Life
50 Capítulo 49
Notas iniciais
Boa leitura!!!
Eu caminhava entre os soldados que faziam a vigília, apertando minha Gladius na mão firmemente. A floresta a nossa volta estava quieta, escura, sombria. Mas isso não era impedimento pra mim, pois minha visão aguçada me permitia enxergar longe, mesmo com pouca luz.
Estava tudo bem na posição norte, onde Marcos estava de vigília. Eu podia sentir o ar limpo e sereno a nossa volta. Ele parecia mais relaxado por eu estar por perto e estava puxando assunto, mas minha mente só estava nela. Há alguns dias, eu tinha finalmente sentido seu gosto em minha boca e a textura real de sua pele e não havia nada nos Céus que se comparasse àquilo. Mas ela parou, disse que não poderia trair Alex daquele jeito e estava certa, pelo menos em parte.
Eu sabia que devia estar sendo difícil pra todos assimilarem o que se passava comigo e Alex, especialmente pra Manuella, pra ela estava sendo um martírio. Mas ela e nem ninguém conseguia entender que antes de encontrarmos a Gladius, eu e Alex éramos num só. Nunca houve diferença, nunca houve ele ou eu, éramos os dois, sempre, todo o tempo. Apesar de um sobressair um pouco ao outro em alguma situação específica, sempre estávamos juntos, pensávamos e sentíamos a mesma coisa simplesmente porque éramos a mesma pessoa.
Mas Manuella não sabia disso. Pra ela, Alex sempre foi o homem que a conheceu primeiro, o homem que apenas entrava em transi quando sentia o cheiro dos Seres da Noite. Mas não era assim. Eu estava lá o tempo todo. Estava lá quando ela me salvou da primeira vez, quando ficamos no rio frio madrugada adentro, quando ficamos presos na fenda do penhasco e nos beijamos a primeira vez, quando dançamos em Naska na festa anual, quando ela me revelou seu segredo mais íntimo... eu estava lá, tentando desesperadamente esquecê-la enquanto transava com outra mulher, pensando nela... eu estava lá quando ela pediu ajuda no galpão e quando passou a noite comigo.
Eu sempre estive lá, sentindo e agindo junto com Alex, mas ela nunca soube. Eu a amava antes mesmo de saber o que era isso. Manuella me mostrou uma nova forma de amar, diferente de tudo o que eu conhecia, de tudo o que sentia. Mais que um sentimento puro, era tão intenso que eu não saberia dizer até onde podia ir. Ela era como o ar, como a essência do Criador... era simplesmente algo sem o qual não se pode viver.
Eu senti seu gosto plenamente no dia que curei suas férias com meu sangue e foi muito além de tudo o que tinha sentido antes. Fazer amor com ela, sentir seu gosto, seu cheiro, ouvir seus gemidos eram sensacionais, mas nesse tempo todo eu sempre tive que dividi-la com Alex... mas o beijo que demos foi ainda mais intenso, pois foi só pra mim... ou quase. Ele estava lá também, mesmo que em um nível de consciência adormecido... e assim seria até o momento em que inevitavelmente nos separaríamos... e eu temia esse momento mais que tudo.
Aproximei-me dela, que vigiava a mata atentamente. Estava linda demais, como sempre, e logo percebeu minha presença. Desde a noite que nos beijamos e ela fez amor... com Alex depois... bom, não nos falamos muito mais. Eu sabia que ela me evitava, sabia que estava confusa e com medo e eu achei melhor assim. Independente do que eu sentia por Manuella, eu tinha que aceitar que eu estava apenas em uma missão. Tinha que aceitar que a minha prioridade era salvar aos humanos e que depois, teria que partir... mas porque isso se tornara assim tão difícil, eu não sabia.
Ela puxou conversa e tentou se desculpar, mas insisti que não havia nada a dizer. Era Alex quem ficaria com ela depois que tudo terminasse e eu precisava lidar com isso... não podia deixar que meus sentimentos por ela interferissem na missão, não podia deixar isso acontecer. Talvez, a melhor alternativa pra mim fosse mesmo me afastar dela.
– Eu... eu queria que soubesse que eu me sinto... mal com isso. Eu... não queria te... te deixar chateado. Por favor, me desculpe.
