Life
20 Capítulo 19
Notas iniciais
Estes caps mais calmos são necessários pra que a história seja explicada...
Depois desse cap, vamos agitar um pouco....
:)
Boa leitura!!!!
“Lauriê me contava coisas incríveis, de como o projeto começou e do suporte que tinham dos governos. Tudo era feito secretamente, em parceria com outros países no mundo que também estavam movendo suas peças por debaixo dos panos, já prevendo uma guerra se aproximar.”
“Ela foi convocada para trabalhar no MEV por ser reconhecidamente brilhante como cientista molecular e ter contribuído com muitos avanços importantes na área da biotecnologia. O projeto era inovador e arriscado. A missão dos cientistas era desenvolver um vírus de rapidíssima disseminação que pudesse debilitar batalhões inteiros. Com essa arma nas mãos, qualquer exército sairia vencedor.”
“O vírus original de escolha foi o famoso ebolavirus, o Ebola, cujo tempo de incubação era curto e seus efeitos devastadores para o organismo humano. A intenção, no entanto, era modificar o vírus geneticamente para que a doença em sua forma mais grave não fosse fatal, apenas gravemente debilitante. E assim foi feito.”
“Diversos testes em animais foram realizados com sucesso nas bases militares e o projeto avançou para a fase final, que eram os testes com humanos. No início, alguns próprios membros da equipe científica inicial se voluntariaram para os testes, uma vez que tinham plena confiança nos resultados favoráveis que haviam encontrado até então.”
“A fase três teve início e, como esperado, os voluntários foram infectados e responderem exatamente como se previra. O vírus era combatido pelo organismo naturalmente e em questão de alguns dias após o surgimento dos sintomas, a pessoa voltava ao normal. A pesquisa foi um grande sucesso, pois se tratava de um vírus que se espalhava rapidamente e deixava muito doente, mas que não era fatal.”
“No entanto, as pesquisas avançaram. Em algum momento, que Lauriê não soube precisar, surgiu a ideia de incrementar o MEV1, tornando-o ainda mais facilmente transmissível. Então, eles decidiram fundir o material genético do MEV1 ao de um agente infeccioso recém-descoberto. Era uma espécie de bactéria encontrada apenas em um lugar no mundo. Uma região de ilhas próximas à América Central que se descobriu ser muito rara. A bactéria era totalmente diferente de tudo o que era descrito. Ela se comportava como um vírus, sendo disseminada facilmente pelo ar ou pelo contato físico e, em questão de minutos, podia ser distribuída em uma pequena população. A doença original que essa bactéria causava era desconhecida, pois os infectados não pareciam apresentar nenhum sintoma negativo.”
“Assim, eles juntaram os genomas do MEV1, que causava uma grave e debilitante doença, embora não fosse fatal, com as habilidades de disseminação ainda mais incríveis da bactéria, que não parecia causar nenhuma infecção aparente.”
“Os testes em animais mostravam uma habilidade impossivelmente rápida de transmissão e os animais ficavam com os mesmos sintomas induzido pelo MEV1. Os cientistas ficaram animados, pois tudo o que planejaram tinha funcionado. Eles tinham nas mãos a arma perfeita e ainda mais aperfeiçoada, que batizaram de MEV2. Era melhor do que jamais imaginaram... até iniciarem os testes com humanos.”
“O resultado foi desastroso.”
“No laboratório onde os testes foram feitos infectando dois voluntários com o MEV2, a resposta do corpo humano ao agente foi imediata. Os voluntários começaram a entrar em choque poucos minutos após a infecção e tiveram uma morte muito dolorosa, com a febre hemorrágica alcançando níveis extremos. Os médicos e a equipe de cientistas tentaram de tudo, mas eles morreram em questão de hora. O pior foi que minutos mais tarde, a equipe médica que tratava os voluntários começou a apresentar os mesmo sintomas e a infecção se espalhou como um raio no laboratório. A parte da pesquisa foi isolada no prédio, hermeticamente separada das pessoas saudáveis ainda não infectadas.”
