Life
37 Capítulo 36
Notas iniciais
Boa leitura :)
Saí daquele lugar e fui depressa para longe. Estava sentindo um aperto no peito, uma agonia que não saberia descrever. Ao mesmo tempo, senti o ombro arder no corte avermelhado e inexplicado.
- MERDA! – esbravejei enquanto virava a esquina.
- Manu! Espera!
Era Roger. Ele vinha correndo de um jeito estranho e exagerado, como sempre fazia. Ele me alcançou esbaforido e segurou meu pulso.
- O que houve com você? O que aconteceu lá dentro?
- Roger, me desculpa, mas pode me deixar sozinha? – pedi, sentindo um nó na garganta.
- Manu... tudo bem? – ele perguntou em tom mais sério, percebendo a gravidade da situação.
- Tá... eu só... é que o Alex tá lá dentro, enfrentando um julgamento, sei lá.
- E você é caidinha pelo garotão, né? – ele perguntou fechando um dos olhos.
- Roger...
- Não, tudo bem... você pode confiar em mim, Manu. Eu sou maluco desse jeito e sim, adoro uma fofoca das boas... mas sabe, eu jamais sairia por aí espalhando coisas sobre você. Pode confiar em mim, desabafa.
OK, ele me pegou de surpresa. Em outros tempos eu simplesmente sairia dali e o deixaria sozinho. Mas eu estava mudada. Eu queria desabafar, poder falar com alguém o que sentia, poder... sei lá, ser minimamente normal. Eu sentia em Roger uma confiança grande, a mesma que sentia por Helena em Santa Clara, a diferença era que lá eu ainda não sabia me abrir.
- Bom... — comecei meio sem jeito. – eu sinto algo por Alex sim.
- Eu sabia! – ele vibrou e logo me puxou pela mão e sentamos no primeiro degrau da escada.
- Eu... a gente está meio envolvido, sabe, e eu tenho medo dele enfrentar algum problema por minha causa.
Então eu contei a Roger o que houve na festa, contei como Alex me salvou e o que tinha acontecido dentro daquela maldita sala do conselho.
...
Ela saiu pela porta como um furacão. Eu sabia que estava com raiva e envergonhada por ter sido obrigada a falar a verdade que tanto queria esconder. Foi inevitável. Senti minha visão ficar ligeiramente rubra e o coração disparar. Isso não estava bom.
Fechei os olhos com força e me forcei a respirar rápida e profundamente diversas vezes. O controle foi voltando aos poucos, com dificuldade, em meio à confusão que se tornou aquele lugar. Senti as mãos de Marcos e Dornelles em meus ombros.
- Alex, você tá legal? – Marcos perguntou ressabiado.
Demorei um pouco para responder que sim.
- SILÊNCIO! – ouvi Ronald, o líder dos conselheiros e quem presidia a audiência, gritar.
O silêncio foi, aos poucos, se instaurando no lugar e Martha, a senhora que interrogou Manuella, continuou a falar.
- Alex, isso que a senhorita Manuella acabou de dizer é verdade?
Todos voltaram suas atenções a mim.
- Sim.
- Explique. – ela pediu.
Se essa mulher não fosse membro do conselho e tivesse cinquenta anos a mais que eu, eu juro que pensaria em arrebentar aquela cara de arrogante. Tentei me acalmar o máximo que pude e contei a eles o que queriam ouvir. Disse como tinha passado a festa e que fui atrás de Manuella em seu quarto, mas não a encontrei. Depois disso a procurei por vários lugares, até ouvir seus gemidos no galpão.
- O que viu, exatamente, quando chegou até lá? – foi Ronald quem perguntou.
- Bom... Olavo e os outros dois estavam... batendo nela, sei lá. Eu só os vi com as calças abaixadas e me lembro de vê-la chorar... depois disso... eu só lembro de tentar recobrar o controle em minha casa, com ela em meus braços.
Todos me ouviam em silêncio. Eu não pude dar mais informações que aquilo simplesmente porque tinha entrado em frenesi e não me lembrava de muita coisa, exceto da necessidade de sangue daqueles malditos, mas isso eu omiti.
- Qual a sua relação com Manuella? – a mulher insistiu em perguntar.
- Não já passamos por isso? – perguntei nervoso.
Ela sorriu cinicamente antes de acrescentar:
- Ela disse que você é especial pra ela porque tinha salvado sua vida, mas não definiu o que são de verdade. São apenas bons amigos?
