Life

30 Capítulo 29


Notas iniciais
Como prometido! rs
tum tum, tum tum, tum tum....
Boa leitura!! o/

O vestido era verdadeiramente feito pra mim. Calcei a única coisa decente que tinha na mala para acompanhar, que se limitava a uma sapatilha bege e sem graça, mas que serviu bem. O tempo estava de agradável a levemente frio, de forma que eu tive que estragar um pouco o vestido colocando o casaco por cima. Foi bom porque deixei minha pistola dentro de um dos bolsos, já que não tinha onde escondê-la.

Do pequeno e simples espelho do banheiro, eu via meu reflexo sorridente ao relembrar a sensação que tive ao ver o vestido. Lembro claramente de tê-lo jogado em um canto qualquer na loja de departamentos, mas jamais imaginei que Alex o tivesse trazido, ou mesmo percebido meu interesse real na peça.

O vestido estava um pouco mais ousado do que me permitiria usar, indo até a metade das coxas, mas a meia calça cor da pele que Lisa me arranjou ajudava a amenizar a sensação de pernas nuas. Ela disse que era muito raro uma meia daquelas e que eu estava lhe devendo um enorme favor.

Eu pretendi fazer uma trança, mas preferi deixar os cabelos soltos para me proteger melhor do frio da madrugada. De fato, eles já tinham crescido bastante, estavam já na metade de minhas costas e me deixavam anda mais inconvenientemente bonita.

Foi assim que resolvi conhecer a festa de aniversário de Naska e fiquei agradavelmente surpresa quando encontrei o centro da província cheio de luzes e gente. Era um acontecimento impensável nos dias que vivíamos, mas eu vi tanta alegria nos rostos deles, que simplesmente não pude deixar sorrir. Era uma energia diferente, ali, no meio da música e dança e festa, eles pareciam vivos novamente. Era como se o mundo não passasse por nada de ruim, como se tudo tivesse voltado ao normal de antes. Como se naquelas poucas e importantes horas, eles pudessem esquecer o medo de todos os dias.

Na música era boa e animada e vinha de caixas improvisadas que estavam sobre um pequeno palco de madeira. A batida fazia todos dançarem e o palco pequeno estava cheio de casais numa disputa de dança.

Caminhei com dificuldade por entre as pessoas e me afastei um pouco do barulho e da multidão. Vi uma pequena roda, onde identifiquei a figura de Júnior de pé, conversando com os outros.

- Boa noite. – falei sorrindo, um pouco sem jeito.

Os homens se calaram e ouvi assobios abafados. Dornelles sorriu e levantou o copo discretamente em minha direção. Júnior apenas me encarava abobalhado.

- Bebe alguma coisa? – ele perguntou depois de algum tempo em que mal conseguia se mover.

- Não, obrigada. – declinei do convite.

- Manuella! Minha nossa, como está linda!

Virei na direção de Roger, que chegava por trás de mim e me girava feito tonta para ver meu vestido. Ele estava um gato, com uma roupa social descolada e gel no cabelo.

- Obrigada, você também está. – falei sem graça.

- Vem! Preciso te apresentar a algumas pessoas.

Dizendo isso ele me tirou dali como um furacão e nos trinta minutos seguintes eu achava ter conhecido toda a província de Naska através de Roger. No fim, encontrei com Lisa, que fazia cara feia depois de um gole em sua bebida.

- Minha nossa, isso tá horrível! Eu odeio vinho branco! – ela disse vindo até mim e Roger, que tagarelava algo sobre como estava difícil achar homem que prestasse em Naska.

- Eu também não gosto muito. – falei tentando me distanciar do vendaval que era Roger.

- Eu vou pegar um vinho que preste, você quer um copo? – ela perguntou.

- Hã... não, obrigada,. Acho que não vou beber essa noite.

- Tá bom, te trago mesmo assim .Não sai daí.

Lisa saiu pelo meio da multidão e Roger foi conversar com um amigo que também tinha gel no cabelo, me deixando ali sozinha. Eu estava próxima a uma das inúmeras mesas de petiscos e aproveitei para saborear um sanduiche. Estava me deliciando quando ouvi a voz de Alex em meu ouvido:

- Você está incrivelmente linda, sabia?

Senti um frio na espinha e aquela sensação de dor ao ouvir suas palavras. Essa frase sempre me causava essas sensações ruins, mas vindas de Alex... eu não sabia se era tão ruim assim.

- Obrigada. – falei virando-me.

Ele não estava nada mal também... tá bom, estava um gato, isso sim.

