Life

10 Capítulo 9


Notas iniciais
Gente, desculpa por ontem, mas tive um torcicolo (não sei se é assim que escrve..rs) e fiquei sem me mexer direito....
Bom, este cap não tem grandes emoções, apenas prepara o terreno para o próximo. Já estou revisando e vou tentar postar ainda hj para compensar a falta de ontem.
Boa leitura!

Ficamos entocados no frigorífico, com Alex deitado nos fundos para recobrar as forças. Ele estava muito ferido e com alguns hematomas pelo corpo. Percebi que a maior parte dos ferimentos se deu devido a um vidro quebrado, que fez diversos pedaços entrarem em seu corpo.

Dornelles era tipo um enfermeiro, descobri isso depois. Ele cuidou dos ferimentos de Alex com a minha ajuda, já que os demais estavam vigiando a porta como corujas.

- Nós temos que lavar e colocar os antissépticos nos locais. – Dornelles falava enquanto pegava um cantil grande de água potável.

- Como assim, lavar? Ele vai ter de levar uns bons pontos nessas feridas! – exclamei recorrendo a um canivete em um dos bolsos da calça.

Com o canivete, eu cortei sua blusa encharcada de sangue e abri devagar, expondo o peito manchado. Nele havia alguns cacos de vidro incrustrados, de onde brotava sangue.

- A gente mal conversou e você já tá rasgando minha roupa? – a voz dele soou baixa e cheia de charme.

- Vejo que já está melhor, já tá até fazendo piadinha sem graça. – falei sorrindo.

Alex gemeu quando Dornelles jogou a água fria sobre seu peito, tentando lavar o excesso de sangue.

- Manuella, na parte da frente da minha mochila tem uma pinça. Pode busca-la? – o enfermeiro improvisado falou pra mim enquanto jogava desinfetante ao redor do corpo de Alex.

- Sabe que isso não vai disfarçar o cheiro de sangue... – Alex falou em tom baixo, parecia estar sentindo dor.

- Eu sei, mas junto com o cheiro de podre desses fedorentos, vai ajudar a disfarçar um pouco. – Dornelles respondeu.

Voltei depressa com o objeto e a maior parte do sangue já havia sido retirada pela água, uma vez que ainda estava fresco. Alex tinha um belo corpo, diga-se de passagem. Seu peito e abdômen eram definidos, mas não exagerados. O peito era liso e havia apenas uma linha tênue e discreta de pelos abaixo do umbigo, que terminava no cós das calças avermelhadas. Eu tinha tido uma má impressão anteriormente... a roupa que ele usava tinha escondido muita coisa, afinal.

- Dornelles, corre com isso logo! – Santana falou sem tirar os olhos da porta, a esta altura, amassada e não funcional.

- Manuella, retire os cacos menores depressa, antes que a cicatrização comece. – Dornelles falou apressado, enquanto começava a retirar os cacos maiores do braço direito de Alex.

- Cicatrização? – perguntei sem entender.

- Eu tenho uma cicatrização acelerada... não quero ficar com vidro sob minha pele. – Alex falou enquanto encarava minha cara de confusão.

Mesmo sem entender direito, comecei a retirar os cacos que se espalhavam principalmente pelo peito. Com a pinça, fui tirando os menores e ele soltava eventuais resmungos quando o caco estava mais enterrado. Dornelles havia terminado os braços e enfaixou o pulso esquerdo. Eu estava retirando um caco muito pequeno perto da clavícula, o que me forçou a inclinar o corpo e a cabeça para mais perto.

Ao fazer isso, uma mexa de cabelo caiu para frente, tapando um dos meus olhos. Antes que eu percebesse, Alex levantou o braço enfaixado e pôs a mexa lentamente para trás da minha orelha. Eu o encarei de perto e vi o brilho daquela cor indefinida. Ele sorriu.

- Você é linda, sabia? – ele disse me olhando profundamente. Senti um arrepio frio, uma dor que não podia suportar.

- Não diz isso. – falei séria, tirando de vez o último caquinho de vidro.

- Ai! – ele reclamou, levando a mão até o ponto certo.

Levantei rápido, controlando a respiração. Com calma, mandei a dor embora.

- Pronto! Agora pressiona isso aqui no trapézio. – Dornelles falou se abaixando perto de Alex com um pano encharcado de antisséptico.

Alex olhou para o pano e o pegou, pressionando-o em seguida na base do pescoço, onde havia uma feria enorme. Pro meu completo espanto, reparei que as férias menores de onde retirei os cacos de vidros, já estavam quase que totalmente fechadas. Encarei Dornelles que observava minha cara de espanto.

- Ele é especial, ou não é? – o soldado falou enquanto observava o amigo deitado no chão.

