Life
19 Capítulo 18
Notas iniciais
Vou postar esse agora e o próximo mais tarde.
Boa leitura!!!
Não permaneci por muito tempo ali na enfermaria. Rose havia me dito que jamais tinha ouvido esse nome antes e Mário, seu marido, também não. Eu me senti um verdadeiro bagaço depois daquela noite desastrosa, que chegava apenas à metade. Meu relógio apontava 03:00h e eu não tinha nenhuma pista de Lauriê, nem sabia se a mulher estava realmente aqui.
Caminhei de volta à casa dos médicos. Rose insistiu para que eu dormisse o resto da noite e eu realmente estava precisando esfriar a cabeça. Foi quando estava na entrada da pequena casa quando vi Alex vindo em minha direção. Respirei fundo e mantive o controle.
- Manuella, podemos conversar? – ele perguntou chegando perto.
- Alex, não pode ser depois, estou cansada e desanimada agora, não estou com paciência pra muita coisa.
- Desanimada? O que houve? – ele perguntou franzindo o cenho.
- Eu fui atrás de informações sobre Lauriê, mas parece que ela nunca esteve aqui. – respondi feliz por o tema da conversa ser aquele.
- Mais, que porra, ela devia estar aqui!
- Pois é, mas parece que ou a velha sumiu, ou nunca esteve aqui... ou saiu com alguma caravana para outra província, sei lá. – concordei.
- Acho que não. Os soldados daqui disseram que não parte uma caravana há meses. Essa mulher deve estar aqui, só pode. – Alex falou, pensativo.
- Será que... não está escondida? – perguntei, já pensando em mil possibilidades.
- Pra que ela se esconderia em uma província? – ele perguntou me encarando.
- São José é um lugar grande, não seria difícil. Essa mulher foi do governo, deve ter a consciência pesada pelo o que fez, ou ajudou a fazer... ou então tem medo de alguma coisa... eu não sei, existem diversas razões pelas quais alguém se esconderia. – falei caminhando para a porta, minha mente estava a mil.
- Pois é... eu mesmo tenho as minhas...
Silencio. Eu sabia do que ele estava falando e não queria ouvir.
- Manuella, sobre o que você viu, eu...
- Não, Alex, para. Eu não quero e não preciso saber de nada que diz respeito a você. Não me interessa.
Eu tentei abrir a porta, mas senti sua mão firme em meu braço.
- Manuella, por favor, eu estou tentando me explicar com você
- Explicar pra quê? Você não me deve nada Alex, pode fazer o que quiser com quem bem entender. Não me deve absolutamente nada.
Eu controlava a voz, queria mostrar que o que ele tinha a me dizer eu não queria ouvir.
- Mas eu me sinto mal que tenha visto aquilo. – ele disse simplesmente, afrouxando o perto em meu braço.
- Não se preocupe, ela estava gostando bastante, sua performance foi excepcional.
Dizendo isso eu virei e entrei na casa, fechando a porta na cara dele. Respirando rápido, apoiei as costas na porta e fiquei. Eu só podia estar maluca. Mas que ideia idiota foi aquela? Mas que porra foi essa de sair fugindo dele?
- Maldição! – falei pra mim mesma.
Ouvi quando ele se aproximou da porta e fiquei em silêncio. Nenhum som além do sacudir das árvores lá fora podia ser ouvido. Ouvi quando ele se apoiou na porta também e ficamos assim por um tempo.
Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Eu sentia um frio no estômago sempre que lembrava da cena que presenciei. Isso não podia, eu não podia estar me apaixonando por ele. Eu faria qualquer coisa para não sentir, faria o que fosse possível para me afastar.
- Eu só queria dizer que sinto muito. Não queria que visse aquilo.
Depois de ouvir a voz de Alex soando baixa e séria do outro lado, ouvi seus passos se afastando e tive a certeza de que estava em terreno perigoso...
...
Na manhã seguinte acordei cedo e saí em busca de Lauriê. Essa mulher tinha que estar em São José e eu iria encontra-la. Tratei de colocar de lado tudo em relação a Alex e ele seria pra mim como qualquer outro homem.
Segui até a enfermaria e pedi à Rose para que não dissesse a ninguém que eu estava atrás de Lauriê, mesmo ela dizendo que não conhecia esse nome. Se essa mulher estava se escondendo, com certeza não iria aparecer se soubesse que tem um bando de gente atrás dela. Meus encontros com Alex depois disso foram normais. Eu pouco o via e se via, continuava fingindo que nada aconteceu.
A província era enorme e tinha um espaço grande destinado à plantação. A comida, por conta disso, era riquíssima, sempre com mesas fartas oferecidas no grande salão principal, onde eram discutidas táticas de sobrevivência e se faziam algumas comemorações de vez em quando, o que estava sendo bastante frequente com a presença do ‘salvador’ e seu séquito.