Esse foi outro membro do conselho quem falou, um homem alto e barrigudo, com nariz reto e cabelo longo acinzentado; Victor. O silêncio permanecia na sala de reuniões, e eu sabia que as pessoas ali queriam mesmo era saber dessa maldita resposta. Mas o que eu diria a eles, que estava apaixonado por ela? Que tinha dormido com Manuella na noite anterior mas que ela não se decidiu ainda sobre o que quer? Que merda!
- Bom, Manuella é especial pra mim também, mas não temos nada formal, se é o que querem saber.
Minhas palavras saíram calculadas. Eu não queria expô-la ainda mais, não queria rotular o que nem mesmo eu sabia o que era.
- Bom... você não consegue se lembrar do que fez com aqueles homens porque entrou em transe? – Martha concluiu.
- Sim. – respondi.
- Mas até onde sabíamos, você só entrava nesse transe quando estava perto de vampiros, não? – ela voltou a perguntar.
- Pois é... isso foi novo pra mim também. – respondi desconfortável.
- Então agora você é capaz de se transformar em um assassino poderoso a qualquer momento, e pode perder o controle de si a qualquer hora? – ela continuou.
- Não. Isso só aconteceu porque eu vi que estavam machucando Manuella, eu só perdi o controle por isso.
- Então ela agora é o seu interruptor? E você ainda diz que não têm nada?
- Olha, o que eu tenho com ela, não é da conte de ninguém, nem mesmo desse conselho. – falei seriamente, deixando bem claro que minha relação com Manuella era território intocado – Quanto a ela ser meu interruptor, ainda eu simplesmente não sei. Eu sei que ela é capaz de me fazer recobrar o controle e também me fazer perdê-lo completamente. Isso é tudo o que eu sei e o que posso explicar.
Houve silêncio. Eu vi as pessoas se entreolhando e sabia que tinha sido incisivo. Inconscientemente, meus olhos percorreram a sala e pararam na figura alta e dura de Júnior. Agora ele sabia que havia algo entre mim e a garota que ele estava a fim.
- Bom, então você foi lá atrás dela na festa, encontrou-os no galpão, viu que eles a estavam molestando e simplesmente matou aqueles homens, sem nem ao menos lhes dar a chance de se defender?
Encarei bem a maldita mulher. Era ela novamente, quem retomou a fala.
- Defender? E quando Manuella teve chance de defesa? – eu estava me alterando e senti Marcos ao meu lado.
- Ora Alex, acho que até mesmo você concorda que seria no mínimo covardia você enfrentar os homens desarmados com esse... poder que você tem. Provavelmente eles nem tiveram tempo de ver você chegar.
- NÃO ME FALE DE COVARDIA CONTRA AQUELES BASTARDOS! PELO AMOR DE DEUS, ELES IAM VIOLENTÁ-LA! QUE LUGAR É ESSE QUE PENSA EM DAR COBERTURA PARA MALDITOS COMO ELES?
- Alex está certo! – Marcos falou alto ao meu lado – Aqueles covardes a sequestraram e teriam feito coisa pior se ele não tivesse chegado a tempo, qualquer um de nós teria feito o mesmo!
- Mas o senhor Alex não é como qualquer um de nós, soldado! Ele tem poderes e força além normal e portanto precisa assumir responsabilidade pelos seus atos! Ele assassinou aqueles homens no galpão, feriu-os até a morte e depois, deliberadamente, foi atrás do único sobrevivente para mata-lo a sangue frio!
Martha se pôs de pé, estava alterada tanto quanto eu. O pessoal do conselho iniciou uma discussão que se alastrou para os presentes na reunião. As coisas estavam ficando fora de controle.
- VOCÊ FALA ISSO PORQUE NÃO VIU A CENA QUE EU VI, PORQUE NÃO OUVIU O CHORO DESESPERADO DELA, PORQUE NÃO A HUMILHAÇÃO PELA QUAL PASSAVA. É MUITO FÁCIL DIZER QUE ELES ERAM INDEFESOS QUANDO NÃO SE VIU A COVARDIA QUE FAZIAM! ERAM TRÊS HOMENS CONTRA UMA MULHER SOZINHA! QUE TIPO DE CRÁPULA PLANEJA ISSO E AINDA É CHAMADO DE SANTO? QUE TIPO DE HOMEM FAZ ISSO E AINDA PLANEJA VOLTAR PRA SE VINGAR? – gritei sem controle, começando a ver as coisas meio turvas.
