Life

39 Capítulo 38


Notas iniciais
Mto obrigada pela paciência de vcs... eu estive bem ocupada e não consegui postar ontem. Obrigada pelos reviews e pelo carinho, adoro ler ao opiniões, as críticas e os elogios!! Vcs são foda!
Boa leitura!

Senti meu corpo batendo contra o corpo da criatura que me carregava enquanto saltava graciosamente de copa em copa, no escuro da noite. Provavelmente estava me levando pra toca, ou pra um abrigo pra poderem comer em paz, longe das luzes UV e dos tiros dos soldados de Naska. Eu nunca vi um comportamento daquele antes, mas pensando em tudo o que eles já fizeram de estranho, não seria assim uma alternativa muito longe de ser verdadeira.

O vampiro deu uma parada, e parecia estar checando a direção correta a tomar. Foi minha chance. Desengonçada e trêmula segurei firme o pequeno canivete na mão direita e o com um giro rápido do braço, cravei-o na lateral do crânio do maldito.

Ele berrou e me soltou instantaneamente. Caí, batendo nos galhos da árvore e sentindo a pele arder com o impacto das folhas e dos galhos que me arranhavam sem piedade. Agarrei assim que pude um deles, e foi o que amorteceu minha queda contra o chão. Senti o coração quase saltar do peito e corri no mato escuro, sem saber pra onde ia. Qualquer tempo que eu ganhasse seria uma oportunidade pra Alex me alcançar... eu sabia que ele viria atrás de mim.

Ouvi o berro mais uma vez, agora mais perto, vindo detrás de mim. Corri o mais rápido que consegui, apalpando as árvores e tropeçando pelo caminho. Eu estava muito longe do rio que passava atrás das dependências de Naska, ele não seria alternativa pra mim essa noite.

Senti o impacto do empurrão do vampiro nas minhas costas. A luta era desleal, pois o maldito enxergava na escuridão, farejava meu medo, portava armas letais em sua boca e mãos, que eram as presas e as garras, além da força sobre-humana. Rolei na terra com ele e senti o frio do metal ainda cravado em seu rosto. Não tive muito tempo pra pensar, pois o vampiro me socou o rosto com violência e vi o escuro estremecer com o golpe.

Meu corpo parou de se mover por pouco milésimos de segundos, que foram mais que suficientes para ele me segurar firme pelos braços e me puxar pra si novamente. Ele começou a correr e me carregou pelo mato adentro por muitos minutos, minutos nos quais senti uma dor de cabeça filha da mãe e o sangue gelar em minhas veias.

...

Tiros foram disparados e meu corpo correu de volta para os muros automaticamente. A movimentação de soldados era intensa e ouvi a sirene de ataque disparar, alertando Naska sobre os malditos. Subi na guarita mais próxima, sentindo o cabo quente do meu facão na mão e o coração disparado. A guarita estava cheia de gente, que atiravam para a floresta. Consegui um espaço com dificuldade e segurei uma pistola na mão esquerda, destravada e engatilhada.

Então, meus olhos seguiram para os feixes de luz dos holofotes. Eles estavam mirando um ponto qualquer lá embaixo, no chão, do lado de fora. Vi quando as criaturas se moveram na escuridão da floresta e o cheiro atingiu meu nariz. Pouco antes de entrar em transe, vi de relance um corpo sendo arrastado para o mato por um dos malditos... tinha cabelos longos e castanhos.

...

Ouvi grunhidos crescentes e assustadores perto de mim e meu corpo foi arremessado ao chão de forma bruta. Eu não enxergava nada a minha frente, mas tinha a certeza de que não estava mais na floresta aberta. Talvez o maldito tenha me levado para um buraco, uma caverna ou uma toca, eu não sabia.

Rapidamente tentei tatear o ambiente a minha volta e senti minhas mãos entrarem numa poça d’água no chão. Engatinhando mais um pouco, senti uma parede fria, de pedra, a minha frente. Tentei me escorar para ficar de pé, mas fui empurrada novamente ao chão e ouvi o grito dele em meu ouvido. Era alto e ensurdecedor. O cheiro do hálito podre se misturou ao eco de seu grito naquele lugar fechado e quase me desnorteou. Então eu soube que morreria.

Ouvi outro grunhido, ainda mais alto e grave, e me encolhi no canto, tentando, em vão, me proteger do que viria. O que aconteceu depois disso foi, no mínimo, bizarro. Eles começaram a se comunicar, como se estivessem conversando. Eu devia ter batido com a cabeça muito forte ou estava tendo alucinações devido ao estresse, mas parecia claramente que eles estavam discutindo. Era de um jeito estranho, em meio a grunhidos e sons de combate, mas era como uma discussão, em uma língua diferente da minha.

Depois disso senti um par de mãos me segurar pela blusa e me pressionar contra a parede.