Seu cabelo bagunçado e a barba por fazer se juntaram harmoniosamente ao blusão branco, com as mangas dobradas e o jeans com tênis. Os olhos fatais arrematavam o espetáculo que era Alex e seu misterioso ser.

- Você também não está mal... trouxe a roupa da loja de conveniência também? – perguntei abocanhando o último pedacinho do sanduiche que, por pouco, não caiu no chão quando o vi.

- Essa é sua maneira de dizer que estou irresistível? – ele perguntou sorrindo.

Naquele momento eu achei que devia ser proibido alguém como ele sorrir assim. Eu quase não consegui responder.

- Não, senhor salvador, só estou dizendo que não está o trapo que normalmente é. – falei sarcástica.

- Ele riu.

- Estava de guarda? – perguntei ao mesmo tempo em que Lisa retornou com dois copos de vinho tinto de cheiro agradável.

- Sim, volto só mais tarde, próximo ao amanhecer. – ele respondeu.

- Hummm, Alex, essa é Lisa, não sei se se conhecem. Falei pegando o vinho e tomando um gole. Eu estava nervosa e precisava espairecer.

- O-oi – ela falou nervosa, estendendo a mão – Já nos vimos no laboratório, sou filha do Dr. Robert.

- Sim, é claro! Prazer em encontra-la novamente, Lisa. – ele disse cordialmente, sorrindo daquele jeito proibido e apertando sua mão.

Ela parecia encantada, mesmo ele sendo quase dez anos mais novo que ela. Alex tinha esse poder sobre o sexo oposto.

- Você viu Dornelles? Preciso falar com ele. – Alex perguntou.

Eu indiquei onde o grupo de Dornelles estava e ele se foi. Lisa parecia passar mal.

- Minha nossa senhora, Manuella, eu não como você consegue ficar com ele sem fazer uma loucura! Esse cara é quente. – ela falou bebendo um gole grande de vinho.

- Quente? Ele é o próprio Vesúvio*, meu bem! – Roger falou chegando-se a nós novamente.

Sacudi a cabeça e ele completou.

- Manuella, minha linda, o cara está totalmente na sua, eu sei, eu vejo como ele te olha e quer saber? Se eu fosse você não dava mole porque aqui, só tem traíra. Esse bando de perua vive dando mole pro Alex, quando ele está em Naska. Ele é o bofe por aqui, por isso, Manu, querida, não dê mole!

- Roger, Alex é livre pra fazer o que quiser com quem bem entender. Não temos absolutamente nada. E quero que isso foque claro aqui. Sem mais, OK? – falei me estressando um pouco... já estava farta desse assunto.

- Ui, ok, entendi. – ele falou rodopiando as mãos – Só não fica chorando pelos cantos depois quando descobrir que ele levou as piranhas pro abatedouro. Falei.

Roger saiu rebolando e dançando e se misturou a multidão. Lisa colocou a mão no rosto e sacudiu a cabeça.. eles mal sabiam que eu já tinha visto Alex fazer coisa bem pior...

A noite passou ligeira e divertida. Eu acabei relaxando depois que vi o reforço na vigília dos muros da província. Alex toda hora ia até lá saber se estava tudo em ordem e os soldados se revezavam para que todos curtissem a festa. Apenas os que já tinham saído definitivamente de guarda podiam beber um pouco e todos pareciam respeitar bem essa regra. Em certa hora eu já estava satisfeita com o vinho e o deixei de lado.

Lisa, por outro lado, parecia alegre demais com a bebida e fiquei ligeiramente preocupada. Roger disse que ela ficaria bem depois de colocar tudo pra fora. Ele a levou para o dormitório e recusou quando ofereci ajuda.

Pode deixar, vai curtir a festa que essa aqui eu já ponho pra dormir. – ele disse enquanto levava a irmã sonolenta para o outro lado. Essa cena me fez rir. Geralmente era o contrário que acontecia, com Lisa cuidando do irmão, mas eu via o quanto Roger se preocupava com ela, mesmo com todas as desavenças. Eles foram muito sortudos, conseguindo ficarem perto um do outro depois que tudo aconteceu. Eles eram uma família unida e feliz, apesar de tudo.

- Manuella? – Júnior me encontrou assim que Roger saiu com Lisa.

- Oi. – respondi sorrindo.

- Bom, vamos pra lá com a gente. Eu e Dornelles saímos do último plantão, vamos curtir um pouco. – ele disse.

Fiquei conversando com os dois e com Marcos, que chegou acompanhado por uma Ruiva de mini saia.