- VAMOS TENTAR NOS ACALMAR! – Ronald gritou, saindo de trás da mesa.
- Olha, eu sei que pode parecer injusto no seu ponto de vista, mas no meu não. – falei, encarando a todos do conselho, que a essa altura, já estavam de pé – Manuella é especial pra mim e eu simplesmente me descontrolei com o que vi naquele lugar. Eu ainda não entendo o que acontece comigo, não sei o que fazer para assumir o controle quando vejo um maldito ou quando estou com Manuella. Quando vi o que Olavo e os outros estavam fazendo com ela, eu simplesmente perdi a cabeça, perdi o controle sobre mim. Podem dizer o que quiserem e podem me condenar por tudo isso, mas de uma coisa eu sei: eu não me arrependo de nada e se pudesse, faria tudo de novo.
Todos fizeram silêncio e senti Marcos me dando força ao meu lado, assim como Dornelles. Vi Júnior com um semblante indecifrável do outro lado da sala.
- Certo, certo, vamos nos acalmar, OK? – Ronald tomou a dianteira.
- Mas o que faremos? Alex não pode sair por aí, andando por entre as pessoas e podendo entrar em transe a qualquer momento. Se alguém olhar praquela garota de novo, o que vai acontecer? – outro membro do conselho falou.
- Isso não é assim, sejam razoáveis! Alex convive conosco desde sempre, e o que aconteceu foi totalmente fora do comum! Aqueles caras violaram Manuella, uma moça íntegra e decente, que certamente não merecia passar por aquilo! Não é que ele vai atacar a qualquer um, mas não podemos dizer que eles eram santos porque todos nós conhecíamos Olavo, Petrus e idarta e sabemos muito bem do que eram capazes!
Dornelles falava com paixão, atraindo as atenções de todos.
- Mas isso não significa que eles mereciam ser mortos! – Martha falou.
- Tudo bem, e o que vão fazer, prender Alex? Vamos, façam exatamente isso, esperem anoitecer e o mantenham preso por ele ter nos livrado daqueles cretinos! Todos nós sabemos que se não fosse esse homem, Naska já teria sido devastada pelos malditos vampiros que estão lá fora! Muito menos vamos conseguir chegar até a metade do caminho até a base original, onde pretendemos achar alguma coisa que nos leve a uma cura! Sejam conscientes e analisem a situação, analisem o histórico dele e vejam se Alex teve mesmo culpa pelo o que aconteceu ou se os culpados não foram os mesmos que atacaram aquela garota inocente.
Marcos surpreendeu a todos com sua fala e calou a reunião. Eu olhei para meu amigo, orgulhoso e satisfeito. Os membros do conselho entreolharam-se. Eram onze ao todo, sem mim e Olavo.
- Bom, como sempre fazemos aqui em Naska, acho justo passarmos por uma votação entre os conselheiros. – Ronald falou, sendo avaliado pelos demais – Bom, temos duas opções óbvias aqui. A primeira é inocentar Alex, uma vez que entendemos a gravidade e a singularidade da situação que se apresentou a ele e também o fato de ele nem nenhum de nós entender o que acontece durante o transe. A segunda é condená-lo, de alguma forma, mantê-lo recluso até que decidamos o que fazer, se entendermos que, apesar de tudo, Alex foi movido passionalmente e é culpado pela morte dos soldados em questão.
O silêncio permaneceu por pouco tempo, até que Dornelles acrescentou:
- Lembrem-se que se vocês o consideram culpado pela morte desses caras, também devem considera-lo culpado pela morte de cada vampiro que invadiu Naska, pois, até onde sabemos, nenhuma daquelas pessoas pediu para ser infectada, ao contrário de Olavo, Sidarta e Petrus que fizeram tudo de caso pensado.
- Bom, quem vota na inocência de Alex, levante a mão direita. – Ronald disse.
Eu vi os membros do conselho ainda confusos. Eu precisava de pelo menos seis deles votando em minha inocência, para que fosse a maioria. Robert e Ronald foram os primeiros a se manifestar, estendendo a mão pro alto. Depois deles vieram Horácio, Melinda, Victor, Karla e Mathew. Eram sete, eu estava livre.
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