A manhã veio com um alívio por estarmos vivos e também por não termos encontrado mais nenhum deles, o que foi um milagre, porque com tanto sangue de Alex espalhado pelo mini-mercado qualquer vampiro que estivesse na faixa de alguns quilômetros poderia sentir o cheiro. Pelo visto, aquele grupo estava isolado e nos encontrou por mero acaso.

Quando os relógios apitaram 5:15h nós respiramos aliviados. O sol estava nascendo no céu e aprisionando os vampiros em suas tocas do inferno.

Nós pegamos todo o equipamento e saímos atentos para a estrada. O céu estava clareando e no horizonte o astro rei pintava o firmamento com os mais diversos tons de azul e vermelho. Encontramos o jipe e as motos intactas e retornamos para a estrada. O grupo parecia animado e todos estavam lembrando com humor do que passamos durante a noite. A maioria da conversa sobre rodas era em torno do episódio de Juninho, que quase atirou em si mesmo com o susto que levou. Eu ria junto com os demais. Alex, contrariando todas as leis da biologia, já estava completamente curado de suas feridas.

Fizemos as paradas regulares e quando foi por volta de 13h todos decidiram parar pra almoçar decentemente. Paramos num pedaço bom de estrada. Havia muita mata fechada para ambos os lados da rodovia e o barulho dos pássaros em revoada era ouvido a quilômetros. Filipe e Carvalho decidiram tentar caçar alguma coisa, enquanto nós reuníamos o que desse de mantimentos para uma refeição.

Olavo surpreendeu a todos preparando o arroz no fogareiro de campanha, embora as palavras ‘tempero’ e’ gosto’ tenham sido esquecidas por ele. Meia hora depois os dois caçadores voltaram com dois coelhos grandes e um punhado generoso de frutas frescas.

- Bela caçada, hein! – carvalho se vangloriou.

Dornelles e Filipe foram responsáveis por colocar os coelhos na brasa e enquanto a comida era preparada, eu lavava as frutas com um pouco de água do meu cantil.

- Que loucura a noite de ontem, né? – Juninho me perguntou sentando numa pedra de frente pra mim.

- É... foi muita sorte não termos encontrados mais deles. – respondi terminando meu serviço. Estendi um pano sobre a pedra e pus as frutas pra secar à sombra.

- Você foi muito corajosa lá... salvou a bunda do Olavo e aposto que o canalha nem te agradeceu.

- Juninho... — comecei.

- Júnior. – ele me interrompeu – Meu nome é Júnior, mas esse sacanas gostam de me zoar.

Sorri.

- Júnior, eu não acho que ele tenha que me agradecer, apenas fiz o que tinha que fazer. Qualquer um em meu lugar teria feito o mesmo.

- Eu não sei... no seu lugar pensaria duas vezes antes de salvar a vida daquele bosta.

- Falando do Olavo? – Marcos se aproximou.

- Na verdade, era de você, mas tudo bem. – Júnior cutucou.

- Sei... – Marcos socou o ombro do outro.

Ficamos nesse clima durante o almoço, que serviu realmente para repor as energias. Foi uma hora bem gasta e necessária. Guardamos as frutas excedentes e nos reunimos antes de partir.

- Aqui, é onde estamos. – Santana dizia apontando para um ponto específico no mapa enorme que tentava estender no chão. Nós estávamos reunidos a sua volta.

- Se tudo der certo e não tiver nada no caminho, chegamos ao refúgio no posto de gasolina antes de anoitecer, mas teremos que ser rápidos. – Carvalho completou o pensamento – Lá estaremos seguros e reabasteceremos os veículos.

- Refúgio? – perguntei em vos baixa para Marcos ao meu lado.

- É, lá tem um refúgio subterrâneo que foi construído para abrigar os viajantes, logo no início dessa porra toda. Acaba sendo um ponto de parada estratégico e marca o meio do caminho para a província de São José. Estamos num ritmo muito bom.

Acenei e voltei minha atenção para o mapa.

- Vamos! Nós temos menos de três horas para chegarmos ao refúgio e não podemos arriscar estar fora durante a noite. – Alex disse alto e todos nos movemos para as motos e o jipe.

A estrada estava bastante aberta e fácil de seguir, assim, imprimimos um ritmo acelerado, dentro da capacidade máxima do jipe. Quando os relógios apitaram 17:15h, nós avistamos o posto de gasolina abandonado. Nossas motos aceleraram fundo e assim que chegamos, Alex foi indicando onde deveríamos camuflá-las. Os motores estariam quentes, mas quanto a isso nada podia ser feito.

Quando o jipe nos alcançou, o primeiro grupo já tinha entrado na loja de conveniência, que estava empoeirada, com vidros quebrados, quase sem mercadorias e com sangue seco no chão e paredes.

- Aqui. – Marcos falou apontando para uma porta de ferro enferrujada nos fundos do lugar.