“Foi um caos. Ninguém estava entendendo nada e a velocidade e agressividade do MEV2 assustou a todos. O projeto foi vetado e começou-se a trabalhar no provável antídoto caso o vírus vasasse. Com medo de não conseguir criar o antídoto eficiente e com medo de um vazamento, o conselho científico decidiu isolar e destruir a aberração que criaram. Mas foi tarde.”
“Uma ordem vinda de altíssimo escalão determinou que o MEV2 fosse solto em campo de batalha. Os cientistas protestaram e disseram que não havia um antídoto para aquilo, que as coisas sairiam de controle, mas não adiantou. O poder sempre fala mais alto e, no auge da terceira guerra mundial, onde o arsenal nuclear destruía massas, o ataque biológico de grandes magnitudes era a única solução para a vitória.”
“Uma pequena amostra do MEV2 foi solta no campo inimigo e foi mais que suficiente para exterminara todos, sem discriminação. O vírus não escolhia os soldados inimigos, ele apenas infectava e matava, cada vez mais.”
“O caos estava formado. As bases de isolamento e refúgio militar foram preparadas. O MEV2 estava destruindo a raça humana e não havia nada que pudesse impedi-lo. Mas o pior ainda estaria por vir. No meio das ruas, no meio dos campos de batalha, os corpos apodrecidos voltavam a ganhar vida e assim surgia a espécie maldita.”
Eu ainda estava amortecida com tanta informação e foi com esse sentimento que recontei a história toda para os outros. Dornelles, Júnior e Marcos pareciam não acreditar tanto quanto eu. Alex permaneceu calado e pensativo.
- Então, como exatamente essa mulher pode nos ajudar, se ela já desistiu faz tempo de achar uma cura? – foi Marcos quem perguntou após o término do meu relato.
- Eu não sei. Lauriê parece uma pessoa ressentida com ela mesma e com peso na consciência pelo o que fez. Eu sei que a culpa não foi dela, mas de uma forma direta ou não, ela participou do projeto e isso a deixa com remorso. – falei pensativa, sentando sobre a mesa na pequena sala de reuniões – A menos que...
Uma visão preencheu minha mente e lembrei da conversa inicial que tive com a ex-cientista.
- A menos que o quê? – Dornelles insistiu, aguardando minha resposta.
Olhei diretamente para a figura que estava afastada. Ele vestia uma camisa branca, sem mangas e exibia os braços levemente mais definidos. Esses dias em São José, os soldados haviam decidido treinar pesado para estarem em forma quando fosse o tempo de retornar. Ele percebeu o silêncio e me encarou com os olhos de cor tão diferentes.
Alex já havia feito a barba – infelizmente – e aparado um pouco o corte de cabelo. Estava com a expressão séria e mantinha as mãos nos bolsos da calça camuflada.
- A não ser que você fale com ela. – completei o pensamento, deixando meus olhos admirarem um pouco mais seu corpo.
Ele franziu o cenho e finalmente se moveu, caminhando para mais perto de nós.
- Explique. – ele disse ainda sem entender.
Eu me empolguei, estava certa de que ele era o único que podia convencê-lo. Lauriê era diferente hoje do que já foi um dia. Eu sabia que ela daria muito mais ouvidos ao ‘salvador’ do que a uma pesquisadora como eu.
Cheguei o corpo pra frente, balançando as pernas pra frente e pra trás.
- Simples. Lauriê é uma pessoa de fé, uma pessoa que, no auge da loucura e desespero teve um sonho estranho que mudou sua vida. Depois dessa ‘epifania’, a velha simplesmente passou a acreditar no que antes não acreditava. Agora ela acha que a cura pra essa merda não vem do homem, mas de Deus. Eu não consigo pensar em ninguém melhor que o Salvador para convencê-la a nos ajudar.
Ele me encarou ainda em dúvida, parecia pensar.
- E você quer que eu converse com ela, diga que sou um enviado de Deus e peça ajuda? – ele perguntou no seu tom mais irônico, com um sorrisinho cínico no rosto.
- Ou você pode jogar seu charme irresistível, isso também pode funcionar. – falei sem piscar em tom igualmente irônico.
Alex não respondeu, permaneceu com a mesma expressão.
