Life

4 Capítulo 3


Notas iniciais
Boa leitura!!

Minhas pernas tremiam e o coração batia forte no peito, enquanto o suor escorria pelo lençol. Eu apostava que ainda eram reflexos do pesadelo se juntando à adrenalina que a sirene de alerta despertava em todos. Ao meu redor, o pânico era generalizado. Helena estava pasma e todos corriam procurando um lugar mais seguro.

- Meu Deus, Manuella, vampiros em Santa Clara! O que vamos fazer se eles entrarem?

Helena estava desesperada, como todos a nossa volta. As lágrimas escorriam pelo seu belo rosto. No mesmo instante, eu voltei a assumir o controle. Jamais me deixaria levar pela emoção e o desespero. Em segundos, agarrei firmemente as pistolas sob meu travesseiro e me pus de pé, em estado de alerta.

- Helena, procure um local seguro com os outros. Na minha mala você encontra armas e água benta. Pega tudo o que precisar e vai. Eu vou para muros lutar.

Empurrei-a, forçando Helena a agir. Ela estava paralisada de medo.

- VAI HELENA! – gritei.

Sem dizer nada, ela correu até minha mochila e eu sabia que ela encontraria o suporte necessário ali. Assim sendo, eu corri para o pátio, indo em direção aos muros.

Os soldados gritavam e atiravam sem parar para fora dos muros. Armas de alto calibre faziam tremer o chão e bombas de água benta explodiam a cada segundo, tentando impedir a aproximação dos vampiros no muro de proteção interno. Mesmo com todo o barulho da batalha, o urro e os gritos dos malditos podia ser ouvido e fazia q

Com que todos nós tremêssemos de medo. Eram gritos de ataque, de alerta, de ódio, de fome.

Corri, engatilhando as pistolas, verificando o quanto de munição eu tinha nos bolsos da calça. Sim, eu dormia preparada para qualquer coisa.

Alcancei as escadas longas, porém seguras, que levavam às posições de guarita no alto dos muros. Havia muitos soldados lá, que procuravam atirar e imobilizar o máximo de vampiros que pudessem. A maioria, entretanto, se mantinha lá embaixo, formando uma linha de frente de defesa, caso os demônios passassem pelos muros.

Santa Clara possuía um grande muro de concreto, liso e espesso, que rodeava a província. Após este muro gigantesco, havia um outro, igualmente alto e, entre os dois, um fosso repleto de estacas cravadas no chão, afiadas e voltadas para cima, como lanças cravadas na terra a espera de um desavisado que caísse neste espaço fatal.

Subi mais que depressa, arranjando um espaço entre os soldados corpulentos que atiravam sem parar. Eu era magra e esguia e conseguia entrar em praticamente qualquer espaço na guarda. Sinceramente, não foi uma idéia muito boa.

Ao olhar para fora eu gelei por um instante. Havia tantos vampiros que eu não conseguia contar. Era o maior ataque que eu já vi a uma província desse porte. As criaturas avançavam correndo de forma incrível. Seria gracioso, tamanha perfeição, se não fossem tão animalescos. Eles pulavam de árvore em árvore, com precisão, e corriam como guepardos em direção aos muros. Muitos já tinham conseguido transpor as primeiras defesas.

Mais uma vez, forcei-me a recobrar o controle sobre o corpo. Eu precisava vencer o medo. Apoiando os braços na guarita, comecei a atirar, como os demais soldados faziam. Tinha que conseguir imobilizar o máximo de vampiro que pudesse, para que assim Santa Clara e seus refugiados sobreviventes pudessem ter alguma chance de permanecerem vivos, e isso incluía a mim.

Por um tempo que não soube precisar, nós atiramos, até que eles surgiram.

Os holofotes que passeavam iluminando nossos inimigos iluminaram também um pequeno grupo de soldados. Eu não sabia que eram soldados logo de cara, isso eu descobri depois. O fato era que, no meio do mar de vampiros, um grupo de homens surgiu. Montados em motos e um jipe, eles surgiram da estrada atirando, pegando o grupo de demônios pelas costas. Mas isso não foi o mais incrível. A frente do grupo de malucos havia um homem, um único homem, que lutava.

Eu não compreendi bem, ali de cima da guarita na adrenalina da batalha, mas depois eu pude processar os fatos. Contra toda e qualquer regra lógica de sobrevivência, esse homem estava ali, lutando com as criaturas, sem armas de fogo, apenas com os punhos e um pequeno objeto metálico.

Eu via as criaturas irem em sua direção e os soldados que estavam com ele atiravam, tentando inutilizar o máximo possível deles, mas a grande maioria resistia à chuva de tiros e atacava o homem que, um a um, os destruía, deixando uma pilha de corpos imundos e retorcidos por onde passava. Eu nunca tinha visto nada igual.

Quando dei por mim, o número de vampiros foi diminuindo. Os que sobraram, não se atreviam a atacar mais. Eu não sabia era por puro instinto, por medo daquele estranho ou pelo simples fato de o céu já não estar mais tão escuro, mas o fato era que eles estavam desistindo do ataque. Pelo menos por esta noite, ficaríamos vivos.

As criaturas voltaram para a escuridão da floresta e os tiros, aos poucos, foram cessando. Todos os soldados de Santa Clara ficaram simplesmente parados, observando o grupo de soldados suicidas se aproximar dos portões. O mesmo grupo de soldados que havia se enfiado no meio dos vampiros; o mesmo grupo de soldados que havia acabado de salvar nossas vidas.

...

Minha visão foi voltando ao normal e o tom vermelho aos poucos, deu lugar às cores. Eu estava ofegante. Era sempre assim após um embate com as criaturas. Minhas mãos, assim como meu corpo estavam repletos de sangue, fediam a ferrugem e podre. À nossa volta, os corpos mutilados dos vampiros se contorciam no chão. Era apenas questão de hora para que o sol pulverizasse as criaturas.

