Life
27 Capítulo 26
Notas iniciais
Bom, espero compensar com esta cap q tá um pouquinho grande :) Amanhã tem mais, juro!
Boa leitura!!!!
Adentramos os gigantescos portões de uma das mais incríveis províncias das redondezas. Eu nunca havia estado em Naska, mas tinha ouvido histórias que relatavam com precisão as proporções do reduto humano. Os muros enormes e reforçados estavam repletos de armas e pessoas que acompanhavam nossa chegada. Assim que nos avistaram, nos deram passagem e o jipe entrou a toda velocidade carregando o grupo.
Alex ainda estava alterado. Eu senti que havia retomado o controle, mas a tensão ainda estava em seu corpo. De um modo estranho e bom, eu percebi que ele ainda estava em seu modo protetor comigo, tanto que os soldados do jipe se apertaram um pouco para não se aproximarem muito de mim. Suas costas sangravam como nunca, assim como meu braço, mas o pior de todos era Carvalho. Os ferimentos profundos no pescoço, rosto e tórax mostravam o quanto tinha sido mordido e rasgado pelos malditos. A pressa maior era por ele.
Dornelles assumiu a dianteira e mal o jipe parou, os soldados improvisaram uma maca e carregaram Carvalho para longe. Muitas outras pessoas nos cercaram, sempre com a adrenalina a mil, eufóricos pelo o que estava acontecendo.
Alex era o centro das atenções e o olhar de admiração dos saldados em sua direção era indescritível. Sem dúvidas essa noite ele tinha mostrado muito mais de sua capacidade, pela primeira vez ele conseguiu fazer com que recuassem, com que fossem embora. Os vampiros o temiam e isso inflava ainda mais as esperanças de todos.
Houve uma grande comoção entre os habitantes de Naska e a noite que terminava, daria início a uma imensa comemoração. Júnior estava comigo e nós acompanhamos Alex e os outros até os muros. Era necessário nos certificarmos que os malditos tinham mesmo desistido. Eu queria ajudar, mas me sentia exausta e inútil ali.
- Júnior, você pode me falar onde é a área médica? Eu acho que preciso limpar isso. – falei pra ela assim que chegamos aos muros, mostrando o ferimento em meu braço.
- Claro! Vamos até lá. Aqui temos uma estrutura muito boa, você vai ficar bem. – ele falou enquanto limpava a terra e o suor do rosto.
Antes de sairmos, ainda olhei na direção de Alex, que parecia comandar todos aqueles homens na vigília do muro. Ele não parecia mortalmente ferido, não parecia que tinha acabado de sair de uma batalha como aquelas. Ele gritava e dava ordens aos grupos que se organizavam. Eles redobraram a guarda em todos os pontos de Naska e eu sabia que estaria segura ali. Ele era o líder deles, um guia nato.
Segui com Júnior para um pequeno prédio de dois andares. Ali era onde funcionava o hospital improvisado da província. Tinha um gerador próprio e muito equipamento médico. Vi algumas pessoas de jalecos correndo na direção de uma das salas. Eu imaginei que todo o corpo médico estivesse voltado para salvar a vida de Carvalho. Júnior me conduziu a uma sala que tinha algumas macas e um armário de vidro repleto de coisas como gazes e remédios.
- Espera aqui que vou ver se acho alguém pra te ajudar. – ele disse, saindo em seguida.
Caminhei com dificuldade até a maca mais próxima, encostada à parede. Sentei sobre o fino colchão e senti o corpo pesado. Tinha algumas marcas por ter rolado no asfalto e na lama tantas vezes e também sentia meu corpo todo moído por conta daquele abraço infernal. O braço não ardia tanto mais, mas estava feio, com dois cortes longos saindo do pulso e chegando perto do cotovelo.
Encostei a cabeça na parede e deixei o corpo relaxar. Respirei fundo, fechando os olhos. Senti minha consciência ir embora lentamente e deixei-me relaxar na maca, tombando o corpo.
Acordei com Dornelles e Júnior me enfaixando o braço.
