Life
28 Capítulo 27
Notas iniciais
Boa leitura e em breve teremos emoções fortes ^.^ !!!
- Alex? – perguntei medindo o tom de voz para não assustá-lo.
O corpo tenso foi relaxando aos poucos e as cores voltando ao normal em seus olhos.
- Desculpe. – ele disse meio sem graça, dando um passo pro lado – Eu... não sei o que está acontecendo comigo, eu devo estar cansado.
- Eu só vim te avisar que encontrei um lugar pra você, mas depois te mostro. – Júnior falou se virando pra sair dali.
- Não! Espera! – saltei da maca e fui na direção da porta. Júnior parou e se virou pra mim – Vou com você... Alex precisa descansar da noite de ontem.
Encarei os olhos azuis esverdeados. Alex acenou discretamente e aproveitei para pegar minha mala lamacenta no canto e sair com Júnior pelo corredor. Nós saímos do pequeno prédio e encaramos o dia nublado; começava a chuviscar. Eu não conseguia esquecer a atitude de Alex. Aquilo me deixava contente, mas também apreensiva. Eu tinha medo dessa ligação que estávamos tendo.
O centro da província de Naska estava agitado e cheio de gente. Era um grande largo, em terra batida, com algumas árvores e pequenas casas. Pelo o que percebi, a maioria delas não serviam de moradia, tinham funções diversas como ferreiro, marcenaria e outras. Havia também um galpão enorme do lado esquerdo, próximo ao muro, repleto de motos e jipes, além de armamento pesado. Pessoas entravam e saíam, carregando fuzis e metralhadoras de alta potência. Nos muros, a quantidade de soldados era pequena a essa hora do dia.
Do outro lado havia mais uns dois prédios pequenos, de dois andares, um ao lado do outro, que pareciam em boas condições. Em frente, crianças brincavam de bola e fingiam que voavam com os bracinhos estendidos, com sacas vazias amarradas às costas. Por onde eu passava percebia as pessoas interromperem as atividades para me olhar. Isso me irritava, principalmente pelo fato de saber o que elas comentavam de mim. Mais uma vez senti saudades de Santa Clara e de Helena... lá, pelo menos, eu não era apontada nas ruas.
- Bom, aquele prédio ali fica o dormitório comum. – Júnior apontou o prédio branco com heras nas paredes. – Eu achei que lá fosse cheio demais e tentei o prédio dois. No primeiro andar tem uma parte que funciona como um grande salão comum. Nas horas do almoço e janta sempre tem refeição e música.
- Certo... e todos comem lá? – perguntei enquanto passávamos pelas crianças.
- Quase todos. Tem muita gente que almoça ou janta na igreja, que fica lá atrás. Também tem um espaço grande que a gente costuma se reunir. No segundo andar do prédio dois também tem uns dormitórios e não está tão cheio. Eu consegui um lugar só pra você lá.
- Obrigada. – falei parando de andar e fitando seu rosto jovem e bonito.
- Bom, perto da igreja ficam as plantações e os galpões de estoque de comida, armamento ou suprimentos diversos que trazemos das jornadas de caça. Lá você vai achar roupa de cama pra e outras coisas que pode precisar. Fora isso, tem a academia, que é o galpão maior perto dos muros. Lá ficam as armas e munições de prontidão e também é onde os soldados malham pra manter a forma, por isso chamamos de academia.
- Entendo... – falei lembrando do local que vi anteriormente – E quanto aos cientistas? Onde eles ficam?
- Bom, eles se reúnem algumas vezes na semana pra discutir o que quer que seja que cientistas discutem em tempo como esse... eles ficam no segundo andar do prédio que viemos, onde funciona a ala médica.
Júnior me explicou alguns detalhes da província e eu percebi que Naska era bastante desenvolvida e que mantinha um sistema hierárquico consolidado. Não havia um líder, mas tinha um conselho que se reunia de tempos em tempos para discutir eventuais problemas e soluções. As crianças estudavam e as pessoas se organizavam de maneira que todos tinham uma atividade e a comunidade tinha tudo de que precisava. Os cientistas, que não eram muitos, faziam parte do conselho, assim como os mais velhos e alguns soldados de destaque, como Olavo e Alex.
- Bom, se você quiser descansar um pouco antes de almoçar, fique a vontade. Eu vou pro meu canto e apareço mais tarde nos muros.
- Ok, eu também vou pra lá mais tarde. – falei enquanto olhava a chuva apertar – E... obrigada por tudo.
Aproximei-me de Júnior e beijei-lhe a face.
- Sério, muito obrigada. – eu disse sentindo ainda aquele aperto no peito.
Ele sorriu e acenou.
- Até mais. – falei retribuindo o sorriso.
Júnior saiu de vista e eu senti o aperto aumentar. Eu me sentia mal por ele ter visto eu e Alex quase nos beijando. Júnior era um bom rapaz, um homem raro e nutria por mim um sentimento a mais, eu sabia disso. Por um segundo eu quis retribuir esse sentimento, mas não dava; infelizmente, não podíamos mandar nos sentimentos...
...
O segundo andar do prédio tinha alguns quartos. Nenhum deles tinha portas e muitas paredes da estrutura original tinham sido derrubadas para dar espaço aos grandes quartos comunitários, como em Santa Clara. Nos dias atuais, as pessoas não queriam se isolar. Durante a noite, todos estavam juntos, sentindo o mesmo medo e a mesma insegurança.
Júnior conseguiu um quarto menor, onde havia apenas três camas e ficava no final do corredor. Não havia ninguém naquele espaço e estava feliz por estar próxima ao banheiro e com uma certa privacidade durante a noite. Arrumei o lugar o melhor que pude. Limpei e depositei minhas coisas em um canto. Finalmente eu consegui meu banho quente e foi maravilhoso poder me lavar decentemente e me sentir renovada.