- E aí, vai tentar ou não? – pressionei.
Ninguém falou mais nada. Talvez eles tivessem percebido uma tensão entre nós ou, simplesmente, preferiram não se meter. Eu dei um impulso pra frente e ajeitei o cabelo, falando pra ele antes de sair:
- Só você vai poder convencê-la.
Deixei os homens pensativos e caminhei na direção da enfermaria, esperando que ele me trouxesse boas notícias para variar.
...
“Ou você pode jogar seu charme irresistível, isso também pode funcionar.” Manuella jogou sua frase em meus peitos.
Respirei fundo. Queria responder que meu charme não era tão irresistível assim, caso fosse, ela estaria comigo agora. Deixei passar. Essa mulher me deixava sempre com os pensamentos a mil.
Durante esses dias nós quase não nos vimos ou falamos. Ela estava agindo normalmente comigo, embora eu tenha cometido a barbaridade de deixa-la presenciar aquela cena. Isso doía um pouco... saber que eu não parava de pensar nela um instante e que ela não ligava pro que eu fazia ou deixava de fazer. Isso estava mal, muito mal. Eu não queria admitir, mas me sentia balançado por ela.
É claro que isso era fácil demais. Manuella era linda e tinha uma personalidade pulsante, qualquer homem ficaria irresistivelmente tentado, mas não era só isso. Eu não conseguia esquecer a sensação de beijá-la... acho que jamais esqueceria. Nunca senti tanta necessidade de ter uma mulher em meus braços e nunca me senti tão satisfeito, além de ter sido a coisa mais gostosa que provei na vida.
- E aí, o que está rolando? – a voz de Marcos me trouxe de volta à realidade.
- O quê?
- Alex, você vai ou não fazer o que a Manuella falou? – Dornelles perguntou caminhando até mim e me dando um leve soco no braço.
- Eu não sei! Isso é ridículo, eu nem conheço a velha, como posso convencê-la a nos ajudar? – perguntei indo pra longe deles.
- Joga seu charme, garotão. – Juninho ironizou, embora eu tenha sentido claramente que ele estava meio irritado. Eu gostei.
- OK, ok. Não preciso de mais pressão. Eu vou falar com ela, mas não garanto nada.
Saí dali rapidamente. Lembrar que esse babaca estava querendo Manuella, me fazia ficar irritado. Júnior era um bom soldado e um excelente companheiro de equipe, mas isso não o impedia de ser um babaca... um que eu estava desgostando mais a cada risinho idiota que dava pra ela. Otário.
Fui de encontro com a mulher que era nosso objetivo. Manuella havia conversado com ela na tarde do dia anterior e eu saberia exatamente onde encontra-la... só não sabia o que dizer.
Cheguei bem no meio da oração. A capela estava cheia e as pessoas tão concentradas e focadas que não repararam minha presença. Pelas características que Manuella descreveu, pude identificar Lauriê. Sentei-me ao seu lado, no banco dos fundos e esperei até que ela percebesse minha presença.
- Olá. – falei meio sem jeito.
A mulher me encarou com olhos castanhos e brilhantes e sorriu.
- É engraçado como as coisas acontecem, não é mesmo? – ela falou me encarando sem parar – Eu sonhei com você e agora você está bem aqui ao meu lado.
- Sonhou comigo? – perguntei intrigado.
- A mocinha não te contou? – a velha questionou, sem tirara o sorriso do rosto.
- Ah, não, ela me disse que sonhou com um velho índio, na verdade. – respondi fazendo esforço para lembrar dessa informação.
- Pois é... eu não contei tudo pra moça. – ela disse – Manuella, não é?
- Sim... Manuella.
Lauriê sorriu e me avaliou.
- Está aqui por que ela lhe pediu?
- Na verdade, ela me intimou. – respondi sorrindo e Lauriê riu baixo com isso.
- É uma menina impulsiva e muito esperta. – ela disse pra mim.
— É , e muito linda também. – completei com um piscar de olho.
Lauriê confirmou com a cabeça.
- Mas me diga, o que quer?