- Você foi a melhor paciente que tive. – Dornelles falou sorrindo – Esses soldados são todos uns frescos com sangue.
Tentei levantar, mas Dornelles impediu.
- Fica aqui o resto na noite. Nós vamos achar um lugar decente pra você ficar enquanto isso. – ele disse – Você precisa descansar.
- E o Carvalho? – perguntei ajeitando-me sobre a maca.
Dornelles olhou pra mim, seu semblante triste.
- Ele está mal. Estamos tentando transfusões de sangue, mas ele está muito ferido, perdeu muito sangue e entrou em choque... sinceramente não sei se sobrevive. Os próximos dias serão cruciais.
Acenei para ele e vi Júnior se aproximar. O soldado segurou minha mão de leve enquanto Dornelles acabava de finalizar o curativo.
- Vou indo. Também preciso descansar. Pode deixar que arrumaremos um lugar pra você.
- Ok. – eu disse sorrindo pra ele – Obrigada por tudo.
O garoto pareceu esquecer da vida enquanto me olhava. Eu não gostava do efeito que causava nele porque não era justo e nada recíproco. Foram segundos longos em que ele me admirou. Acenando de leve, seguiu para fora.
- Bom, o seu braço eu posso curar, já o coração do moleque é mais difícil. — o soldado enfermeiro falou, dando um passo para trás.
- Dornelles! – exclamei sorrindo pra ele, que também riu.
- Bom, vou ver se ele quer uma pomada pra dor de cotovelo. É óbvio que só um de nós tem seu apreço e, infelizmente, não sou eu.
Dizendo isso, ainda com bom humor, vi o corpo forte e inteiro se afastar. Eu sabia de quem ele falava e Dornelles estava certo. Eu não podia mais negar isso, nem mesmo pra mim. Respirando fundo, deixei o efeito analgésico do curativo se espalhar e tomar meu corpo por inteiro. Dormi quase instantaneamente.
...
Acordei com o um barulho diferente. Olhei ao redor e vi a claridade do dia anuviar. No outro canto da sala, vi Alex fechando uma cortina marfim que passou a escurecer de leve o ambiente. O som da cortina havia me acordado.
- Desculpe. – ele disse.
Seu rosto estava com aspecto cansado. A barba por fazer, as marcas da noite anterior. Suas roupas estavam limpas, mas seu corpo visivelmente abatido.
- Você ficou aqui a noite toda? – perguntei sentando na maca e ajeitando minha juba desgrenhada rapidamente.
- Não, cheguei há pouco. Eu fiquei o resto da madrugada nos muros, mas não tivemos mais nenhum problema. Assim que amanheceu fui com um pequeno contingente até a gruta onde estávamos e peguei o que sobrou das mochilas. Você teve sorte.
Ele encarou a mochila grande suja de lama que jazia no canto do quarto.
- Obrigada. – falei encarando o objeto – Mas eu acho que o responsável daqui vai te estrangular quando ver essa sujeira toda.
Ele riu e deixou seu corpo descansar sobre a maca oposta, ao lado da janela.
Levantei de onde estava e agachei sobre minhas coisas. Estava tudo revirado ali dentro, mas graças ao tecido impermeável, tudo estava seco e em ordem. Eu fiquei feliz ao perceber que ainda tinha minhas coisas. Peguei uma escova de dente e pasta, além do pente de cabelo.
- Me dá licença? – perguntei sacudindo a mão com os objetos de higiene pessoal.
Ele acenou e eu fui andando pelo corredor a procura de um banheiro. Logo encontrei um e tratei de lavar o rosto e ajeitar o cabelo. Minhas roupas estavam um lixo e eu tinha alguns hematomas pelo corpo, onde o vampiro tinha me apertado mais. Saí em poucos minutos, retornando para a sala das macas.
Alex estava sentado na maca, apoiado na parede, com os olhos fechados. Parecia muito cansado. Guardei minhas coisas e fui até ele.
- Você ainda quer aquele banho quente? – ele perguntou sem abrir os olhos.