Eu permaneci encarando-a, ainda sentindo a mão formigar com seu toque simples. Antes que pudesse dizer algo mais, ela se adiantou:
– Olha eu... eu não sei o que eu sinto com tudo isso, não consigo entender tudo ainda. Eu me senti como se tivesse traindo Alex com você... mas agora, sinto que te traí também e eu queria dizer que sinto muito, eu não consigo mais conviver com essa culpa.
O que eu poderia dizer a ela? Como poderia explicar que nada disso era culpa de ninguém, que só o que eu queria era vê-la feliz porque a amava incondicionalmente? Respirando fundo, estendi a mão livre e acariciei seu rosto lindo e triste.
– Não se preocupe, eu jamais me magoaria com você.
Senti suas feições suavizarem... minhas palavras aliviaram um pouco a agonia e confusão que ela sentia. Manuella colocou a mão quente sobre a minha e encaixou o rosto em minha mão, tombando o pescoço levemente.
– Me perdoa. – ela disse com a voz embargada.
Não resisti mais e a puxei para um abraço apertado. Como poderia existir um sentimento assim? Como era possível um Arcanjo tão antigo quanto eu sentir como se não soubesse o que fazer? Perto dela, eu não era nada além de um pobre mortal.
Afastei gentilmente o rosto dela e a fitei nos olhos. Era tão bom sentir seu cheiro... aquele cheiro me inebriava a mente, me desligava de tudo o que era palpável, de tudo tangível. Sem esperar, senti os lábios dela nos meus novamente e simplesmente eu não estava mais ali. Eu a beijei com carinho, com todo o amor que sentia por aquela mulher tão diferente de tudo o que já encontrei. Então aconteceu. Senti o corpo dela tremer e os lábios dela pararam de se mover. Segurei firme a Gladius que estava prestes a escorregar de minha mão, durante o devaneio do beijo de Manuella. Algo estava errado.
Senti a presença deles, a nossa volta, por todos os lugares da mata, e eles foram pulando dos galhos para o chão, ao nosso redor. Ainda estava em choque ao perceber que Manuella estava ferida em meus braços e os tiros e gritos dos soldados do acampamento atrás de nós, quebrou o silêncio da floresta.
Vi sangue nos lábios dela e tive que soltá-la quando eles a puxaram pra trás. Era ele... eu estava tão tomado pela paixão que não percebi sua presença. Caliel havia acertado Manuella por trás com uma espécie de arpão de caça. A flecha entrou em suas costas e estava ligada ao anjo por uma corda que, se fosse puxada com força, a mataria instantaneamente. Manuella estava morrendo e se eu não fizesse nada para ajuda-la, eu não a teria mais comigo.
– Não faz isso, Caliel... – falei paralisado, apertando a Gladius na mão.
Já sentia uma fúria incontrolável me dominar e Alex estava comigo. Sentíamos ódio, raiva, desespero. Eles riram a nossa volta e aquilo só aguçou mais meu ódio incontrolável.
– Nunca pensssei que o pegaria desstraído. – a voz arrastada de Caliel se fez ouvir.
Manuella caiu de joelhos, cedendo à dor da ferida grave e tentei alcança-la, mas meu maldito irmão falou:
– É melhorrr não se moverrr ou eu puxxo a corrrda e arranco o coração desssa imunda.
Parei. Deixei a Gladius cair na terra ao meu lado. Eu sabia o que eles queriam, sabia o que Caliel queria e ele não poderia pegá-la... mas qual escolha eu tinha? Minha mente processava tudo a minha volta. Eu precisaria de poucos segundos para acabar com todos os malditos dali, mesmo sem minha espada... o desespero me alimentava cada vez mais.
– Vai atrás deles... ajude-os. – ouvi Manuella dizer as últimas palavras antes de desmaiar.
Era isso, o tempo tinha se esgotado. Com a velocidade que só eu podia alcançar, peguei a lâmina sagrada e corri. A maioria dos malditos não percebeu o que aconteceu, nem tiveram tempo para sentir dor em seus corpos mortos-vivos. Cada um deles era um irmão que dominava o corpo imortal. Em cada movimento, eu acabava com três, quatro de uma só vez. Nem mesmo eu sabia que podia ser tão letal.
