Life
22 Capítulo 21
Notas iniciais
Boa leitura!!!
A noite estava fria e nós mantínhamos silêncio absoluto. Lá fora, nada podia ser ouvido. Alex ficou de guarda em frente à porta do porão, com o facão recém-amolado na mão. Os soldados improvisaram algumas tábuas e pregaram a porta por dentro, nos mantendo trancados em segurança.
A noite passou ligeira, e com quase nenhuma conversa entre nós que nos revezamos para dormir. Foi por volta das quatro e meia da manhã quando ouvimos um barulho vindo de fora. A tensão tomou conta do grupo e eu logo fiquei de pé, com a pistola engatilhada na mão. Nos bolsos da calça eu acabei por repor um canivete e outro vidrinho de água benta, porque nunca se sabe.
Alex fez sinal para guardarmos silêncio e todos aguçaram a audição. Um som alto e irritante começou do lado de fora, como se estivessem arranhando alguma coisa, e estavam. Ouvíamos claramente o arrastar das garras na porta de madeira que nos selava no porão. O barulho era alto e insuportável. Nós tomamos distância e Alex se posicionou. A qualquer momento seríamos descobertos por esses malditos vampiros! Que merda, mal tínhamos começado a viajem e já estávamos enfrentando problema.
Os grunhidos começaram e se juntaram ao som horripilante do arranhar da madeira. Mas era um grunhido diferente, menos agressivo. Tudo estava indo mal, aquilo estava muito estranho. Por quase cinco minutos aqueles sons nos intimidaram até que, de repente, houve silêncio.
Minha respiração estava acelerada e alguns dos homens suavam. Eles iriam arrombar a porta a qualquer momento. A tensão era extrema e insana, o silêncio, ensurdecedor.
- Eles estão lá fora? – Marcos perguntou em tom minimamente alto.
- Eu não sei, não vou sair para descobrir. – Santana respondeu apontando a submetralhadora para frente.
- Calem a boca! – Alex falou e percebi a tensão em seu corpo.
Permanecemos daquele jeito pelo resto da madrugada, até que os relógios apitaram o início do dia. Nenhum ataque foi feito.
Resolvemos esperar mais algumas horas para ter certeza de que os sol brilhava no céu. Pouco antes das oito nos preparamos pra sair. Com mochilas nas costas e armas em punho, deixamos Alex abrir a porta, depois que as tábuas foram retiradas. Ele abriu com cautela, pois esperávamos uma armadilha qualquer. O que vimos, entretanto, foi muito bizarro.
O chão diante do porão estava preto. O sangue fedorento e viscoso começava a escorrer lentamente escada abaixo. Era uma quantidade absurda do líquido que manchava também as paredes, escorrendo devagar.
Alex tremeu com o cheiro e seus músculos saltarem. Não precisei ver os olhos para saber que estavam brancos e brilhantes.
Ele avançou na frente e foi vasculhar a casa a procura de algum vampiro, mas retornou sem encontrar nada. Estava limpo. Na porta do porão, do lado de fora, estavam as marcas da noite anterior. Vários riscos e pedaços de unhas estavam espalhados na porta. No centro, uma cruz enorme talhada pelas garras na madeira.
...
Pegamos as motos em silêncio. Nenhum de nós conseguia achar uma explicação para o que aconteceu. Antes de subir na garupa de Júnior, vi Alex me olhar e, discretamente, ele acenou para que eu fosse com ele.
Caminhei até Dornelles e pedi pra trocar comigo. Ele concordou sem reclamar e sentei na 1000cc, segurando a cintura de Alex que logo acelerou na frente dos outros. Andamos a toda velocidade numa estrada limpa e de asfalto conservado. De todas a motos, a de Alex era sem dúvidas a mais potente. Eu estava maravilhada com o desenvolvimento do motor e me assustei levemente quando ele puxou assunto.
- E aí, qual a explicação agora? – ele perguntou gritando para que eu pudesse ouvir.
- Eu não sei! – respondi também gritando – Isso não faz o menor sentido pra mim! Você acha que foi um deles?
- Tenho certeza! – Alex respondeu enquanto iniciava uma curva aberta que nos forçou a inclinar o corpo – Eu senti que era um deles lá fora.
- Mas esse comportamento... isso não faz sentido. Nunca vi isso antes. E o que era todo aquele sangue no chão? Você encontrou o corpo dele em algum lugar da casa? – perguntei apertando-o e chegando mais perto para não ter que gritar tanto.
- Não! Não tinha nada lá. Não senti nem seu cheiro. Parecia como seu alguém tivesse sangrado o vampiro que fez aquilo na porta e desaparecido com o corpo. – ele respondeu.
Fiquei pensativa. Tentava juntar as peças, mas nada fazia sentido pra mim. Involuntariamente lembrei das palavras de Lauriê e daquele sonho maluco dela. Foi depois de um tempo que acrescentei:
- Você está achando que foi ele, não é? — falei remetendo ao vampiro misterioso que nos seguiu.
Alex acenou com a cabeça, mas não respondeu. De repente, todo aquele comportamento estranho do vampiro podia não ser tão aleatório ou impensado assim...
Por volta das 13h, paramos em uma bifurcação. Nós sabíamos que seguir para um dos lados levaria a mais de um dia de atraso, enquanto que o outro era mais complicado e curto.