- Essa é a Patty linda? – perguntei a Dornelles discretamente. Ele riu.

- Não, essa é a prima dela, Suellen Dá Pra Todos.

Eu ri, entendendo o recado. O tempo passou agradável, com o grupo descontraído. Eu até consegui me divertir, pra ser sincera. Então a música mudou um pouco a batida, deixando o velho ritmo black envolver a todos. Ao nosso lado, Suellen e Marcos se atracavam enquanto dançavam e Júnior pediu pra dançar comigo.

Eu topei. Retirei o casaco e Dornelles segurou pra mim. Comecei a dançar com Júnior, que não tinha lá muito jeito, mas se esforçava. Eu vi muitos homens olhando pra mim, mas não me importei. Eu estava fazendo algo que jamais pensei em fazer novamente e eles não iriam acabar com minha noite.

Júnior estava feliz, e eu vi mais gente se juntar a nós. Tinham alguns soldados e muitas garotas que se animaram e logo se formou uma mini pista onde eu e Júnior começamos a dançar. Estava divertido. Eu então rebolei sensualmente e empurrei Júnior de leve pelo peito, que deu um passo pra trás. Assim, cheguei pro lado e tirei Dornelles pra dançar. Ele dançava muito bem e fazia uns passos engraçados no meio de todos. Divertiu-me bastante. Eu dançava um pouco com um e um pouco com outro, dividindo minha atenção entre os dois, que estavam visivelmente encantados.

Até que, no meio de uma das músicas, eu virei e dei de cara com Alex. Ele estava perto e sorriu. Eu sabia o que queria dizer. Era a vez dele.

Ele se chegou, dançando lentamente e Dornelles deu um passo pro lado. Eu dancei com Alex, mas não posso dizer que foi como dancei com os outros. Alex me envolvia de outras formas que Júnior e Dornelles não conseguiam. Ele se movia no ritmo, sem passos exagerados, sempre fitando-me nos olhos, sem desviar um segundo. Eu o correspondia, sem piscar, sem me atrever a desviar o olhar. Senti meu corpo responder a ele e dançamos de forma provocante e sensual, mesmo sem muito contato físico.

Mesmo o ritmo black tendo mudado para outra levada igualmente envolvente, nós continuamos. A música era minha favorita, mesmo que ele não soubesse disso. Alex conhecia a letra e em determinados momentos, gesticulava com a boca, cantando-a pra mim. Senti aquele arrepio na espinha me dominar e terminei a dança com ele.

Eu ainda dancei mais umas músicas com Júnior e com Dornelles, mas minha mente estava nele que acabou revezando com outras parceiras além de mim. Eu o via me olhando, mesmo dançando com outras pessoas, mas não podia passar daquilo. Eu sabia que era um jogo perigoso o que jogávamos e que eu acabaria perdendo em algum momento, mas achei melhor continuar assim.

Vi quando uma das meninas o arrastou para um canto e o perdi de vista na multidão. Eu dançava com Dornelles naquele momento e tentei ao máximo ignorar o fato, mas não consegui. Senti uma coisa dentro de mim que queimava. Eu queria não imaginar o que ele ia fazer, queria não me importar, mas seria impossível. Pra mim, a graça da festa tinha terminado.

- Desculpem, já está tarde, acho melhor eu subir e dormir um pouco... amanhã temos muita coisa pra fazer no laboratório. – falei antes de me despedir dos dois e de Marcos que ainda dançava por ali.

Júnior veio atrás de mim e segurou minha mão quando já estávamos um pouco afastados do centro da festa.

- Manuella, espera! – ele disse.

- Júnior, eu preciso mesmo dormir.

- Eu sei que é mentira. Sei que saiu por que viu Alex com outra. – ele falou determinado.

- Deixa de ser ridículo, Júnior, eu jamais...

- Admite que está apaixonada por ele, eu vejo em você. Vi quando dançaram juntos, Manuella, não precisa fingir que não se importa. – Júnior me cortou.

- Se você sabe tanto, porque está aqui me perguntando essas coisas? – perguntei friamente em sua direção.

- Você é mulher mais linda que já vi na vida. É incrível, corajosa, divertida... eu não consigo parar de pensar em você. Eu estou apaixonado por você como nunca estive antes na vida.

- Por favor, eu não quero magoar você, não me faça fazer isso. – implorei.

Júnior era tão bom comigo e tão amigo, que não queria magoa-lo.

