou o código do elevador que se abriu mais uma vez. Sob a luz forte da máquina de metal.
- Que merda! – Marcos falou quando finalmente percebeu o estado de Raphael. O elevador estava vermelho, assim como nós.
Assim que a porta se abriu, Lisa já havia conseguido uma maca.
- Já achei a enfermaria. – ela disse enquanto colocávamos Raphael deitado – Lá tem absolutamente tudo o que vamos precisar para ajuda-lo...
- Ela se calou assim que olhou para o estado dele e eu sabia que ela não tinha esperanças... nenhum deles tinha, mas eu sabia que Raphael não desistiria, ele viveria por mim.
- Vamos! – Dornelles falou correndo com a maca na direção que Lisa apontava.
Chegamos ao mais moderno centro cirúrgico que eu já estive. A enorme sala estava equipada com absolutamente tudo o quer poderíamos imaginar, de pissetes de álcool à uma moderna máquina de ressonância magnética. É claro que nenhum de nós era médico, mas eu, Lisa e Dornelles sabíamos o bastante para tentar salvá-lo. E assim fizemos.
Depois de retirar a roupa rasgada, limpamos e suturamos as feridas maiores. Dornelles teve que quebrar novamente os ossos do braço direito, que devido a cicatrização acelerada de seu corpo, havia se colado da maneira errada. Foi terrível, fechei os olhos para não vê-lo fazer aquilo e Lisa teve que ajuda-lo. Raphael deu alguns espasmos, provavelmente sentia muita dor, mas não havia muito mais que pudéssemos fazer. Aplicamos um sedativo, mas não podíamos esperar que fizesse efeito.
Nas costas, havia cortes incontáveis e profundos e tinha um pulmão perfurado. Dornelles fazia o possível e Lisa estava visivelmente abismada com a profundidade das feridas e eu via em seus olhos que o que pensava... que ele não resistiria.
Quando terminamos, os sinais vitais apontados pelos eletrodos mostravam batimentos cardíacos fracos e inconstantes e a respiração lenta. A pressão estava muito abaixo do mínimo permitido e ele não esboçava reação, parecia apenas um corpo em coma.
O dia estava amanhecendo lá fora e os demais já tinham sucumbido à tristeza e à exaustão enquanto eu fiquei ali, ao lado do corpo inerte de Raphael, rezando pela primeira vez em minha vida.
Notas finais
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