Rose e Mário me hospedaram muito gentilmente em sua casa e eu passava muitas horas do dia ajudando-os na enfermaria, sempre aproveitando para aprender mais. Dornelles também fez o mesmo, quando não estava treinando e malhando com os outros, estava lá ajudando quando necessário. Ele era técnico em enfermagem, por isso era o médico do grupo. Certo dia ele me confessou que seu sonho sempre foi fazer medicina, mas a guerra não o permitiu. Muito familiar pra mim.
Os dias passavam rapidamente e a província de São José se mostrava quase tão agradável quanto Santa Clara. Foi em uma tarde bonita de sol que me lembrei de Helena quando vi duas jovens jogando vôlei numa corda de varal com uma bola velha. Sempre fazíamos isso quando tínhamos tempo e eu senti saudades. Fiquei um bom tempo observando as meninas que se divertiam aproveitando as escassas horas de tranquilidade asseguradas pela luz do sol.
Já fazia cinco dias que estávamos ali e não encontramos nenhuma pista de Lauriê, mesmo fazendo o possível para observar e espionar as pessoas, procurando qualquer atitude suspeita. Eu estava ficando angustiada e ligeiramente nervosa. Foi quase no fim do dia que decidi espairecer e correr um pouco, aproveitando a longa plantação e o bom tempo. Eu corri por um tempo, absorta em meus próprios pensamentos, quando percebi um grupo de mulheres e homens que entraram em uma pequena construção ao leste. Isso me chamou a atenção porque eu sempre vi muita gente indo até lá, durante todo o dia, mas nunca tive a curiosidade de saber o que era.
Caminhei até a pequena construção em alvenaria e logo percebi que se tratava de uma igreja. Era uma igreja muito simples, uma capela na verdade, e tinha bastante gente apertada no pequeno espaço. À frente, um homem de meia idade comandava a missa simples, que não tinha um roteiro definido. Ele parecia estar conversando com as pessoas, que o ouviam com atenção.
O discurso do homem me prendeu. Ele era um bom palestrante, sem dúvidas, e estava conseguindo muitos sinais de concordância da plateia que o assistia. Resolvi ficar e ouvir o que o cara tinha a dizer, embora eu não acreditasse em nada daquilo. O tema era muito conveniente: Fé.
Eu ouvia cética ao seu testemunho e era a única que mantinha os olhos abertos durante o minuto de oração. Ao meu redor, todos rezavam fervorosamente, para si mesmos, como que se conversassem com alguém invisível. Eu não consegui sentir nada, além de uma leve comoção. Era como se eu pudesse sentir a fé deles, aquela insistência infantil em acreditar que havia alguém que os escutava. Eu poderia apostar que a senhora ao meu lado pedia por uma salvação, assim como o senhor ao lado dela, e a moça no banco da frente e o resto das pessoas. Isso eu não conseguia entender. Como podiam eles perder tempo com estas coisas inúteis quando o que realmente podia nos salvar éramos nós mesmos?
Sacudindo a cabeça, resolvi levantar e sair. Eu não concordava com aquilo, mas também não precisava fazer escândalo. Cada um na sua, era nisso que eu acreditava. De um certo modo, a fé dessas pessoas trazia alívio e renovava as esperanças. Era por esse sentimento que eu tinha me arriscado naquela noite, salvando Alex. Por mais que fosse infundado e ilusório, a fé mantinha as pessoas vivas, e isso não podia se perder.
Foi pouco antes de passar pela portinha da capela que ouvi uma voz baixa dizer:
- Você não devia ir embora.
Virei para a dona da voz. Era uma mulher de idade, mas não muito idosa. Aparentava seus cinquenta e poucos anos. Vestia uma roupa simples e trazia um terço nas mãos.
- Me desculpe, não quero ofendê-la, mas esse aqui não é o meu lugar. – falei pra ela, utilizando o mesmo tom baixo de voz para não incomodar os demais.
A mulher sorriu.
- Você não me ofende, apenas me faz ter pena de você. – ela respondeu ainda com um sorriso.
Franzi o cenho.
- Por que a senhora teria pena de mim? – perguntei virando o corpo em sua direção.
- Por que eu já fui igual a você um dia. Cética, sem fé, sem vida.
- Acha que eu não tenho uma vida? – perguntei interessada, com um brilho nos olhos.
- Não, eu acho que você tem, só não consegue vive-la.
- E a senhora pensa que se eu entregar minha vida à Deus eu vou ser mais feliz? – perguntei zombeteira.
- Não, minha criança, sua vida já é dele. O que quero dizer é que não devia ser tão cética e amarga. Você é jovem, ainda tem tempo de mudar. Não cometa o mesmo erro que eu.
