Life
21 Capítulo 20
Notas iniciais
Boa leitura!!!
Fiquei pasma quando ouvi o relato de Alex. Não é que o muquirana tinha conseguido?! Os soldados se animaram, finalmente tínhamos as informações. Eu estava extasiada, mal podia acreditar que iria pra base onde tudo começou. Teria acesso livre aos arquivos secretos e a todos os detalhes do projeto maldito. Evelyn daria qualquer coisa para estar no meu lugar se estivesse viva.
Nós estávamos no galpão onde geralmente nos reuníamos e valeu a pena a espera por Alex, que só retornou da conversa com Lauriê ao amanhecer. Estava sendo tão bom e tão tranquila nossa estada em São José que dava uma dor no coração ter de voltar para a insegurança da estrada, mas teria que ser assim. Eu iria até o fim com isso, eu encontraria a cura.
Alex mal terminou de dar a notícia e contar sua história e Olavo já se adiantou.
- Bom, como nossas horas aqui estão contadas, vou tratar de fuder o máximo que puder... as opções estarão reduzidas no caminho de volta... – ele falou olhando para minhas pernas sem o mínimo de pudor.
Ele passou a língua nos lábios enquanto me olhava. Senti um arrepio na espinha, mas me mantive firme. Santana e Carvalho saíram em seguida rindo do vagabundo.
- E então? Qual o plano e quando partimos? – voltei a perguntar animada. Meu sonho estava a um passo de ser realizado.
- Partimos é muita gente. Quem disse que você vem com a gente?
Meu sorriso se desfez na hora e voltei o corpo para Alex, sem acreditar no que estava ouvido. Ele só podia estar de sacanagem com a minha cara.
- Como é? – perguntei colocando as mãos nos quadris.
- Bom, eu consegui a informação, no fim das contas, e o nosso acordo dizia claramente que nós viríamos com você até São José para que você procurasse a velha e ela está bem aqui. Pronto, está feito.
Alex falou com naturalidade e com objetivo. Senti meu sangue ferver.
- Alex, do que você está falando? – Júnior perguntou sem entender. Eu estava tão puta da vida, que nem conseguia falar.
Ele virou na direção dos demais.
- Vocês podem nos deixar a sós? – Alex pediu.
Sem questionar, os homens se retiraram. Esperei o que pareceu uma eternidade por isso. Eu iria mata-lo, simplesmente mata-lo.
Assim que Dornelles passou e fechou a porta, eu avancei. Sentia meu rosto quente.
- Que porra é essa?
Fiquei cara a cara com ele. Alex parecia tranquilo demais pra quem estava prestes a morrer estrangulado. Ele mantinha um brilho nos olhos que não decifrei.
- Calma, só queria ter uma conversa em particular.
- Pois diga, conseguiu minha atenção. – respondi encostando na parede e cruzando os braços.
- Eu sei que você não vai mudar de ideia e que vai fazer o que for preciso pra chegar até aquela maldita base de pesquisa. – ele começou caminhando pra perto de mim – Mas antes de chegarmos lá, teremos que voltar pra província de Naska, encontrar com os pesquisadores e aumentar o contingente de soldados. Nós os escoltaremos até a base e lá ficaremos até encontrar alguma resposta. O caminho vai ser longo e difícil e minha atenção vai estar totalmente voltada para a proteção dos velhos cientistas porque eles são nossa esperança. Eu só quero que entenda o que isso representa.
- Eu não estou entendendo... você está fazendo rodeios, Alex, fala de uma vez o que você quer.
Encarei os olhos de tom azul esverdeados, aguardando uma resposta. Ele parecia se conter, talvez estivesse procurando as palavras certas.
- O fato é que eu não vou poder ficar com você o tempo todo e isso me deixa preocupado.
- Mas que merda é essa, Alex, você é minha babá, por acaso? Eu não preciso de você me vigiando, corta esse papo furado.
Fiz menção de sair, aquilo estava me irritando. Alex segurou meu braço e seu rosto estava transtornado.
- Será que você não percebe o perigo que corre, Manuella? – ele perguntou alterado, segurando meu braço com força – Você não tem ideia do que aqueles caras estão querendo com você! Imagina você voltar pra estrada com eles? Depois que pararmos em Naska o grupo vai aumentar. Eu não tenho tantos conhecidos quanto Olavo e os outros, a maioria que vai viajar conosco é da laia dele! Você não vai durar nem um minuto nas mãos daqueles caras! Dá pra entender agora?
Engoli seco e senti o pulso acelerar. Não sabia se era pelo conteúdo das palavras ou pela simples proximidade dele, mas eu estava ficando nervosa.
- Alex, eu entendo os riscos que corro desde o dia em que aceitei vir com vocês, mas quando eu digo que nada vai me impedir, eu estou falando sério.
