Life
40 Capítulo 39
Notas iniciais
Boa leitura!!
Eu corria no meio da floresta, sentindo a urgência e a necessidade me consumindo rapidamente. Seguia o cheiro que estava cada vez mais forte. Ela estava perto, eu podia sentir.
Meus pés quase não tocavam o solo enquanto me deslocava velozmente. O dia começava a nascer e o céu azul escuro já me dava esperanças de que ela podia estar viva, que podia ter sobrevivido a eles. Ela não podia me deixar.
Senti um aperto forte no peito somente ao pensar nessa possibilidade, e segui em frente. Até que ouvi uma movimentação a frente e senti o cheiro inconfundível de Manuella misturado ao cheiro forte da morte. Assim que passei pelo tronco enorme, eu a vi.
Os cabelos molhados jogavam água pra todos os lados enquanto corria. Seu frágil corpo tentava correr pra longe, tentava se salvar. Atrás dela, três vampiros com olhos negros raivosos e a pele envolta em fumaça. Um deles era ele, o vampiro que armou tudo isso.
Mirei meu olhar nos olhos dela. Eu sabia que eram castanhos, embora eu enxergasse tudo em tons do vermelho da raiva e do frenesi. Com todas as forças que consegui reunir, eu saltei, rezando para que chegasse nela antes deles a alcançarem. Tudo parecia lento, de tão incrivelmente rápido. O ar a minha volta ficou quente, com a velocidade que alcancei, e no instante seguinte, senti a maciez de seu corpo quando a envolvi pela cintura com o braço esquerdo.
Meu corpo girou por cima do dela, ainda no ar. Eu via tudo aquilo acontecer e calculei cada movimento. Com o braço esticado e a lâmina em riste, rasguei os corpos dos vampiros que passaram voando por cima de nós. Um após o outro, num golpe preciso e definitivo.
O sangue frio e negro deles se espalhou pelo mato e por nossos corpos, enquanto caíamos no chão. Mas ainda não tinha acabado. O último vampiro tinha desviado de minha lâmina e vinha em nossa direção. Com o corpo sobre o dela, girei a arma com destreza, segurando com a mão invertida o cabo trincado. Senti a criatura sobre minhas costas e, no instante seguinte, estava cravando a lâmina em seu peito, fazendo força pra trás.
Ele gritou. Girei o corpo rapidamente e saltei dali com o vampiro ainda preso em minha arma. Seus olhos negros pareciam ainda mais sombrios de perto.
Encarei-o com satisfação. Era o mesmo vampiro maldito que fugiu no minimercado, o mesmo que armou a emboscada com os explosivos, o mesmo que me levou pra longe do grupo perto de Naska e me disse que eu iria fracassar. Lembrei de suas palavras enquanto encarava os olhos frios e negros como a noite, enquanto eles perdiam o brilho diabólico.
O vampiro tentou balbuciar alguma coisa, mas não dei tempo. Puxando o facão com uma força descomunal, rasguei-o do peito ao pescoço, fazendo o sangue negro esguichar pra longe enquanto retirava a lâmina do corpo dilacerado.
Minha respiração estava ofegante, sentia os músculos tremerem diante da tensão. Imediatamente voltei pra trás, pro corpo estendido e machucado daquela mulher que era minha vida. Ela estava com os olhos fechados, deitada no chão, virada pra cima. Os cabelos molhados estavam espalhados pelo rosto bonito e cheio de terra. Seu ombro sangrava bastante.
Ajoelhei ao seu lado e inclinei o corpo, sentindo aquele seu cheiro estonteante. Cheguei o ouvido perto de sua boca e ouvi a respiração fraca; os seios subiam e desciam coma respiração fraca. Estava exausta, mas viva.
- Graças a Deus. – pensei pouco antes de abraçar forte seu corpo em meus braços.
Senti o coração dela batendo contra meu próprio peito e uma onda de alegria e alívio me preencheu enquanto me dava conta do perigo que ela passou.
Eu estava confuso, ainda em alerta, vendo tudo em tom rubro. Meus sentidos extras vasculhavam o mato a minha volta a procura de qualquer sinal de perigo e eu duvidava da existência de alguma criatura que conseguisse tirar aquele corpo de meus braços nesse momento.