- Vamos decidir de uma vez. — Marcos falou quando todas as motos estavam reunidas – Bom, quem vota pelo atalho?
Todos se entreolharam e acabaram por levantar as mãos a maioria, incluindo eu. Seria mais arriscado andar pelo mato com as motos, mas também seguir mais um dia de estrada não era assim tão melhor.
Começamos a caminhada, com os caronas empurrando as motos ao lado do corpo. A moto de Alex era pesada, mas valia a pena apenas para manuseá-la. Um dia eu pilotaria aquele bebezinho...
Duas horas depois chegamos até o rio. Ali teríamos que improvisar uma balsa para atravessar as motos, o que levaria algumas horas pra fazer. Decidimos dividir duas equipes. Uma montava o acampamento enquanto a outra juntava as coisas para a balsa que usaríamos pela manhã. Quando os relógios apitaram estávamos prontos para passar a noite. Ali era um bom lugar. Geralmente os vampiros não circulavam muito perto de água corrente. Pudemos relaxar um pouco mais, embora ainda fizéssemos revezamentos para a vigília.
Foi quando estava descansando em uma das barracas que Júnior me perguntou:
- E aí, tá rolando mesmo algo entre você e o Alex?
Quase me engasguei com a água que bebia do cantil.
- O quê? – perguntei a ele que estava na barraca comigo. Marcos dormia profundamente.
- Não sei, parece que vocês são íntimos. – ele disse baixando a cabeça e olhando pra arma em suas mãos.
- Júnior, eu não sou íntima de Alex, não mesmo. – falei rindo levemente.
- Isso é bom... – ele levantou e me encarou.
Tinha um sorriso bonito nos lábios, eu podia ver, e embora a luz da lanterna estivesse fraca pra não chamar a atenção de prováveis vampiros errantes, eu poderia jurar que ele estava vermelho.
- Bom por quê? – perguntei bancando a inocente.
- Porque assim eu tenho alguma chance com você. – ele disse.
Bom... como eu explicaria a ele? Preferi não dizer nada. Normalmente eu daria o fora nele, mas Júnior sempre foi tão amistoso e respeitador... ele não merecia minha indiferença ou minha acidez.
- Não se iluda, eu sou difícil! – falei rindo, levando para o tom da brincadeira.
- Eu sei... mas vale a pena. – ele respondeu mais sério do que eu pensei.
Encarei o soldado. Ele estava diferente. Parecia determinado. Nessa hora ouvi um pigarro e vi a figura de Alex entrar na barraca. Ele bateu no braço de Júnior e chutou Marcos de leve, acordado o outro.
- É hora do turno de vocês. – ele falou sério.
Júnior fechou a cara e depois olhou pra mim, fazendo um sinal com a cabeça de despedida. Marcos saiu também, logo depois de ter mandado Alex ir pra puta que pariu.
- Esse cara não desiste mesmo? – Alex falou sentando no lugar de Júnior e colocando o facão ao seu lado.
- Alex, deixa ele. – falei rindo e ajeitando o cabelo para prendê-lo.
Ele me olhou através da luz fraca.
- Não me diga que você gosta das investidas baratas dele? – Alex falou sacudindo a cabeça e logo acrescentou — Será que pode deixar o cabelo solto?
Encarei-o sem entender.
- É que se qualquer coisa acontecer... eu posso tentar me controlar. – ele falou rapidamente.
Engoli seco e falei.
- E você diz que as cantadas dele são baratas...
Alex riu e, num impulso, girou o corpo e veio em minha direção. Colocando a mão ágil em minha nuca, aproveitando que eu estava com os braços pro alto tentando prender o cabelo. Ele conseguiu me pegar. Com jeito, ele colou a boca na minha, enquanto mantinha a mão firme em minha nuca.
- Tem razão... eu sou mais direto que ele.
Depois de dizer isso, senti seus dentes morderem de leve meu lábio inferior e no instante que abri a boca, senti sua língua na minha.
Eu queria empurrá-lo e dar um belo tapa na cara dele, mas simplesmente não consegui. Minhas mãos caíram junto com meu longo cabelo e as apoiei em seu peito, na intenção de afastá-lo... mas não o fiz. Mais uma vez, senti o beijo avassalador e envolvente de Alex e me entreguei. Eu queria sentir isso de novo. No fundo, esperei por isso todo esse tempo, mesmo sem admitir.
Alex me sugava a língua de forma desmedida, passando logo após a me invadir com desejo. Era tão gostoso e sincronizado que parecia combinado. Jamais tinha beijado alguém como ele. Sentindo um desejo forte por aquele beijo, afastei-me levemente e lambi seus lábios lentamente para depois mordê-los muito suavemente, provocante. Alex ficou sem respirar e senti seu aperto mais forte em meu cabelo.
Ele soltou um som de ansiedade pela boca e apertou ainda mais seu corpo ao meu, segurando-me com ambas as mãos. Por alguns segundos, senti-o me invadir com agressividade, como se precisasse sentir meu gosto tanto quanto eu precisava sentir o dele. Mas logo ele suavizou um pouco, e foi simplesmente perfeito. O jeito que me beijava era tão profundo e delicioso, que não consegui pensar.
Mas então, tudo parou de forma brusca. Ao longe, um grunhido alto na floresta fez com que parássemos ofegantes. Eu me assustei e abri os olhos rapidamente, já com a arma preparada para o que estava por vir.
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