- Bom, na verdade, não é apenas Manuella que estava atrás de você. Minha missão também era encontra-la. Em minha província os pesquisadores remanescentes chegaram até alguns nomes de pessoas envolvidas no projeto MEV. Alguns deles nós descobrimos estarem mortos ou desaparecidos. O seu nome foi o único que poderia nos levar a algum lugar de fato... e bem, aqui estou.
- E agora você quer me convencer a ajuda-los numa cura, é isso?
Eu olhei para a experiente e sagaz mulher. Ela não precisava realmente que eu disse nada, sem poder de dedução era impressionante.
- Eu entendo seu objetivo e até entendo a razão pela qual Manuella acha que você é o único que poderia me convencer, mas de fato, eu sinto que não há nada a ser feito.
- Desculpe, Lauriê, mas está enganada. Olha, eu não sou um cientista, não consigo compreender metade daquela história que Manuella me contou, mas de uma coisa eu sei: se foi criado um vírus, pode ser feita uma cura. Manuella está certa quanto a isso e nós precisamos tentar.
- Meu jovem... – a senhora começou – Nós tentamos. Tentamos anos a fio achar algo que pudesse reverter o quadro. Não apenas eu, mas muitos pesquisadores de competência também se esforçaram, mas nada era capaz de impedir o que aconteceu. Nós só estamos vivos aqui hoje porque a Natureza foi caprichosa e nos fez imunes ao MEV2, mas não há nada, entenda, nada que o homem pode fazer que nos livre dos vampiros.
Eu a ouvia e via tanta sinceridade e verdade em suas palavras, que não me deixavam argumento. Eu acreditava que podia ser feita uma cura, mas precisava que ela acreditasse também. Sem a ajuda dela, não chegaríamos muito longe.
- Lauriê, sabe... eu sei que você e a maioria das pessoas pensa que eu sou um salvador, um enviado de Deus para esta Terra. A verdade é que... eu não sou nada disso. Francamente? Eu sou um homem comum, que tem desejos comuns, que ri e chora como todo mundo. Eu não sei o motivo de estrar nesse transe quando estou com eles e, sinceramente, não sei dizer se é uma dádiva ou castigo imposto por Deus. Eu já matei amigos em combate, amigos queridos, por acidente ou simplesmente por ficar tão envolvido na luta que não os salvei quando precisaram. Eu sou um egoísta, Lauriê. Eu quero ter a chance de encontrar a cura não para salvar o mundo, mas pra salvar a mim mesmo. Eu só quero ter a chance de ser eu mesmo de novo e é por isso que eu luto.
Ela me ouvia absorta, entregue. Eu só disse a ela o que nunca tive coragem de dizer a ninguém. No fundo, minha luta era por um motivo completamente egoísta e não altruísta, e me doía reconhecer isso.
Ela se virou para mim e sorriu.
- Sabe, meu rapaz, eu tive a certeza de que Deus estava conosco quando tive aquele sonho estranho do qual me lembro nitidamente, mesmo depois de tanto tempo. Eu sabia que ele nos salvaria. Agora, ouvindo você, eu tenho plena certeza de que isso vai acontecer. Eu posso dar a vocês a chave de todo o meu conhecimento. Posso dar os caminhos que trilhei junto com os meus companheiros, na busca por uma cura. Mas saiba que isso não vai adiantar. A cura pra esse mal está em você, e só em você. Eu sinto isso de um jeito tão claro e quente, que me dá vontade de chorar. Você não é um homem qualquer e vai descobrir isso um dia.
Depois disso, Lauriê me passou exatamente tudo o que eu precisava saber. Ela me passou, com detalhes, a localização da base de pesquisas mais avançadas, onde os testes funcionavam. Lá estava tudo registrado, desde o princípio, e certamente era o melhor lugar para buscarmos uma cura, era nossa melhor esperança.
A pesquisadora foi precisa e passamos a madrugada inteira juntos, até que eu soubesse de cor tudo o que precisava saber. Sem as informações dela, nós jamais encontraríamos esse reduto da ciência.
Era isso, eu tinha tudo o que necessitava para seguir em frente, precisava apenas chegar lá.
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