- Você não vai me magoar, eu não sou criança e também não sou cego. Sei onde estou pisando. Sei que está apaixonada por Alex, mas eu posso fazer você esquecer esse cara, eu juro.

- Não, Júnior, não pode. – eu falei mais alterada, ainda sentindo o frio desagradável na espinha que sentia quando alguém me dizia aquelas coisas– Me desculpa, mas não tem nada a ver com Alex ou com você, se trata de mim. Eu não me envolvo com ninguém e tenho meus motivos pra isso. Quero que saiba que não terá nada além de minha amizade.

- Me deixa tentar. – ele insistiu.

Eu me afastei um pouco dele, que tinha se aproximado no fervor de suas palavras.

- Júnior, não vou mentir pra você. Alex me deixa balançada, mas eu disse a ele o mesmo que estou dizendo a você. Eu não me envolvo com ninguém, por favor, não insista. Eu não quero magoar você ainda mais.

- Você não tem culpa pelo o que sinto, Manuella, eu só... sinto isso aqui no peito que não consigo controlar. Eu sou capaz de enfrentar Alex ou qualquer outro por você.

- Mas eu não quero que você enfrente ninguém, Júnior, por favor, não insista.

Ele me encarou, com o rosto vermelho e se aproximou. Quando percebi, ele estava com os lábios colados aos meus, beijando-me com fervor. Na hora eu quis afastá-lo, queria bater nele, mas meu coração doía porque eu o estava magoando e Júnior não merecia isso. Então, fiz a única e estúpida coisa que pude: correspondi.

É claro que não foi nem de longe como os beijos que troquei com Alex. Não porque Júnior fosse ruim ou algo do tipo, pelo contrário, era simplesmente porque eu não estava apaixonada ou atraída por ele dessa forma. Mas eu o beijei. Senti suas mãos necessitadas de mim envolver minha cintura de forma faminta e sua língua invadir minha boca. Por um tempo curto, eu o beijei da melhor forma que consegui.

- Deus, você é demais... – ele ofegou no fim do beijo, ainda respirando fundo e me apertando a cintura.

Delicadamente eu retirei suas mãos de mim, enquanto explicava.

- Eu fiz isso como forma de te agradecer por tudo e por me desculpar por magoar você desse jeito. Eu não posso te oferecer nada além da amizade, Júnior, por favor, não insista, não me faça me afastar de você porque eu não quero isso.

Ele ouviu minhas palavras e vi a luz do entendimento em seus olhos, que ainda estavam extasiados com o beijo entre nós. Pra mim, não passou de um beijo bom e morno, mas pra ele, eu sei que foi muito além.

Deixei-o parado naquele lugar e fui em direção ao prédio dois, onde ficava meu dormitório. Passei pela deserta área comum, onde funcionava o restaurante comunitário pela manhã e à noite. Cheguei ate a escada e subi os degraus pensando em Júnior e na dor que lhe causava. Eu era uma tola, uma idiota que não sabia lidar com essas coisas. Tudo me causava dor e me fazia querer sair correndo e nisso eu acabava magoando pessoas que não mereciam.

Cheguei até o segundo andar e virei à esquerda para ir até meu quarto. Foi quando senti o baque em minhas costas. Algo me empurrou contra a parede com muita força e bati a cabeça. Depois disso, senti um par de braços me agarrar por trás e uma mão enorme tapou minha boca.

Era uma mão de homem.

Eu estava com dor de cabeça pela pancada e muito zonza, mas mesmo assim lutei contra o meu agressor. Logo senti um segundo par de mãos me segurar pelas pernas e a dupla me levava escada abaixo.

Eu me debatia com tudo o que tinha e tentava me desvencilhar dos braços que me apertavam com tanta força. Cravei minhas unhas nele algumas vezes, mas nada tinha efeito. Eles me levaram para fora do prédio e não havia ninguém por perto para me ver, nem mesmo Júnior estava mais ali. Fui arrastada para trás, para longe da festa, das luzes e da multidão, sentindo o coração disparar no peito e a sensação de medo me tomar completamente.

Eles me levaram para um dos galpões de suprimentos, me conduzindo para um canto. Chagando lá eles me jogaram no chão com violência e escutei apavorada a voz grave e fria que não ouvia há muito tempo:

- Eu disse que você ia ser minha, não disse? — Olavo falou sorrindo abertamente, enquanto um reflexo sombrio se destacava em seus olhos famintos.

Notas finais
p.s.: como minha semana vai ser cheia eu não garanto postar todos os dias... provavelmente o próximo será só na quarta mesmo... desculpem...
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