Nessa hora eu olhei fundo em seus olhos e percebi o tom da conversa. Eu não podia acreditar naquilo. Seguindo minha linha de raciocínio, prossegui:
- A senhora deve se arrepender muito de sua vida passada, então. Encontrou conforto nos braços de Deus?
Ela sorriu novamente.
- Sim, posso dizer que conforto é uma boa palavra.
- Bom, pra mim conforto e conformismo são sinônimos. A senhora simplesmente se arrepende do que fez, mas tem a consciência de que não pode voltar atrás e mudar a história. Assim, você se conforma e assume que Deus irá perdoá-la por isso, por ter a consciência de que errou.
Ela pensou por um minuto antes de dizer:
- Assumir o erro e reconhecer as falhas são os primeiros passos para a redenção.
- Redenção não é se conformar, redenção é ter a certeza de que fez o máximo possível para consertar o erro. – falei encarando os olhos castanhos do meu objetivo – Não é mesmo, Lauriê?
Lauriê fechou os olhos, como se estivesse saboreando seu nome sair de meus lábios.
- Já faz muito tempo desde que ouvi alguém me chamar assim. – ela disse – Hoje me conhecem com Ana.
- Muito prazer, Ana, eu sou Manuella.
- Eu sei seu nome, assim como soube que estava atrás de mim desde o primeiro dia. – ela falou com tranquilidade.
- Então porque resolveu se revelar? – perguntei sentando finalmente ao seu lado.
As pessoas começaram a se retirar da capela e o homem lá da frente ainda nos deixou uma bênção na qual não prestei atenção. Alguns minutos se passaram até que permanecêssemos a sós no pequeno recinto e foi então que ouvi sua resposta simples:
— Ora, eu disse que já fui como você um dia e sabia que não sairia de São José sem antes ter me achado.
- Bom, você pode ser uma serva de Deus agora, mas seus instintos de observação e dedução ainda funcionam bem. – falei com um sorriso amistoso. Ela riu.
- Isso nunca se perde, Manuella, nem enferruja.
- Você foi tão brilhante, tão importante... como veio parar aqui? – perguntei curiosa e feliz por finalmente ter encontrado meu objetivo.
- Bom, eu fiz coisas das quais não tenho orgulho nem prazer em falar. Depois que tudo estourou e vimos que a coisa estava fora de controle, eu simplesmente tive que me afastar. Fugi com um grupo de amigos, que também trabalhavam comigo. Fomos para o refúgio 137, uma base totalmente preparada para abrigar os militares envolvidos no MEV caso algo saísse errado.
- MEV? – perguntei, interrompendo-a.
- Sim, o projeto original chamado Modified Ebola Virus que deu origem aos vampiros. Eu fazia parte desse projeto e movida por ele e por todo o conhecimento e poder que tínhamos nas mãos, fui capaz que quebrar todas as regras e ensinamentos que meus pais me deram, que eu trazia comigo. Aquilo me cegou, assim como cegou a todos... Nós fizemos coisas horríveis, coisas que eu me envergonho apenas ao lembrar, coisas que me tiram o sono e a paz.
Lauriê, que dizer, Ana, seguia sua narração emocionada. Seus olhos focados em um ponto além de mim, como se lembrasse exatamente de cada momento que me descrevia.
“Vivemos na base ainda por uns anos, sempre atrás de respostas, de uma cura que nunca encontramos. Nós arriscamos alto. Tive amigos que desistiram de tudo e se mataram, tive companheiros que simplesmente sumiram e outros que enlouqueceram. Nós estávamos perdidos e os vampiros dizimavam cada vez mais humanos a noite.”
“Até que um dia eu tive um sonho. Nele um velho índio me dizia para não desistir, para seguir em frente, que Deus estava olhando por mim e por todos nós. O índio me mostrou um lugar que parecia uma gruta, uma caverna, não sei, no meio do mato. Lá tinha alguma coisa importante, alguma coisa que salvaria a todos nós, mas eu não consegui ver o que era. No último instante, o índio simplesmente sorriu pra mim e disse que eu teria que manter a fé e acreditar.”
“Eu sei que tudo isso parece uma maluquice, um sonho que minha mente inventou para tentar suportar tudo aquilo. Um conforto, uma ilusão. Mas sabe, eu não saberia te dizer qual a sensação que eu tive quando acordei e vi que segurava um objeto, que não estava ali antes.”
- E o que era? – perguntei curiosa.
Lauriê baixou a gola da blusa e eu pude ver um cordão preso ao pescoço, como uma gargantilha. Parecia antigo, feito com tiras de couro e sementes e tinha uma pedra chata e redonda no centro, de cor escura. Ela me mostrava o colar e sorria.
- Depois desse dia eu passei a acreditar. – ela concluiu.
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