Eu estava cansado. Nosso grupo viajou por dias até encontrar Santa Clara e, quando finalmente a encontramos, havia um ataque de grandes proporções. Eles estavam bem armados, mas eu duvido que saíssem ilesos se nós não tivéssemos chegado a tempo. Era muito difícil pegar os desgraçados desprevenidos porque eles possuem grandes habilidades e reflexos, mas estavam tão focados em atacar a província, que não perceberam nossa aproximação.

Chegamos por trás do batalhão e isso foi muito vantajoso para abatermos tantos de uma vez, pena que eu mal me lembro da luta. Quando entro em transe, eu não consigo me controlar, apenas mato a tudo o que se mexe a minha volta.

Começou quando eu fiz dezoito anos. Eu estava numa espécie de farra na província em que eu morava. Uns amigos e eu conseguimos umas garrafas de vodka e umas garotas e fomos para o lago, que ficava afastado do centro protegido. Ficamos bêbados e, pra completar ainda tinha uns baseados um pó de qualidade... aquilo era tão raro quanto televisão nos dias pós-guerra. Ficamos altos. Sem perceber eu levei duas garotas para as pedras e começamos a nos divertir.

Uma delas se despiu, estava muito louca. Sem pensar ela entrou no lago e me chamou. A outra me puxou para a pedra e quando eu virei em sua direção eu o vi. Um vampiro negro e forte estava atrás da menina, que não teve tempo de ver o que a atingiu. O demônio desferiu um golpe fatal cortando a garganta da moça com suas garras afiadas. O sangue dela ainda estava quente quando me atingiu.

Eu julguei que foi por causa do sangue que minha visão embaçou e comecei a enxergar tudo em um tom diferente, mas estava errado, descobri mais tarde. Eu era diferente. A partir daquele dia. quando eu sentia a aproximação deles, meu corpo entrava em uma espécie de transe e eu precisava matar, matar a todos. Com habilidades que fogem do meu controle e movimentos que eu não consigo explicar, eu simplesmente os mato e não volto ao normal enquanto houver um deles por perto.

Não sei o que me fez ser assim. Meus pais não eram assim e nunca soube de alguém que fosse. Quando eu me deparava com um maldito, eu não era mais eu, eu virava uma máquina, um monstro, capaz de trucidar até meu melhor amigo sem perceber. E foi isso que eu fiz. Depois de acabar com o vampiro negro eu matei a outra garota que estava comigo. Mas só percebi o que fiz depois.

Com os anos, eu fui tentando me adequar. Vencido pelo cansaço, entrei para o time dos soldados e me saí muito bem. Eu era uma espécie de arma secreta. Comigo no grupo, nós podíamos fazer o que nenhum outro grupo conseguia: viajar durante dias, atrás de respostas, atrás de esperança.

O pequeno grupo que anda comigo se formou quase que por acaso. Um bando de homens que não se conhecia, que possuíam motivos e histórias diferentes uns dos outros. Mas todos tinham um objetivo em comum: matar os malditos vampiros.

Saímos da província de Naska, nosso lugar de origem e uma das maiores da área, a procura de respostas. Há meses conseguimos relatos de aldeias locais dizendo que os vampiros estavam diferentes. Seus ataques não pareciam mais ser tão instintivos e impensados. Eles estavam ficando espertos, estavam sendo capazes de aprimorar suas armadilhas e isso estava fazendo com que cada vez mais províncias fossem extintas.

Isso devia ter uma explicação e nós partimos em busca de respostas. Em Naska havia um pequeno, porém competente grupo de pesquisadores. Eram médicos, biólogos e cientistas que conseguiram juntar algumas peças e levar a alguns nomes que pareciam ser chave e que podiam levar a respostas. Um desses nomes era Lauriê.

Nós não sabíamos muito dela, a não ser que parecia ser alguém importante no governo e nas pesquisas militares antes dos ataques biológicos na grande guerra. Mas era com ela que começaríamos. Com sorte essa tal de Lauriê poderia ainda estar viva e nos dar informações de como vencer os malditos ou, pelo menos, entender o que os estava deixando tão espertos.

- Bom, eu acho que não precisamos anunciar nossa chegada, afinal. – Marcos falou, pulando do jipe e parando ao meu lado.

- É, não precisamos mais. – concordei sorrindo sem humor pra ele.

O silêncio era quebrado apenas pelos ecos de agonia dos vampiros mutilados, que ainda estavam vivos e se contorcendo no chão.

Os soldados de Santa Clara havia cessado fogo e, apesar de estarmos contra as luzes dos holofotes, nós sabíamos que todos os olhares estavam sobre nós.

- Espero que eles abram logo essa porra porque eu estou com fome... e preciso de um banho. – Olavo exclamou parando perto de Marcos – E preciso de uma boa punheta também porque hoje a noite foi foda!

Os homens riram da observação de Olavo e segundos depois, os grandes portões de Santa Clara se abriram, nos dando passagem. No céu, já era possível ver o negro dando lugar ao azul escuro. A luz do dia logo chegaria e nos daria a paz momentânea para descansarmos até a próxima noite. Nossa passagem por Santa Clara era apenas para fins de recrutamento. Era sempre bom ter mais homens dispostos a encarar a jornada conosco.

Nosso pequeno contingente avançou sem pressa para a província e eu pude ver de cara que ali era um bom lugar para se viver. Parecia tranquilo. Finalmente eu descansaria em um lugar um pouco descente depois de dias de estrada. Pensando bem, a idéia de Olavo me parecia muito conveniente, afinal de contas, eu realmente precisava relaxar.

Notas finais
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