- Você sabe o que está dizendo, Manuella? Eu não vou poder proteger você o tempo todo, nem mesmo Marcos, Júnior ou Dornelles. Eu sei que você é boa, que é independente, mas a coisa pode sair de controle. Olavo é esperto e ele está suportando muita coisa sua. Eu sinto que ele planeja algo e queria que você tivesse isso em mente... mesmo você sendo boa em se defender, ele é mais forte que você, mais perverso que você e pode te dominar facilmente e você não vai ter como fugir.
Ficamos nos encarando por um tempo. Senti o estômago dar voltas só de pensar naquele monstro me segurando, mas eu não iria desistir só por causa da ameaça dele. Eu seria capaz de qualquer coisa pra seguir em frente, até mesmo mata-lo pra me defender.
- Eu entendo o que você diz e também agradeço sua preocupação. Mas sinceramente, isso não me faz mudar de ideia. – falei sério para o homem preocupado a minha frente.
Novamente o silêncio. Eu percebia o olhar dele mudar. A raiva passou e deu origem a preocupação, que deu espaço a um brilho indecifrável.
- Não me faz parar agora que estou tão perto. Esse é o objetivo da minha vida. – falei sendo sincera – Eu sei o que pode acontecer... mas não vai.
Alex soltou meu braço de seu aperto, mas sua mão continuou encostada em mim. Ele subiu de leve a mão, acariciando meu braço com os dedos leves. Por onde seu toque suave passava, meus pelos se arrepiavam. Senti seu rosto mais perto.
- Não suportaria que alguém te machucasse, ainda mais dessa forma. – ele falou me olhando, assim que sua mão alcançou meu rosto.
Controlei a respiração, que estava levemente acelerada. Meus olhos não conseguiam desgrudar daquela cor tão incomum.
- Não existe nada que eu possa fazer pra te convencer? – ele perguntou finalmente.
- Não. – respondi.
- Vem pra Naska com a gente. – ele insistiu — Lá eu tenho conhecimento, tenho algumas regalias, você pode ter uma boa vida ali, segura. Eu vou com os cientistas e prometo encontrar a cura, prometo que vou conseguir.
- Não, Alex, para. Eu não vou ficar em lugar nenhum. Eu vou com você e com os outros. Eu não quero esperar por um milagre, eu quero fazer acontecer, é isso que eu quero. Já esperei demais.
Ele deixou a mão cair, mas não deixou de me encarar.
- Por que você torna tudo tão difícil? – ele perguntou com a voz mais baixa.
- Eu não torno as coisas difíceis, eu só não quero ser forçada a nada. Não quero que Olavo nem ninguém tenha poder sobre mim ou de me afastar de meu objetivo.
Alex me encarou por um tempo e ficamos calados.
- Tenha cuidado. – ele disse antes de dar um passo pro lado. Finalmente eu o tinha convencido.
- Obrigada. – falei passando por ele e indo até a mesa em que estava sentada. Peguei uma pequena bolsa que havia deixado ali.
Alex caminhou na direção da porta e eu não pude deixar de ser irônica com ele.
- Você vai se despedir da loirinha? É melhor aproveitar o tempo que tem, já que partimos amanhã. – falei sem encará-lo. Eu tinha um sorriso falso no rosto.
Ouvi seu riso baixo.
- Eu não estive mais com ela nem com ninguém, se quer saber. – ele falou – E também não pretendo me despedir da garota porque ela vai insistir novamente em vir comigo.
- Ela queria viajar com você? – perguntei encarando-o finalmente.
Alex tinha um sorriso no rosto e a expressão divertida. Ele me disse antes de sair:
- Sim, mas eu disse a ela que não podia me acompanhar... a única que consegue fazer isso é você.
Alex saiu e me deixou lá, com um sorriso bobo no rosto.
...
Finalmente estávamos prontos para partir. Nós reajustamos no mapa uma rota alternativa, diferente da que fizemos. Sairíamos de São José diretamente para Naska, sem voltar por Santa Clara. O trajeto seria mais longo, embora mais seguro. Para podermos agilizar o processo e não perder tempo de viajem, decidimos seguir apenas em motos. Em São José havia uma frota muito rica, embora mal cuidada. Demos um jeito nas motos que vieram conosco e decidimos partir em duplas para reduzir o número de máquinas que deveríamos camuflar durante a noite.
É claro que não fui com Alex. Eu queria distância daquele cara antes que fosse tarde demais. Júnior me levou em sua garupa enquanto os demais se dividiram. Nas mochilas, muita munição e boa comida, provida por São José. Antes de partir eu olhei pra Lauriê, que mantinha suas mãos agarradas ao terço de madeira, nos olhando do portão. Em seu pescoço o colar indígena que nada combinava com a cientista que acenou e, discretamente, e fez o sinal da cruz.