Com minha ajuda, ele abriu a porta e vimos uma escada estreita que ía para baixo, num breu absoluto. Imediatamente preparei minhas pistolas e Marcos fez o mesmo com sua submetralhadora. Nessa hora os demais soldados chegaram e lá fora a luz do dia estava quase acabando.

- Deixamos o jipe na mata, mas o motor está fervendo. Jogamos água, mas não deu em nada. – Filipe exclamou enquanto todos preparavam suas armas.

- Eu vou na frente. – Alex assumiu a ponta, já com seu facão na mão.

Ele sacou uma lanterna poderosa da mochila, e todos nós fizemos o mesmo. Em uma mão ía a lanterna e na outra a pistola. Descemos as escadas em fila e Olavo, o último de nós, trancou a porta de ferro no topo da escada, que era contemplada com diversos ferrolhos grossos e cadeados.

A descida foi maior do que estava imaginando e chegamos a um complexo sistema de salas interligadas. Era como uma casa subterrânea, onde os cômodos grandes eram ligados por corredores estreitos. Via-se logo que ali era um abrigo construído exatamente para aquele fim.

Chegamos a uma das salas grandes. O chão e as paredes eram de cimento batido. Havia uma mesa de madeira grande e velha e algumas prateleiras de metal na parede, além de um sofá com capa de plástico.

- Ali. – Alex resmungou antes de dar um pique.

Momentos depois, ouvimos um estalo e um barulho alto de motor. Era um gerador antigo. Em poucos segundos as luzes se acenderam, em todos os pontos do abrigo.

Ficamos muito mais aliviados e desligamos as lanternas.

- Vou dar uma volta e checar os outros cômodos. – Alex exclamou antes de sair.

- Espera! Vou junto. – Marcos disse correndo para alcançar o outro.

Nós deixamos as coisas nas prateleiras e esperamos Alex e Marcos voltarem. A todo momento, eu procurava ficar afastada do grupo, me fazendo discreta.

- Limpo. – Marcos falou e automaticamente relaxei um pouco.

- Eu acho importante revezarmos em duplas para vigiar o pé da escada. A porta e as trincas estão velhas e pode ser uma boa ideia. – Santana falou e todos concordaram.

E assim fizemos. O grupo era de oito, eu era a nona integrante e me propus a ficar sozinha na campanha, o que não agradou. Tive que ouvir diversas gracinhas de alguns deles. Júnior insistiu oferecendo-se a um turno duplo. Não quis ofendê-lo e acabei por aceitar. O relógio em meu pulso apitava meia noite quando eu e Júnior fomos para o pé da escada. Até agora, tudo estava tranquilo.

- Onde você aprendeu a atirar assim? – ele perguntou sentando ao meu lado na escada estreita.

- Bom, eu acho que nasci sabendo. – devolvi de bom humor.

Ele riu. Nosso tom era baixo e eu estava totalmente atenta aos ruídos de lá de fora.

- Sabe, eu acho muita coragem alguém como você estar nessa situação. – ele disse, voltando a me encarar.

Júnior era bonito. Bastante alto e com músculos proeminentes. Tinha cabelo negro e baixo e um sorriso sincero. Eu via inocência em seus olhos, embora eu soubesse que ele seria capaz de tudo para salvar seus companheiros e provar a si mesmo do que era capaz.

- Alguém como eu? Acho que vocês subestimam muito as mulheres... pensei que esse preconceito bobo ficaria enterrado no mundo velho, mas infelizmente isso sobreviveu, como os malditos.

- Não, não é isso – ele se apressou em esclarecer – Não é por você ser mulher, é simplesmente por ser incrivelmente linda e estar no meio de tanto homem estranho.

Sorri.

- Você acha que eu corro algum risco? – perguntei encarando o soldado, que ficou visivelmente vermelho.

- Sinceramente? Eu acho. Você não é só linda, você é o tipo de mulher que faz a gente imaginar coisas, sabe, instiga. Você tem um corpo incrível, uma personalidade forte... pode ser apelativo demais.

Bom, por essa eu não esperava. Júnior foi sincero demais e confesso que me senti um pouco assustada, mas não demonstrei. Eu sempre sentia esse frio no estômago e a tremedeira interna quando pensava nesses assuntos.

- Bom... então é bom que eu saiba me defender. – falei sorrindo em sua direção, mas meu sorriso não tinha humor.

Ele se limitou a encarar os próprios pés e ficamos em silêncio depois disso. Eu sabia do que ele estava falando e sabia que corria esse risco, mas estava disposta a qualquer coisa para chegar até Lauriê.

Eu via tudo. Os olhares luxuriosos, os gestos... ouvia as piadinhas e as fantasias que eles falavam entre si pensando que eu não estava ouvindo. Mas eu tinha que contar com a sorte, eu precisava seguir em frente. Eu só não fazia ideia de que Júnior pudesse estar mais certo do que pensava...

Notas finais
Reviews???