- Ela vive... enquanto o Salvador não aparecer, ela vive. Não tente fugir ou dilacero sua carne sem pensar.

A voz era arrastada e fétida e me desnorteou ainda mais. O coração martelava, o medo me corroía.

...

Vermelho era tudo o que eu enxergava. No instante seguinte, eu estava ao lado do corpo de um dos soldados que havia caído da guarita, eu achava. Ele parecia machucado, embora eu não sentisse o cheiro de sangue. Ele atirava e gritava como um louco e eu não compreendia suas palavras. Senti um leve odor no ar, um que cheguei a reconhecer... era sutil e delicioso... aquele cheiro era importante pra mim de algum jeito... controle.

- ALEX, VAI ATRÁS DELA! ELES A LEVARAM, LEVARAM MANUELLA!

A simples menção daquele nome me fez tremer. Eu senti raiva, muita raiva. Corri o mais rápido possível na direção do mato, perseguindo o rastro quase imperceptível daquele cheiro. Ouvia os grunhidos ao meu lado e vindo atrás de mim, mas nada era tão importante quanto aquele cheiro...

Senti os dentes de um dos malditos cravar em minha carne, atingindo o braço, do lado esquerdo. Girei o corpo e o rasguei ao meio com o facão afiado, e depois disso, uma sequencia de golpes saíram, na tentativa de afastar aqueles malditos de cima de mim. Eles surgiam de todos os lados, de todos os lugares, e eu destruía a todos, dilacerando e cortando seus corpos fétidos com precisão. Aquele ódio que sentia era incontrolável, dominador. Eu os destruiria um a um, até que me deixassem em paz para seguir novamente aquele cheiro.

...

Estava com as costas apoiadas na pedra fria e ouvia a movimentação dos malditos a minha volta. Não podia ser... aquilo era uma emboscada, outra emboscada para atrair Alex. Eles o queriam morto. Eu não podia permitir que isso acontecesse. Eu não sabia quantas horas, dias ou minutos haviam se passado desde que eles me jogaram naquele buraco, mas já estava em tempo de sair dali. E se eu não saísse, eles pelo menos não conseguiriam fazer o que planejaram, jamais me usariam como isca pra pegar o salvador.

Tentei me mover com cautela pra não chamar a atenção. Pelo o que podia perceber, não havia mais de três ou quatro vampiros ali comigo que, por um capricho da Natureza, ainda não haviam cedido ao instinto e me drenado o sangue das veias.

Eu estava desarmada, meu canivete devia ter sido jogado longe pelo maldito. Coloquei a mão dentro de um dos bolsos da calça larga. Ali havia um cartucho cheio, que não serviria de nada sem uma arma, mas tinha outra coisa além disso, algo que eu procurava: um pequeno chumaço de ervas.

Os pequeninos galhos e folhas já estavam praticamente ressecados, de tampo tempo que jaziam no bolso da minha calça, mas eu esperava que ainda servissem.

Rapidamente, retirei o chumaço fino, amarrado com um barbante, e mergulhei na poça d´água que estava próxima. Torci para que eles não percebessem o cheiro daquilo... se é que percebiam o cheiro de ervas ressecadas. Fiquei imóvel por alguns segundos, mas não ouvi nada além dos grunhidos habituais das criaturas. Uma boa notícia. Então eu fingi um acesso de tosse e me deixei cair no chão, fingindo dor. Ouvi a inquietação das criaturas.

- Fica quieta! – ouvi a ordem por entre grunhidos.

Parei de tossir, fingindo apenas pigarrear. Meu objetivo foi alcançado. Enquanto estava jogada ao chão, minha mão estava dentro da poça de água, onde eu esfregava as ervas para que dissolvessem. Eu tinha pouco tempo.

...

Lutei contra as criaturas da noite que nada podiam fazer para se defender do meu ódio. Quando apenas alguns deles restavam de pé, mesmo com partes de seus corpos desfiguradas, eu finalmente continuei a correr, tentando resgatar aquele cheiro que se perdeu no meio do mato, no meio do fedor dos vampiros.

Senti o vento mudar de direção e um palpite me fez subir para as copas das árvores. Lá de cima eu senti o cheiro um pouco mais forte. Era dela... aquele cabelo, aquele rosto que me vinha à mente sempre que eu inalava profundamente... aquele nome... Manuella. Seja o que for que a tenha levado pra longe, fez isso por cima das árvores, saltando de galho em galho, de copa em copa, então, com a mesma ferocidade que me fez matar dezenas deles, eu saltei.

Percorri um bom pedaço por cima das árvores, voltando atrás sempre que errava o caminho ou perdia a trilha deixada por ela. Com o facão apertado na mão, eu continuava pronto para qualquer vampiro que se atrevesse a se aproximar.