- Sim, mas depois de ver suas costas. – falei preocupada com seus ferimentos – Você não devia ter feito aquilo.
- Aquilo o quê? – ele finalmente me encarou.
- Entrar na minha frente. – respondi séria.
Ele sorriu e não respondeu.
- Agora vira e tira essa camisa pra eu ver como está. – falei autoritária e ele riu alto.
- Eu sempre quis ouvir você me pedir pra tirar a roupa. – ele disse enquanto retirava a camisa.
Não me dei o trabalho de responder aquela gracinha, mas não o deixei ver meu sorriso.
- Nossa! – exclamei quando vi suas costas.
Os ferimentos estavam quase cicatrizados, era impressionante! Havia um número absurdo de marcas de unhas e dentes e as linhas que antes sangravam incontroláveis, estavam apenas róseas pelo o processo de cicatrização. Com cuidados, passei os dedos pelas inúmeras marcas. Os músculos de Alex ainda estavam inchados pelo esforço e tornavam seu corpo ainda mais bonito. Meus dedos subiam e desciam leves de acordo com os desenhos dos músculos dorsais e meus olhos encaravam perplexos a quantidade de feridas. Eu não podia parar de pensar que todas elas eram destinadas a mim.
Parei quando percebi que sua pele estava arrepiada. Senti meu rosto esquentar levemente.
- É... vou pegar algo pra limpar isso. – falei indo na direção do pequeno armário.
Lá encontrei frascos de álcool 70%, gaze e algodão. Fiquei de pé ao lado da maca e comecei a limpar as feridas quase cicatrizadas. Eu sabia que àquela altura do campeonato, de nada adiantava, mas me sentia na necessidade de fazê-lo. Nunca ninguém tinha feito por mim o que Alex fez.
Ele não disse nada, apenas deixou que o limpasse. Depois de fazer a assepsia, abri um rolo de gaze, mas parei no caminho. De que adiantava tapar ferimentos já cicatrizados?
- O que foi? – ele perguntou quando percebeu que eu parei.
- Nada. Já está bom. – respondi baixando as mãos com a gaze.
Ele se virou, ainda sentado. Senti seus olhos em mim, mas não o encarei. Alex ainda era um mistério pra mim em muitos sentidos. Como cientista eu simplesmente não compreendia todos os eventos que se passavam com ele e como mulher... bem, eu não entendia o que se passava comigo.
- Tive medo ontem, quando vi aquele vampiro tão perto.
Sua voz me trouxe de volta à realidade.
- Você se lembra? – perguntei curiosa.
- Mais ou menos. Quando eu entro naquele ‘modo de ataque’ eu meio que não consigo raciocinar direito, não vejo a sequência das coisas como normalmente são. Eu só vejo tudo vermelho e sinto... necessidade em exterminá-los. Mas eu lembro que vi você e que eu tive medo de não conseguir chegar a tempo.
- Pois é... você conseguiu. – falei encarando seus olhos verdes e azuis – Obrigada.
- Bom, eu acho que estamos quites agora. – ele sorriu.
- É, estamos. – sorri de volta.
Alex bateu de leve na maca, para que eu sentasse ao seu lado. Retirei a parafernalha de álcool e gaze e sentei. Ele logo começou a falar:
- Manuella, eu quero que você se lembre da conversa que tivemos aquele dia sobre as pessoas de Naska — ele começou – Aqui é um bom lugar e é seguro contra os vampiros, mas tem gente de todos os tipos convivendo juntas aqui. Em Naska eu sou uma espécie de líder. Tenho voz ativa no conselho e tenho várias mordomias que muitos não tem, mas também tenho inimigos.
- Inimigos? – perguntei descrente.
- Sim, inimigos. Não é porque convivemos juntos que pensamos igual. Tem um grupo de pessoas que não concorda com algumas coisas e isso sempre gera discussão no final... olha, eu só estou tentando te alertar pra que você tome cuidado. Eu sei que minha reação ontem não foi inteligente. Os soldados me viram defender você e isso vai se espalhar rápido. As pessoas vão falar, vão especular e eu temo que...