Os minutos passaram lentos enquanto eu permanecia ali parado, no chão, abraçado a ela. Minha mente confusa pensava nos acontecimentos turvos desta madrugada e, ao mesmo tempo, fazia uma oração silenciosa em agradecimento por ainda tê-la com vida ao meu lado.
- Alex?
A voz doce saiu fraca entre os lábios bem feitos. Apoiei-a em um dos braços e descansei o facão no chão. Eu tentava recobrar o controle, mas era quase impossível. Manuella me encarava com os olhos semicerrados, e parecia paralisada. Talvez estivesse em choque por tudo o que aconteceu. Encarei seus olhos e seus lábios e, sem pensar duas vezes, beijei sua boca com muito desejo e paixão.
...
Provavelmente tudo durou menos que um piscar de olhos. Eu lembro de ver seu corpo surgir na floresta ainda escura e depois, estava sentindo o calor de seu corpo sobre o meu. Havia sangue negro espalhado por todos os lados. Eu sabia que estava a salvo; não sabia como tinha sobrevivido até ali, mas sabia que agora tudo estava bem. Foi essa realização que me fez desligar.
Senti o torpor dominar meu corpo e a terra fria sob mim. Despertei um tempo depois, sentindo o calor convidativo do corpo dele me envolver. Abri os olhos e vi um céu azul mais claro e os primeiros raios de sol surgirem tímidos por entre as nuvens escassas. E havia os olhos brancos. A íris branca e brilhante me encarava fixamente, me hipnotizava por completo. Vi aquele brilho intenso aumentar e desviar para minha boca e depois o gosto da língua voraz e do beijo apaixonado.
Ele me depositou no chão, sem interromper o beijo. Pressionou seu corpo no meu de um jeito urgente e, ao mesmo tempo, gentil. Eu estava envolvida, completamente embriagada pelo gosto delicioso do beijo de Alex. Era diferente de todos os outros que ele já me deu, tinha um ar intenso, misterioso, explorador.
Foi ele quem parou de me beijar e eu nem tinha reparado que estava sem ar. Eu podia me acabar ali, e morrer asfixiada no paraíso de sua boca. Senti suas mãos passearem por meu rosto e o brilho branco ainda existia. Eu vi uma adoração neles que me encabulava, ao mesmo tempo em que me deixava em êxtase.
- O que foi? – perguntei curiosa.
- Pensei que iria perder você. – ele falou numa voz grave e diferente enquanto me acariciava o rosto.
Sorri.
- Eles queriam você. – falei fazendo uma cara feia de dor quando tentei me mexer. O ombro ardia loucamente.
- Eu sei. – ele respondeu e seus olhos e sua voz começavam finalmente a voltar ao normal.
- Você o matou... matou aquele vampiro que te perseguia. – comentei alegre, olhando ao redor, arfando de dor no ombro e no braço.
- É... mas eu ainda tenho um pressentimento ruim...
Vi o reflexo branco brilhar uma última vez antes de sumir completamente e dar lugar ao colorido incomum e convidativo.
- Temos que voltar... acho que estamos longe de Naska. – falei tentando levantar e falhando magistralmente.
Alex me ajudou a levantar e senti o sangue escorrer pelo braço. Rapidamente ele rasgou uma tira grossa da camisa, da parte de baixo, e amarrou forte para estancar o sangramento. Vi tudo girar rapidamente.
- Que droga! Você está sangrando muito! – ele falou me escorando com o braço para que eu permanecesse de pé.
- Ok, já vai parar... estou bem. – falei dando um passo a frente.
Vi o mundo girar a minha volta e, depois disso, desmaiei.
...
Sentia uma leve ardência no braço e pouca vontade de me mover. Havia uma mão entrelaçada a minha; era quente. Eu não conseguia abrir os olhos. A minha volta, sons difusos de passos e pessoas conversando. Reconheci a voz de Lisa... e Roger.
- Bom, nós vamos pro alojamento porque já vai anoitecer... nos avise se ela precisar de alguma coisa. – Lisa falou perto de mim e depois senti uma mão suave carinhar meu braço.
- É, a hora que for, pra qualquer coisa. – Roger acrescentou e depois ouvi passos se afastando.
- Tem certeza de que ela vai ficar bem?
Era Alex, bem perto de mim. Ao dizer isso, senti a mão que segurava a minha me apertar gentilmente.