Um pouco mais tarde, desci para a área comum e almocei no lugar que parecia um grande restaurante. Os voluntários da cozinha caprichavam na refeição, que estava farta e deliciosa, como há muito tempo eu não comia. Graças ao Marcos, eu não almocei sozinha. Seria horrível ficar tão destacada, com as pessoas me olhando o tempo todo.
À tarde, fui para o hospital e encontrei Dornelles, que me levou para conhecer uma das pesquisadoras do lugar. Foi incrível. O pequeno grupo era composto por grandes nomes da área científica do país dos tempos pré-guerra e não me espantava em nada Naska ser um lugar tão avançado com essas mente brilhantes no comando. Tinha um grupo de aprendizes também, que eram a grande mão de obra deles, e logo eu estava entusiasmada. Passei o dia com eles e a noite também, nem fui para os muros. Eles já estavam cientes dos acontecimentos em São José e também estavam excitados com a possibilidade de ir até a base militar informada por Lauriê e finalmente entender como tudo aconteceu.
Os dias se passaram rapidamente. Eu estava totalmente envolvida com os pesquisadores e aprendendo bastante. Enquanto estive com Evelyn, nós fizemos algumas observações importantes acerca dos vampiros e foi extremamente incrível trocar informações e aperfeiçoar conceitos. Nós tentamos entender como se dava o processo de evolução que eles apresentaram e, assim, tentar bolar uma estratégia de sobrevivência mais eficiente. Entender o comportamento do seu inimigo é sempre a melhor maneira de vencê-lo.
Eu praticamente não encontrava com Alex. Dornelles e Júnior eram os que eu mais via. Durante minhas pesquisas com o grupo, acabei deixando de lado a vigília ou o treinamento, eu estava apenas focada no meu grande objetivo, que estava prestes a se realizar.
Eu voltava para meu dormitório durante a noite e sob uma garoa gelada. Esses últimos dias tinham sido acompanhados por uma queda na temperatura considerável. Os soldados estavam escoltando os muros, como sempre, com holofotes e muito metal atravessados nos peitos. Eles se mantiveram afastados no início, por conta do que tinha acontecido com Alex, mas depois que viram que nós não andávamos juntos, as gracinhas rotineiras começaram.
- Oi. – um homem negro e alto falou ao me abordar.
- Olá. – respondi apressada, querendo passar.
- Sabe que o Olavo tem razão? Você é mesmo ainda mais quente de perto assim. – ele disse olhando-me da cabeça aos pés.
Antes que eu mandasse o filho da puta tomar em tudo quanto era lugar, ele sorriu e se afastou, sem deixar de me olhar. Porco.
Sacudi a cabeça, tentando fazer aquela sensação terrível passar. Situações assim me deixavam suando e nervosa porque eu lembrava de coisas que queria esquecer. Eu sentia sempre esse pesadelo me rondar e simplesmente odiava ser tão fraca e susceptível.
Apertei o passo e abotoei meu casaco enquanto atravessava o pátio e ia na direção contrária a dos assobios. Entrei no prédio dois e subi as escadas até o segundo andar, andando devagar para não acordar as pessoas no meio da madrugada. Estava no corredor seguindo para meu ‘quarto’ quando vi uma sombra se movimentar lá dentro, como se houvesse alguém no meu espaço. Imediatamente senti o coração acelerar e a adrenalina subir novamente. Minha mão segurou o frio cabo da pistola no cós da calça, e o dedão habilmente destravou a arma.
Estiquei os braços, apoiando a mão direita que levava a pistola firmemente. A visibilidade era pouca. A luz do corredor se resumia em uma lâmpada única fraca no centro do longo ambiente. Do meu quarto, vinha a luz dos holofotes que passavam pela janela.
Andei lateralmente e sem fazer barulho algum, apontando a arma pra frente. Há três metros da entrada, vi mais uma vez a sombra amorfa passar na parede e tive certeza de que tinha alguém lá dentro. Sem perder tempo e querendo surpreender quem quer que fosse, dei dois passos largos e alcancei a entrada do quarto, apontando minha pistola firme em todas as direções.
Não havia ninguém ali.
Não relaxei o corpo e olhei melhor o cômodo. Nada sob as camas, nem no banheiro próximo... nada. Voltei a travar a arma e olhei pela janela. A cortina de tecido claro e simples deixava a luz de fora entrar, mas achei improvável a sombra que vi vir de fora. Estava definida demais e era muito grande. Talvez um morcego ou outro animal tivesse passado e refletido sua sombra, era a única explicação plausível.
Então eu senti. Um vento gelado me rodeou rapidamente. Foi suave como um toque de seda, mas gelado como a morte. Por mais estranho que pudesse parecer, o ar veio de trás, da parte oposta à janela, e a cortina leve nem se moveu. Nesse rápido e arrepiante momento, ouvi um sussurro no ouvido que não identifiquei. Tive a plena sensação de ser uma voz, alguém falando, sei lá.
Meus pelos se eriçaram e fiquei paralisada um instante. Mas, tão rápido quanto veio, o vento e o sussurro se foram.
- Droga! – falei deixando o ar sair dos pulmões. Eu tinha prendido a respiração com o susto.
Era isso, eu estava definitivamente louca. Essa excitação toda com os trabalhos de pesquisa e planejamento estavam me consumindo. Tomei um banho quente e deitei na cama, sentindo a cabeça doer e o sono se afastar cada vez mais. Por precaução, deixei uma faca sob o travesseiro, junto com a pistola.
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