Life

5 Capítulo 4


Notas iniciais
Esse tá longo....
Boa leitura!

A chegada do pequeno grupo de soldados agitou Santa Clara. Todos estavam alvoroçados em cima dos viajantes e as pessoas voltaram a se cobrir de terços e crucifixos, achando que ‘O Salvador’ estava entre nós. Grande besteira. Pra mim eles não passavam de um bando de malucos de sorte, mas era exatamente esse bando de malucos de sorte que podia me ajudar a chegar até meu objetivo.

Não dormi pela manhã. Quando retornei ao dormitório vi que Helena tinha desfeito praticamente toda minha mala, no desespero da noite anterior.

- Desculpe, Manu, eu... estava nervosa.

- Tudo bem, não faz mal. Mas a senhorita vai me ajudar a arrumar essa coisa porque eu acho que vou pegar uma caroninha com esses soldados que chegaram ontem.

- O quê? Você pirou? Eles são loucos, você não ouviu os soldados? Eles estavam no meio dos vampiros ontem, sozinhos na estrada! Não pode ir com eles!

- Ai, Helena, eu não te entendo. Primeiro você fica nervosa quando eu digo que vou sozinha viajar e agora que encontrei um grupo de soldados você diz que sou louca? – falei rindo em sua direção, estendendo uma blusinha preta pra ela – Você acha que devo leva essa também?

- Manuella! Você não devia se preocupar com roupas ou nada disso, pelo amor de Deus! Você nem devia cogitar sair destes muros!

- Helena, sem querer te ofender, eu não pedi sua opinião a respeito disso.

Ela fechou a cara e fez um coque nos longos cabelos, sem me encarar. Vi seus olhos marejados.

- Helena, confia em mim, eu preciso fazer isso. – falei andando em sua direção.

Ela me encarou e uma lágrima escorreu. Eu não era sentimental como ela, mas senti um nó na garganta que tratei de engolir. Eu sentia sua preocupação comigo.

- Manuella, por favor, pense direito. – ela disse com a voz embargada apertando minhas mãos entre as suas – Poxa, eu sei que a gente se conhece há pouco tempo, mas eu... eu me identifico tanto com você, nós temos uma amizade tão boa, tão fácil.

Eu sorri e a abracei.

- Eu também sinto isso, Helena, sua amizade é muito importante pra mim. Então por favor, me apoie nisso. Eu sei que parece loucura pra você, mas esse é o meu jeito, eu sou assim. Eu não posso ficar aqui parada, só... vivendo com medo. Eu preciso fazer alguma coisa pra que você e as pessoas daqui tenham um futuro melhor, entende? Eu não quero ver o que vi ontem, você com medo, assustada, por causa de uma sirene estúpida. Eu preciso fazer isso. Evelyn também confiava em mim pra isso.

- Mas não é responsabilidade sua Manuella! Você sozinha não vai mudar tudo. As coisas aconteceram e pronto. A guerra veio e com ela os vampiros, e nossa vida mudou, temos que aceitar isso e viver da melhor maneira. Você tem minha idade, é nova, não precisa se arriscar assim. Eu sei que você não é passiva como eu, sei que é impulsiva e agitada, mas pense Manu, o que uma pessoa só pode fazer contra a ameaça desses malditos?

Respirei fundo e a encarei com alegria. Minha vida, mesmo que não tão longa, já tinha sido muito difícil e a amizade de Helena me fazia tão bem. Eu não pensei que um dia fosse querer tanto destruir os vampiros por alguém, mas eu queria. Helena era pura e boa e eu não queria que ela sofresse mais. Ela não sabia, mas acabou se tornando uma inspiração ainda maior para que eu seguisse viajem.

- Helena, obrigada por se preocupar comigo, mas sabe, você está errada. Olha, eu sei que parece pouco uma pessoa só tentar mudar tudo... sei que parece idealista e infantil, mas sabe o que eu acho? Eu acho que um dia, no meio da guerra, uma pessoa teve a grande idéia de produzir esse vírus e conseguiu. Uma única pessoa teve capacidade suficiente para mudar a história do mundo. Então eu te pergunto, porque eu também não posso fazê-lo?

Helena me encarou sem palavras, mas eu ainda via uma grande tristeza em seu olhar.

- Eu vou conseguir meu objetivo, Helena, eu sinto isso. Fico muito grata por tudo o que você me fez e quero que fique tranquila porque eu não pretendo morrer nas mãos daqueles vermes. Eu vou destruí-los, minha amiga, e você vai se orgulhar de mim, você e Evelyn vão se orgulhar de mim.

Ela respirou fundo.

- Eu ainda acho que é loucura, mas não duvido da sua capacidade. Sei que você é inteligente, sei que teve uma mentora incrível e que tem conhecimento. Eu espero que Deus ilumine seu caminho e que um dia você volte pra Santa Clara.