- Sim, ela vai ficar bem. – Dornelles respondeu – Os médicos deram um sedativo pra diminuir a dor, mas o efeito vai passar em pouco tempo e ela acorda. Deve tomar cuidado com os pontos no braço, evite que ela se mova muito pelo menos até amanhã.
- Tá. – Alex respondeu.
- Eu vou jantar e depois vou pros muros. Você fica aqui essa noite, descansa um pouco. – a voz de Dornelles soou cansada, mas firme.
- OK. – novamente Alex respondeu.
Silêncio. Alex retirou sua mão da minha e começou a acariciar meu braço. Se não estivesse meio dopada, sentiria meu pelos arrepiarem.
- Posso entrar? – outra voz soou mais distante. Júnior.
- Claro. – Alex respondeu, um pouco rude em minha opinião.
- Dornelles disse que ela levou uns pontos no braço, mas que estava bem. – Júnior falou e sua voz soou mais perto.
- Ela vai acordar logo, vai ficar bem. – novamente o tom seco de Alex.
Ouvi o som de alguma coisa sendo arrastada... uma cadeira, talvez?
- Alex – Júnior começou – Nós estamos achando que o que aconteceu foi uma emboscada pra você.
- Eu sei, tenho certeza. – Alex respondeu.
- Eu estive pensando... você está sendo perseguido pelos vampiros, eles querem matar você de qualquer maneira e estão usando Manuella pra te atingir. Eles viram a sua reação no dia em que chegamos a Naska, quando a protegeu daquele jeito e viram o que fez essa noite...
- Onde quer chegar?
- Eu estou dizendo que você está arriscando a vida dela continuando com isso. – Júnior foi enfático.
- Com isso o que? – Alex se fez de desentendido.
- Você sabe... com sua relação com ela. Olha, em poucos dias vamos partir numa expedição grande, vamos estar vulneráveis, expostos... eles vão tentar fazer algo com ela novamente se continuar com isso.
- Você está sugerindo o que, que eu me afaste dela? – senti a ironia nas palavras de Alex.
- É o mínimo que poderia fazer!
- É? E pra quê? Pra você poder fazer o sacrifício de protege-la?
- Não seja estúpido, você sabe que eu daria a vida por ela! – Júnior se exaltou – Ela vai estar segura comigo mais do que com você!
- E você vai protege-la do mesmo jeito que fez ontem, deixando eles entrarem em Naska e a levarem debaixo do seu nariz? – o sarcasmo de Alex foi fatal.
Senti uma movimentação e o som de empurrões. Fiquei nervosa. Eles estavam brigando ali! Que merda! Tentei me mover, mas senti dificuldade... estava muito grogue pelo anestésico.
- Pa... – tentei uma vez.
- Par... – não consegui.
Senti mãos quentes em mim novamente, em meu braço.
- Tudo bem? – era Júnior.
- Parem. – falei finalmente, abrindo os olhos e enxergando tudo enevoado.
Tentei levantar, mas os braços de Alex me seguraram na maca.
- Ei... pode ficando ai. – ele falou enquanto me fazia deitar novamente.
- Manuella? – Júnior tentou, mas Alex interveio antes que eu respondesse.
- Júnior, Manuella precisa descansar. Acho melhor você sair daqui.
Eu vi, de forma embaçada, Alex encarar o outro, que ficou olhando pra mim com o semblante preocupado. Depois Júnior olhou pra Alex com a cara amarrada e disse antes de sair:
- Eu volto mais tarde.
O soldado saiu pela porta e eu respirei fundo.
- Babaca. – Alex resmungou enquanto via Júnior sair pela porta.
...
Era noite, mais uma vez. Subi na árvore mais alta e senti a mudança de direção do vento que trouxe junto o cheiro de sangue. A boca salivou instintivamente, com a necessidade do corpo pelo líquido precioso. Deixei-me levar pelo instinto e segui correndo na direção do desavisado que sangrava em algum lugar longe dali. Fosse quem fosse, estava com os minutos contados.
Enquanto meu corpo corria, minha mente fervia com a última visão que registrei... a do Salvador me cravando a lâmina no peito e me dilacerando o corpo. A hora dele estava chegando... afinal, eu já tinha descoberto seu ponto fraco.
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