Life
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Boa leitura!
A chuva caía fina e gelada trazendo a noite tão temida. Durante a noite, os sobreviventes entravam em um estado permanente de alerta. Mesmo nas províncias, dentro dos muros e cercados de soldados armados, era impossível não sentir medo.
Santa Clara ficava muito bem protegida, num ponto privilegiado. Havia uma enorme encosta ao sul e a mata em volta não era muito fechada. Assim, era muito mais fácil para se vigiar durante as horas escuras. Quando um maldito vampiro se aproximava, logo era pego pelas luzes dos refletores enormes e uma chuva de tiros era disparada. Os tiros não os matavam, é claro, mas eram suficientes para retardá-los, ou até mesmo, imobilizá-los para que fossem torrados com o nascer do sol.
Eu era uma boa atiradora, tinha boa pontaria e bons reflexos e geralmente me oferecia para ficar nos muros durante as horas noturnas, mas eu não ficaria de guarda esta noite, pois precisava me preparar para a partida. Eu teria de ir atrás de Lauriê de qualquer maneira.
Em Santa Clara eu dormia, como a maioria, no dormitório comum. Era um luxo muito grande alguém possuir uma casa pra si dentro de uma comunidade. Essa era uma extravagância permitida a poucos. Geralmente aos líderes das aldeias ou aos generais que comandavam o exército que nos protegia. Eu nunca precisei disso e, além do mais, era mais divertido dormir em grupo. Eu tinha muitos amigos em Santa Clara, mesmo com tão pouco tempo de casa.
- Então, o que você acha? – Helena me perguntou ansiosa, cruzando as pernas enquanto sentava em sua cama, que ficava ao lado da minha.
- Hã, o quê? – perguntei meio sem jeito... eu não tinha prestado a mínima atenção no que ela estava falando.
- Manuella!
- Desculpe... eu só... estou distraída pensando na viajem que terei que fazer, só isso. – respondi tentando me desculpar.
Helena era bonita e jovem, mais ou menos da minha idade, e tinha sido a primeira pessoa com que tive contato quando cheguei aqui. Ela era legal e divertida, embora um pouco ingênua demais.
- O que você dizia mesmo? – perguntei encorajando-a.
- Você está mesmo decidida a fazer essa loucura, não é? – ela perguntou, já em tom mais sério, mudando de assunto.
- Helena, por favor, já está decidido, não vamos voltar a brigar por isso, OK?
- Manuella, isso é a maior loucura de todas! Você não percebe que vai ser alvo fácil pra eles, andando sozinha assim durante a noite? Eu não quero nem pensar!
- Então não pense, Helena, não pense. Eu já disse, não vou desistir de minhas pesquisas. Eu vou encontrar essa tal de Lauriê e ponto e nenhum vampiro de merda vai me matar antes disso.
Helena bufou, jogando os longos cabelos negros para trás. Um silêncio incômodo se fez entre nós.
Eu ajeitei os últimos detalhes da bagagem, que se resumia a uma mochila grande de camping onde eu carregava o básico para uma curta viajem. Mais da metade dela era de munição.
Ajeitei minhas pistolas sob o travesseiro fino e deitei, jogando o cabelo para um lado só. Helena ainda me encarava bicuda.
- E então, vai ficar assim de bico ou vai me dizer o que te deixava tão animada?
Ela bufou e sacudiu a cabeça.
- Eu não vou dizer mais nada além do que digo sempre, você é maluca Manuella e vai fazer a maior burrada de sua vida.
Sem mais, ela virou para o lado para tentar dormir, assim como faziam os demais companheiros no enorme galpão onde era o dormitório comunitário.
Eu não dei importância a ela. Helena estava nervosa e era normal. Ela não acreditava em mim, o que era uma pena. Ela ainda tinha a idéia boba de que um dia o Salvador apareceria para nos salvar... eu disse que ela era ingênua....
...
Marcos ía na frente, com o resto dos soldados, enquanto eu me mantinha afastado. Eu podia sentir a noite chegar e sabia que isso representava perigo. Estávamos a uma semana na estrada e só havíamos encontrado com os malditos no segundo dia, de resto, tudo tinha transcorrido bem.
Mas Santa Clara ainda estava distante e, certamente, pegaríamos uma ou duas horas de noite antes de chegar por lá e isso significava que, provavelmente, encontraríamos vampiros no caminho. Eles sempre estavam perto das aldeias, sempre a espreita aguardando o melhor momento de atacar.
Meus instintos estavam certos.
Nós já avistávamos os grandes portões que guardavam a província de Santa Clara, quando eu senti, antes de todos, o cheiro das criaturas. Estavam entocados nas poucas árvores do lugar e saíram ao nosso encontro assim que nos aproximamos. Eles estavam cada vez mais espertos.
Aproveitei os meus últimos segundos de lucidez para alertar aos outros.
- VAMPIROS! – gritei no meio da noite.
Os soldados já estavam preparados e iniciaram o tiroteio. Tudo parecia em câmera lenta pra mim. Senti minha mão agarrar o metal que vinha preso na mochila e puxei. Tudo começou a ficar vermelho. Eu já não era dono do meu corpo. Tudo o que eu fazia era matar, matar as criaturas demoníacas, afastá-las das pessoas, dos humanos. Quando o ódio me dominava, eu não era mais dono de mim.
...
Estava escuro e eu sentia o frio da geladeira recém-fechada. Sentada no balcão, eu sentia o familiar gosto do requeijão com presunto, mas tudo estava turvo. Então ele apareceu, de novo.
Eu me debatia, mas o peso dele era demais pra mim. O suor escorria em minha pele e o grito sufocava a garganta.
Senti meu seio doer quando a mão abusada e enorme o apertou firmemente. Senti a pressão, senti a dor e a agonia. Aquele homem me mantinha presa, eu não tinha forças para empurra-lo. Eu queria morrer...
Percebi alguém me sacudir com violência e sons estranhos chegavam os meus ouvidos... gritaria, sirene, Helena...
- MANUELLA! MANUELLA! ACORDA!
Abri os olhos assustada, o suor escorrendo. Helena desesperada a minha frente, ainda mantinha suas mãos em meus ombros. A nossa volta, o caos.
Todos corriam e gritavam, lá fora, sons de tiros e sirenes de alertas: Santa Clara estava sendo atacada por vampiros.
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