- Vou voltar, pode esperar. – eu falei confiante. Dentro de mim eu sentia um calor incomum. A aprovação de Helena me deu um novo gás e uma nova certeza: a de que eu morreria perseguindo meu objetivo, se fosse preciso.

Depois desse momento, eu diria, fraternal, Helena me ajudou a reabastecer a mochila. Com todo esse alvoroço, eu não poderia partir logo, teria de aguardar o próximo alvorecer. Mais tarde eu daria um jeito conseguir a minha carona. Eu iria seguir viajem muito em breve.

...

Foi somente duas horas depois que conseguimos finalmente um lugar para descansar. Era normal essa reação das pessoas por onde passávamos, afinal, elas não estavam habituadas a um bando de malucos que andava no mato no meio da noite, além, é claro de alguém como eu que enfrentava as bestas desarmado. Eles tinham a mania de me chamar de ‘Salvador’, mas eu estava tão longe disso...

Os soldados mais antigos que comandavam as tropas de Santa Clara nos cederam o alojamento. Nós comemos uma refeição farta, como há muito não fazíamos, e depois de um bom banho fomos descansar. Precisaríamos estar inteiros ao anoitecer para ajudar na vigília dos portões, pois os malditos poderiam tentar uma retaliação depois da noite de ontem.

Eu dormi como um bebê e nem os roncos absurdos de Marcos foram capazes de me acordar. Eu até sonhei.

Eu sonhei coisas difusas, bagunçadas. Havia muito vento. Eu estava em um lugar muito aberto, sentia-me livre. Mas também tinha um peso em meu peito, uma dor, uma culpa que não saberia explicar. Não sei se culpa era a palavra certa... estava mais para... eu sei lá. Era uma coisa importante que eu tinha que fazer mas que não queria, ou não sabia se podia.

Acordei ofegante, dessa vez sucumbindo aos roncos estrondosos de meu companheiro.

- Marcos... MARCOS! – gritei.

O homem se sacudiu todo com o susto e se pôs de pé, em posição de defesa.

- O quê? Que porra foi essa? – ele perguntou assustado, com a cara amassada, sem entender nada.

- Você está assustado? Devia ver como eu fiquei acordando com a droga do seu ronco. Puta que pariu!

O safado abriu um sorriso satisfeito. Tinha orgulho dos roncos produzidos.

- Isso é sinal de virilidade, sabia? – ele disse espreguiçando-se.

- Virilidade é o cassete, essa porra é uma anomalia da natureza, isso sim. – eu disse sem conseguir conter o riso.

Marcos era meu amigo desde sempre, desde quando essa merda toda de vampiros começou. Assim como eu e todo o mundo, ele perdeu a família, perdeu tudo o que tinha. Então nós nos conhecemos ainda jovens. Desde os quinze fazíamos tudo juntos. Ele era mais velho que eu uns três anos, mas nem parecia, ainda mais que ele era como uma criança, sempre fazendo piada por tudo. Era uma ótima companhia e um grande amigo. Ele esteve comigo o tempo todo, me ajudou a superar essa descoberta de meus dons nada comuns e bastante incômodos.

- E agora? O que faremos? – ele perguntou sentando na cama a calçando os butes.

- Bom, agora a gente prepara as coisas pra partir amanhã cedo. Eu já sei que Lauriê não se encontra nesta província então partiremos para a próxima. Você junta a tropa e prepara o que precisar para partirmos amanhã cedo. Eu vou atrás de informações que possam nos ajudar e ver se tem alguém nesse lugar com coragem suficiente para seguir viagem com a gente.

E assim o fizemos. Eu me reuni com os líderes de Santa Clara e contei sobre nossa jornada. No fim da tarde, ainda não havia se apresentado uma viva alma para seguir conosco, o que era absolutamente normal.

Eu estava na garagem com alguns dos homens, mexendo nas motos já abastecidas enquanto eles davam uma geral no jipe e nas munições. Do lado de fora, uma multidão de gente nos encarava, me encarava, pra ser mais preciso. Eu não gostava de atenção desse porte, mas não tinha como evitar. Era como uma celebridade entre eles. Em certo ponto isso me fazia preferir a parte em que viajava com meu grupo. Lá eu não me destacava tanto.

Não posso negar que não era de todo o ruim. Eu já tive muitas garotas pela minha fama, muito mais do que pela minha aparência, ou mesmo por ambos. Eu também tinha algumas regalias que outros soldados não tinham. As pessoas mantinham a mania de me atribuir poderes especiais, achavam que eu era a prova de que Deus ainda estava ao nosso lado. Eu apenas aceitava as cortesias... e as belas pernas se abriam pra mim também, é claro.