Então eu senti um cheiro forte. Era aquele cheiro, o cheiro do controle. Havia parado de se locomover por cima das árvores. Saltei ao chão e senti ali a terra impregnada por aquele odor que tanto mexia comigo. Havia também um outro cheiro, um que eu também conhecia bem. Era de um maldito, mas não era qualquer um. Eu sabia que era ele, aquele vampiro que armou pra mim tantas vezes, aquele desgraçado que a levou. Senti o cabo do facão trincar, tamanha força que eu fazia ao apertá-lo. Eu queria destroça-lo, iria arrancar cada milímetro de sua pele morta caso ele a tivesse machucado.

Corri como um louco, na direção dela, na direção daquela mulher que podia nem estar mais viva, mas que fazia meu coração bater mais forte.

...

Ouvia os grunhidos misturados às palavras. Eu entendia pouca coisa que diziam e resmungavam. Repetiam muitas vezes a mesma coisa, os mesmos sons estranhos e sem sentido. De tempos em tempos eu ouvia a mesma coisa, um som parecido com “emitei” ou qualquer palavra estranha com um som parecido.

O tempo passou arrastado enquanto eu dissolvia as ervas na poça d’água. Meu cérebro tentava prever o que aconteceria, tentava imaginar todas as possibilidades. Eles deviam ser uns três e certamente estavam bloqueando minha saída. No escuro da caverna, ainda consegui tatear a procura de uma arma. Encontrei uma pedra pequena, do tamanho da minha mão, que tinha uma ponta mais fina. Seria aquela minha defesa.

Deixei a pedra pronta e respirei fundo. Era hora de agir.

Lentamente deitei perto da pequena poça, de barriga pra cima, e coloquei a cabeça bem perto da água. Rapidamente, joguei meu cabelo ali dentro e segurei firme a pedra na mão. Estava nervosa, aquilo provavelmente seria meu fim, mas eu não poderia deixar eles me vencerem sem lutar. Esperei meu cabelo encharcar com a água misturada às ervas dissolvidas, ervas que faziam as criaturas gritarem de dor quando em contato com a pele. Eu tinha o cabelo encharcado de água-benta.

Respirei fundo, sugando o máximo de ar que meus pulmões conseguiam captar e prendi a respiração. Num impulso, eu levantei e corri na direção da provável saída da caverna.

Eu via vultos difusos agora, já que a noite começava a dar espaço à claridade do dia, mas ainda não era suficiente para pulverizar os vampiros, apenas era o bastante para eu não estar na escuridão completa. Eu podia ver que eles se moveram em direção a mim. Eram três. Seus vultos negros e velozes vierem, e eu apertei a pedra na mão. Assim que o primeiro se aproximou de mim e me segurou, senti o cheiro de sua carne podre aumentar e a fumaça invadiu meu nariz. A besta gritou ao sentir a dor em sua carne assim que encostou na pele molhada do meu ombro.

Girei o braço e atingi sua cabeça com força, uma força que eu não sabia que tinha, uma que apenas a adrenalina e a luta pela vida nos proporcionam. O vampiro caiu de lado e logo o segundo estava sobre mim. Girei o corpo e o cabelo voou, espalhando água benta pra todos os lados. Os três urraram de dor e eu saltei pra frente, empurrando o vampiro que levava as mãos ao rosto.

Ele caiu, comigo por cima dele. Vi o terceiro vampiro, vindo pra mim. Tudo foi rápido demais. Joguei a pedra na direção de seu rosto enfumaçado. O objeto acertou em cheio e me deu tempo para desviar de seu ataque. Senti suas garras rasgarem meu braço quando passou por mim e gritei. Ele caiu por cima do outro e eu colei o corpo na pedra fria, para evitar cair e perder tempo. Eu não podia ficar ali dentro, tinha que sair e torcer para o sol nascer logo.

Corri para fora, para a claridade que começava tímida a pintar o céu de azul mais claro. Ouvi os urros dos vampiros atrás de mim. Não havia sol ainda, eles seriam capazes de me pegar apenas com um salto de suas ágeis pernas. Eu tinha que tentar! Tudo parecia em câmera lenta. Eu corri para longe da entrada da caverna e sentia que eles já se recuperavam para virem atrás de mim. Eu tinha poucos segundos, não iria conseguir.

Senti os pés empurrarem o chão, na tentativa de me tirarem dali. Aquilo era o máximo que eu poderia fazer. Bastava um salto para que eles me despedaçassem por inteiro. Então eu vi, Há metros de distância, saindo de trás de uma enorme árvore, o corpo esguio vindo em minha direção. Foquei somente nos dois pontos brilhantes que corriam pra mim, no branco que podia ser minha salvação ou simplesmente a última visão que teria na vida.

Notas finais
Reviews???