- Você teme que seus inimigos possam querer me fazer mal. – completei.
- Você sabe que sim. – ele disse.
- Alex, eu já te disse uma vez, eu entendo os riscos. Eu vou me cuidar, pode confiar em mim. Eu só quero poder encontrar com os pesquisadores daqui, trocar informações, seguir o meu objetivo. Só quero ir pra base militar e descobrir a cura pra isso. Sou capaz de qualquer coisa por isso e você sabe.
- Eu sei, eu sei. – ele me interrompeu – Só... se cuida.
Acenei pra ele com veemência e sorri. Ele sorriu de volta, embora eu soubesse que estava preocupado. Alex respirou fundo e eu acrescentei:
- Sabe, eu pensei que conseguia fazer você recobrar o controle quando está em transi, mas ontem... parece que você ficou mais nervoso quando me viu, queria atacar todo mundo.
Ele me olhou.
- Controle é o que eu menos tenho ao seu lado, Manuella.
Seu tom sério me desconcertou e senti a droga do meu rosto esquentar novamente. Alex riu com minha reação e se aproximou.
- Vai ser a primeira vez que te deixo sem uma resposta. – ele disse feliz enquanto continuava a sorrir.
Inacreditável! O crápula estava certo. Eu não fazia ideia do que responder. Ele se aproveitou de minha hesitação, pousou a mão em meu rosto e aproximou-se de mim lentamente.
- Alex...
Antes de eu prosseguir, ele beijou minha bochecha, pegando o canto da boca, e disse depois eu um sussurro:
- Eu disse que te respeitava, não vou fazer nada que você não queira.
Merda. Ele não podia ter escolhido palavras melhores para mexer comigo. Sentia a cabeça rodar com tudo aquilo. Eu sentia o cheiro dele e sua boca em minha pele e senti mais uma vez a necessidade de beijá-lo. Virei o rosto em sua direção e toquei seus lábios com os meus muito suavemente. Era isso, eu queria aquele gosto, queria sentir novamente Alex comigo, mas precisava ter certeza de que era a coisa certa. Senti a respiração dele aumentar, senti seu desejo por mim crescer enquanto me mantive parada, apenas roçando nossos lábios da forma mais suave.
A mão dele deslizou para minha nuca, embolou-se em meus cabelos, mas Alex não me beijou e nem me puxou pra frente. Nos olhávamos de muito perto, o hálito dele confundindo meus sentidos, seus olhos coloridos me envolvendo. Seria possível ele estar dizendo a verdade? Será que ele era mesmo diferente?
- Você disse que não tem controle ao meu lado... por que não me beija logo então? – sussurrei no tom mais quente.
Alex engoliu forte.
- Você não está sendo justa. – ele mal conseguiu falar. Sua língua roçou meus lábios quando falou.
- Eu disse que não me envolvia... mas não disse que era justa. – falei instigando-o mais.
Ele respirou ainda mais rápido, sua boca salivando por mim.
- Eu não vou beijar você até que me peça. – ele falou, sendo determinado.
Senti o coração disparar. Ele tinha feito de novo. Eu estava no limite da vontade de senti-lo novamente, mas meu corpo e minha mente estavam em conflito. Eu queria, como eu queria confiar em Alex!... mas eu simplesmente não conseguia, nem com todas as provas que ele insistia em me dar.
Foi um longo tempo no qual estivemos daquele jeito, enlouquecendo um ao outro, quando minha mente finalmente perdeu a batalha. Ofegante, abri lentamente a boca para beija-lo, quando senti o vazio de repente. Alex se pôs de pé, interrompendo o momento de forma inesperada e incrivelmente rápida. Ele se colocou na minha frente, abraçando-me com um dos braços e olhando de esguelha para a porta. Vi o reflexo branco em seus olhos protetores.
Júnior estava parado na porta e deu um passo pra trás involuntariamente quando percebeu a atitude de Alex. Eu senti um aperto no peito ao ver a tristeza nos olhos do soldado parado na porta.
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