Quando finalmente parei, voltando a minha posição anterior, somente Caliel restava de pé. Ele havia pego Manuella no colo e uma das mãos malditas seguravam a flecha em suas costas. Ele me encarava assustado com a devastação que fiz. Anjos eram rápidos, fortes e habilidosos, e muitos deles juntos dominando os corpos imortais poderiam vencer até mesmo um Arcanjo... mas não um Arcanjo enfurecido como eu. Só não pude acertar Caliel porque não podia arriscar a vida dela.
– SE NÃO ME DERRR A GLADIUS, PODE DARRRR ADEUS PRA ESSA VADIAAAA!!! — Caliel berrou, praticamente arrancando a flecha do corpo dela.
Havia sangue por todo o lado, e o sangue dela estava indo embora pela ferida... seria questão de minutos antes que morresse.
– SABE QUE NÃO PODE MANUESEA-LA – CALIEL, PARE COM ISSO!
– EU JÁ DISSE, PRA ME DARRR A ESPADA OU A ÚLTIMA COISA QUE FARRRREI SERÁ ARRANCAR O CORAÇÃO DELA COM MINHASSSSS PRÓPRIAS MÃOS!
Imediatamente fiz a Gladius voltar a forma que meus irmãos deixaram, a aparência disfarçada da espada sagrada. Somente daquele jeito, alguma criatura além dos Arcanjos poderia manuseá-la. Por isso meus irmãos a esconderam, para que os outros anjos não a pegassem e levassem pra longe de mim.
O metal agora cabia na palma da minha mão, estava do mesmo jeito que Manuella encontrou na floresta. Eu a joguei na direção de Caliel, que soltou o corpo dela para segurar a espada em miniatura que mais parecia um broche.
Ele foi esperto, sabia que eu não o seguiria. Não vi nem mesmo a direção que tomou, pois estava segurando o corpo frio e inerte de Manuella em meus braços. Mais que depressa, peguei uma das mãos decepadas dos malditos e usei suas garras afiadas para cortar meu pulso profundamente. Deixei o sangue fluir e banhei a ferida dela nas costas. Estava feia, muito profunda e perigosa.
O céu começava a ficar azul escuro, deixando o preto pra trás. Os gritos e tiros do acampamento foram cessando... eu não sabia o que tinha se passado por lá. Retirei a flecha do corpo dela com cuidado e precisei reabrir o corte em meu pulso, pois já cicatrizava... droga, aquilo não seria o suficiente, precisava chegar até a província de Santa Fé de qualquer maneira se quisesse salvá-la. Segurei-a em meus braços e corri para o acampamento, precisava da moto com urgência. Chegando lá vi um verdadeiro massacre. Muitos soldados estavam mortos e muitos pesquisadores também... tinha sido um ataque e tanto.
– Raphael! – ouvi a voz de marcos chegando perto.
– Marcos, preciso de ajuda aqui. Manuella vai morrer se eu não chegara tempo em Santa fé! Vamos!
Ele sacudiu a cabeça em afirmação e correu comigo o quanto pode. Chegamos até as motos camufladas e pedi para que ele guiasse enquanto eu iria na garupa com ela. Eu não podia correr com ela, precisava ficar banhando a feria o tempo inteiro com meu sangue. Foi difícil e ficou muito apertado os três na esportiva, mas Marcos chegou o máximo possível pra frente e acelerou. Eu grudei Manuella contra mim e pressionava a ferida nas costas com meu pulso aberto, esperando que o sangue que caía ali ajudasse a estancar a hemorragia.
– FOMOS ATACADOS! OS MALDITOS CONSEGUIRAM SE CAMUFLAR DIREITINHO! ESPERARAM O DIA QUASE CLAREAR E NOSSAS DEFESAS ABAIXAREM! NÃO CONSEGUIMOS PERCEBÊ-LOS! – Marcos gritava enquanto dirigia a toda velocidade para a próxima província, que estava felizmente perto.
– RAPHAEL... ELA VAI FICAR BEM?
– EU NÃO SEI, MARCOS... PRECISAMOS CORRER. – respondi agoniado por não podermos andar mais rápido.
...
Chegamos aos portões de Santa Fé quase duas horas depois. Manuella estava viva, mas não sabia se resistiria por muito tempo, pois a respiração estava muito fraca e o pulso irregular. Durante o trajeto eu não conseguia fazer nada além de orar. Pedi ao Pai que não a levasse, pedi a ele que desse a oportunidade dela realizar o sonho de sua vida. Era só com isso que eu me importava.