Estava pensando na última loira que tive o prazer de conhecer. Seu nome era Maria e eu devo dizer que ela me distraiu um bocado. Eu quase queria tê-la mais uma vez... quase. Isso devia ser um pouco de desespero de minha parte, porque eu não gostava de passar várias noites com a mesma mulher... elas se apegam muito fácil. Não que isso seja um problema, mas eu não gosto de me prender e também não gosto de saber que magoei alguém. Posso até ter meus defeitos, mas não sou tão mau caráter.

Ouvi um assobio alto, que reconheci ser de Marcos. Ele sempre fazia isso quando estava perto de uma mulher bonita.

Olhei pra cima, desviando a atenção da minha 1000 cc. Bom, eu tinha razão. Uma nova e atraente moça tinha acabado de entrar no galpão, aliás, atraente era pouco. Ela trajava botas baixas, uma calça com vários bolsos e uma regata preta e tinha uma mochila enorme nas costas, que parecia com a minha. Era alta, um pouco mais baixa que eu, apenas, e tinha os cabelos em trança. Eram castanhos, como seus olhos. Mas aquele corpo... minha mãe do céu, tinha as medidas perfeitas. Não tinha nada exagerado, mas tinha curvas que prendiam o olhar. Bom, prenderam o meu.

- Oi. – ela disse em tom alto, como se estivesse me chamando a atenção. Acho que já era a terceira tentativa dela de falar comigo.

- Oi. – respondi com um sorriso. Dessa vez eu realmente queria que ela fosse uma daquelas mulheres que me tietavam... aquele corpo era espetacular.

- Eu soube que vocês estão recrutando voluntários para seguir viajem. Posso saber que direção pretendem tomar?

A voz dela era um veludo, mas tinha um ‘quê’ de agressividade que a tornava sensual. Meus olhos se prenderam nos detalhes do rosto. Era pequeno, com traços delicados. Não usava brinco ou batom, mas nem precisava, sua boca rósea se destacava na pele levemente morena. Ela era, sem dúvidas, muito linda. Meu corpo se sentiu aceso por dentro.

- Bom... nosso pelotão segue pro norte.

- Tem uma aldeia mais modesta naquela direção, São José, eu acho. Pretendem parar lá também? – ela perguntou no mesmo tom decidido e autoritário. Estava ainda mais gata.

- Sim, é pra lá que vamos.

- Ótimo. Então eu vou com vocês. Partimos ao amanhecer, certo?

Não tive reação diante de suas palavras quase divertidas, apenas acenei.

- Ei, princesa, é isso mesmo o que ouvi? – Olavo veio se juntar a mim. Sua voz tinha o tom do sarcasmo. Ele queria brincar com a pobre moça.

A jovem olhou para Olavo como se ele não tivesse dito nada. O safado deu um passo em sua direção a passeou o dedo indicador no rosto da jovem, que ficou parada, apenas observando.

- Sabe, princesa, essas estradas são muito perigosas para alguém tão linda e frágil como você. Porque você não deixa essa mochila aí e vem aqui conversar um pouco comigo? Aposto que posso te entreter nesses tempos difíceis que vivemos.

A jovem sorriu docemente antes de se mover. Em um movimento rápido, ela segurou a mão de Olavo da maneira certa e a torceu, levando o braço musculoso de meu amigo junto, parando em uma posição nada natural. Com a outra mão, ela apertou a nuca dele e puxou o braço para trás e para cima, causando ainda mais dor, imobilizando-o totalmente. A dor dele era tanta que ele se ajoelhou de uma perna.

Tudo foi rápido demais. Os outros soltaram exclamações lá atrás. Eu permaneci observando tudo. Ele tinha mesmo se fodido.

- Primeiro, não me chame de princesa. Segundo, jamais toque em mim novamente. Terceiro, eu não estava falando com você, portanto, seja mais educado e aguarde sua vez.

Dizendo isso, ela o soltou, e Olavo soltou um sonoro palavrão enquanto esfregava o braço dolorido. A moça me olhou novamente com doçura, como se nada tivesse acontecido. Ela era quente.

- Você pode me dizer seu nome, eu não quero correr o risco... — eu falei sorrindo em sua direção.

- Manuella. – ela respondeu.

- Manuella, eu sou Alex, muito prazer.

Estendi minha mão em sua direção e sorri, ansiando por sentir a maciez de seu toque felino.

Ela sorriu de volta e se limitou a responder:

- Nos vemos amanhã, Alex.

Deixando minha mão pairando no ar, Manuella se virou a começou a caminhar lentamente para fora do galpão, me fazendo prender a respiração com o balançar de seus quadris.

Notas finais
Reviews???