Partimos a toda velocidade rumo a nossa primeira parada. Seria uma semana inteira de estrada onde tudo poderia acontecer. Eu não conseguia parar de pensar em como os vampiros estavam evoluindo. Temia que houvesse outra emboscada pra nós, mesmo que fosse quase impossível para eles descobrirem pra onde iríamos. Eu achava que eles estavam apenas aperfeiçoando as técnicas de caça, já que sangue humano estava cada vez mais escasso, Alex, por outro lado, pensava que estava sendo conscientemente seguido por aquele vampiro esquisito com o qual se deparou por duas vezes.
Nós avançamos bastante e chegamos até nosso objetivo muito antes do pôr do sol. Reabastecemos as motos no posto abandonado e seguimos para a cidade abandonada para passar a noite. Depois de camuflar as motos no mato, seguimos para a velha cidade de Primeira Cruz, que se resumia a um vilarejo pequeno, com algumas casas simples e comércio limitado.
Caminhávamos em grupo, a espera de qualquer sinal de vampiros entocados. Ainda tínhamos uma hora para explorar tudo antes do anoitecer. Por quinze minutos andamos espalhados, verificando as casas e lojas abandonadas, mas nenhuma delas apresentava sinal de vida, ou de morte. Estava completamente vazia. Era claro que em algum momento houve uma evacuação de emergência naquele lugar, pois tinham pratos vazios sobre as mesas, bicicletas abandonadas nas ruas e coisas espalhadas por todos os lugares.
Caminhando um pouco mais, encontrei uma loja trancada. Limpei a poeira do vidro e dei uma olhada em seu interior. Era uma loja relativamente grande, como uma loja de departamentos em tamanho mini. Com a coronha da pistola, quebrei o pequeno vidrinho da entrada principal e coloquei a mão dentro até chegar à fechadura.
A loja por dentro estava organizada e a luz do dia me permitia enxergar o lugar como um todo. Não havia sinal de vampiros ali e tinha um setor interessante de roupas femininas. Sem me conter eu caminhei por entre as roupas empoeiradas e jamais usadas. Entre os jeans e camisas da época eu encontrei diversas peças do meu gosto. Eu costumava ser vaidosa quando pequena, gostava de me arrumar e chamar a atenção, mas isso foi há muito tempo. Nos dias atuais, chamar atenção era o que eu menos queria... mas eu não podia resistir a pelo menos uma roupa nova.
Guardei a pistola e procurei uma sacola. Rapidamente coloquei duas calças jeans e um short dentro dela, esperando que servissem e coubessem em minha bolsa. Eram raras as oportunidades de conseguir roupa nova desse jeito. Achei algumas blusas e peguei duas. Acho que iriam servir. Quando estava indo na direção oposta, passei o olho na seção de vestidos. Caminhei até lá e vi diversos modelos bonitos. Peguei um nas mãos e coloquei diante do corpo. Era curto, mas não muito. Tinha um tecido leve que fazia um degradê entre o branco e o lilás. Não tinha alças e o detalhe era a fita larga de cetim presa abaixo do busto.
- Se você usar isso um dia, eu não responderei por mim.
Virei assustada ao ouvir a voz de Alex. Ele tinha nas mãos um sutiã preto, com renda e pequenas pedrinhas brilhantes.
- Eu estava te imaginando com isso, mas confesso que o vestido me chamou mais a atenção.
Sacudi a cabeça e deixei o vestido onde estava.
- Alex, deixa de ser infantil. – falei passando por ele e empurrando-o de leve. Ele riu.
Voltei rapidamente e tirei o sutiã de suas mãos.
- Eu gostei disso. – falei pegando a linda peça que era, coincidentemente, meu número exato.
Dobrei a bolsa o máximo que pude, tirando o ar para enfiar aquela roupa dentro da mochila e encontrei os outros no centro da pequena cidade.
- Bom, — Dornelles assumiu a ponta – Acho que estamos bem. Aqui parece livre de qualquer sinal de vida ou de mortos-vivos. O lugar mais seguro que vi foi uma casa em concreto. Ela tem dois andares e fica próxima de onde escondemos os veículos. A casa tem um porão que deve servir.
Os soldados concordaram e rumamos até a casa proposta por Dornelles. O porão estava sujo e com teias de aranha gigantescas. Limpamos muito superficialmente o local, quando os relógios apitavam o fim de mais um dia. Cada um estava na sua e tapamos o único basculante que dava visão para fora, assim, pudemos deixar uma lanterna acesa, como uma lamparina. Cada um de nós se apoiou em sua própria mochila e esperou a noite chegar.
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