Houve um verdadeiro alvoroço na pequena aldeia. Rapidamente levei o corpo dela para a precária ala hospitalar do lugar. Os únicos três médicos que haviam ali tentaram improvisar uma cirurgia, mas eles diziam que seria quase impossível salvá-la.
– Nada é impossível, doutor, acredite em mim. – falei com determinação enquanto assistia aos três prepararem o lugar para operá-la e aumentava o rasgo em meu pulso com uma faca cirúrgica.
Eles estavam pasmos, não entendiam o que se passava, mas eu os guiaria. Colocamos Manuella virara de costas na maca e um deles lavou rapidamente as costas nuas. O sangue ainda escorria lento da feria. Os lábios estavam roxos e o pulso quase inexistente.
– A hemorragia precisa ser contida. – um deles falou enquanto vestia um jaleco azul limpo e luvas de látex.
– Tem que transferir meu sangue pra ela, é a única coisa que pode salvá-la! – falei em desespero.
– Como? – o outro perguntou.
– Transfusão direta! Agora! – falei esticando o braço e aguardando impaciente.
– Sabe que isso poderia mata-lo! Ela precisa de muito sangue e não podemos arriscar! – o terceiro falou, parecendo nervoso.
Eu me aproximei do homem e disse com os olhos em chamas.
– Eu já disse que meu sangue vai salvá-la! Não importa o que aconteça comigo, faça o que precisa ser feito!
Eles acataram e rapidamente puxei outra maca, posicionando-a ao lado da dela. Um deles limpou meu braço com muito álcool e preparou o material para transfusão direta.
– Vou ter que furar a artéria, e o único jeito de termos pressão suficiente para que seu sangue chegue até ela sem equipamentos.
Não respondi, nada me importava mais. O médico então pegou a grossa agulha de transfusão, conectada por uma cânula transparente. Na outra extremidade havia mais uma agulha e algumas válvulas plásticas. O médico perfurou o braço delicado de Manuella, que permanecia de bruços na maca, e depois veio até mim. Ele enfiou a agulha em meu braço a noventa graus e perfurou a grossa superfície da artéria braquial; vi o sangue vermelho vivo subir pela cânula rapidamente, devido á pressão. O sangue chegou a ela e enquanto a transfusão ocorria, os médicos faziam o possível para salvá-la.
...
Era um lugar bonito, aberto e com uma suave brisa morna. O cheiro era familiar, me deixava feliz. Eu vestia nada além de um enorme vestido branco. Era simples e se moldava ao corpo, embora não fosse justo. Não sabia do que era feito, mas me sentia completamente leve. O cabelo solto tremulava com o vento constante e suave. Era dia, embora eu não pudesse ver o sol.
Caminhei sempre a frente por um tempo que eu não saberia precisar. Sentia falta de alguma coisa, embora estivesse tranquila e serena. Foi então que os vi.
Três figuras altas e incrivelmente lindas caminhavam em minha direção. Eles eram exatamente iguais, com exceção dos olhos. Tinham a pele branca, o rosto perfeito, com traços suaves. O corpo era... sei lá, atlético talvez? Eu não conseguiria dizer por duas razões. A primeira era porque estavam cobertos por uma espécie de armadura. Eram incríveis, pareciam feitas de um metal maleável e sem, dúvida alguma, inexistente. Havia detalhes e inúmeras inscrições entalhadas na carapaça, que cobria um dos braços, da mão ao ombro e alcançava o peito, descendo ajustada até a cintura onde tinha um adorno diferente, como um cinto muito grosso e uma bainha sem espada. As pernas também eram cobertas pela armadura singular e trazia como se fossem botas imponentes. Os cabelos eram longos, caindo lisos abaixo das cinturas metálicas e eram cor de platina.
A segunda razão pela qual não conseguia definir muita coisa de seu porte físico além da armadura eram seus olhos, que brilhavam mais do que a luz do ambiente. O da direita tinha um azul profundo, como o oceano mais raro; o do meio tinha um tom âmbar, mesclado com dourado e o da esquerda um brilho violeta arroxeado que não tinha como ser definido. Sua aparência física era idêntica, mas os olhos diferiam tanto entre si que os tornavam discrepantes, únicos.
Eu sabia que faltava um, sabia que o quarto Arcanjo que deveria estar ali tinha o brilho branco no olhar; Raphael.
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