Lieben

2 Capítulo 1


Capítulo I
–Ei, maninha, acorda! O café já está na mesa!

A constante insistência de Gwen para que acordasse fez com que Lieben sentisse uma vontade inevitável de acertar a irmã mais velha com um travesseiro. Ela decidiu reprimir essa vontade antes que as duas criassem uma guerra de penas pelo quarto todo.

–Deixa eu dormir mais um pouco...-Disse Lieben, ainda com sono.

– Nada disso! você disse que ajudaria na colheita hoje, não disse?
Droga, ela pensou. Ela tem razão.

Lieben se levantou, resmungando baixo maldições contra o dia que resolvera, quem diria? Fazer algo de ÚTIL na vida.

Ela aproveitou o tempo que ela levou pra pentear os cabelos pra observar a irmã, que estava em outro canto do quarto, lendo algo que parecia ser importante. Ela não tinha puxado os cabelos ruivos do pai, no lugar tendo as madeixas negras da mãe. Inclusive, ela tinha os olhos mais estreitos, características do país distante que a mãe viera. Qual era o nome mesmo? Wu...wa....Wusha! era isso! Ela sempre pensou que era um nome bobo pra um país, mas quem era ela pra reclamar?

Finalmente, ela desceu as escadas pra tomar café. Sentado na mesa estava o pai, devorando um prato gigante de comida, e a mãe, ainda cozinhando mais comida.

–Mãe, o café já não tá pronto? Pra quê mais comida?

–Ora, filha, e a comida que seu pai vai levar pro trabalho? E a comida que vocês vão receber no campo quando tiverem cansados de tanto capinar terra? E a comida que...

Ela fez um sinal de pare com a mão pra mãe. Uma explicação já era demais, imagina 5.

Enquanto ela comia junto do pai, ela via a irmã comer apressada com mais papéis que antes. Inclusive, ela tinha vestido as roupas mais bonitas da casa. ( Ou, no mínimo, as mais apresentáveis.) Ao perguntar pra irmã o que era aquilo, ela respondeu:

– É que eu vou apresentar uma proposta pro Lorde do castelo de Eingrass. Se der certo, Nós teremos finalmente dinheiro suficiente para melhorar essa casa. E, cá pra nós, essa casa está tão acabada que os ratos daqui têm NOMES. Ih, olha lá o Robert passando!
A ruiva olhou para trás, ao soar da última frase.

– Boba, aquele é Noire. O pai dele morreu faz um bom tempo já.

– É? Bem que eu tava estranhando que os queijos daqui ainda estavam intactos. Achei que as ratoeiras finalmente funcionaram dessa vez!

– E funcionaram. Como cê acha que ele morreu?
A conversa das duas foi interrompida por batidas na porta. Era a carruagem que Gwen contratara para levá-la até Eingrass. Ela deu um beijo na testa da irmã, dos pais, acenou e foi embora.

– Essa menina vai longe, né não, Miru?- disse o pai.

– O talento pros negócios veio do pai, com certeza. Inclusive, Lieben, já está na hora de ir pros campos, não?

–Ué, não era só quando o sol tivesse no centro do céu?-Indagou a menina.
– Uma coisa que se deve aprender é chegar ANTES do tempo combinado, querida. Você já tem 16 anos, Responsabilidade é coisa séria.
– Tá bom, tá bom. Já vou pegar as minhas ferramentas.

Armada com sua enxada, foice, ancinho e marmita, preparada até os dentes para arar a terra até criar calos e jogar tantas sementes na terra que chegaria a ser um pecado, ela foi até os campos. Primeiro dia de trabalho, nada poderia dar errado. Pelo menos, era o que ela esperava.

O sol estava a pino quando ela chegou nos campos para trabalhar. Já tinha vários homens metendo a mão na massa, que ficaram surpresos quando ela veio. A maioria eram amigos do seu pai, que a conheciam desde que ela nasceu, praticamente. Eles se ofereceram pra ajudar, mas ela disse que conseguiria sozinha.

Ao olhar mais um pouco pelo campo, viu que não havia muitas mulheres. De fato, ela era a ÚNICA. Ela começou a pensar se aquilo era o mais adequado para ela. Ela nunca foi uma menina muito, bem, menina. Desde criança, em vez de brincar com as bonecas da irmã ( Eles não tinham dinheiro pra comprar coisas pras duas, então ela recebia roupas e brinquedos que já não serviam pra irmã mais velha) , ela resolvia brincar com os moleques das ruas, fingindo ser uma imponente cavaleira de armadura brilhante, salvando os pobres camponeses de dragões feitos de caixas amontoadas. Só perdeu uma vez, quando uma caixa caiu sobre sua cabeça, fazendo-a chorar. Digo, quando a cabeça decepada do dragão rolou sobre ela, indicando seu fim--

–O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AÍ PARADA?

O grito foi alto o bastante para desestabilizá-la e fazê-la derrubar suas ferramentas no chão com o susto. Quando ela olhou pra cima, era um homem alto, loiro, com a barba por fazer, olhando feio pra ela. Devia ter uns 30 a 40 anos.

– Uuh...perdão, senhor...

– Brutus, o dono dessa plantação. E, o cara que manda em todos os camponeses que aqui trabalham. Mas você? você me parece familiar.

– Sou filha de Edgar Walters, Senhor!- Ela ainda estava trêmula, tão intimidador era o homem.

– Ah, o tesoureiro? Por quê não avisou antes? Ele avisou que você viria trabalhar aqui. — O tom dele estava menos ameaçador.

Conversa vai, conversa vem, eles foram ajustando os dias que ela viria trabalhar. Ele, inclusive, ficou surpreso que uma mulher quisesse fazer um trabalho tão braçal, visto que era um emprego tipicamente masculino por ali. Ela respondeu dizendo que mulheres tinham tanta capacidade física quantos os homens. Ele simplesmente deu de ombros.

– Bom, a conversa está indo bem, mas...

– Mas o quê?

– Sabe, aqui, do lado da vila, tem a floresta de Wigfried. Eu estava esperando uma carga de sementes vinda por lá, mas até agora não recebi notícia nenhuma. Eu vou ter que ir lá saber o que houve.

– Deixa disso! Eu vou!- Falou Lieben, animada.

– Tem certeza? E a plantação?

– Já tem gente demais trabalhando aqui. E um pouco de andança não faz mal a ninguém.

– Ok, então. A floresta fica ao leste. Não precisa entrar, é perigoso sem companhia. Mas, fique lá de guarda vendo se alguém chega.

Dito isso, ela foi rapidamente á entrada da floresta, com o sol batendo o rosto e o vendo balançando os cabelos. Ela considerava isso sua "Primeira missão". Se ela conseguisse, talvez ela fosse promovida!... À quê?

Ao chegar na estrada, que consistia em um portão gigante de madeira refinada, provavelmente pega ali mesmo, ela ficou parada esperando algo. Um mensageiro, a encomenda, algo que fizesse a viagem valer a pena.

A tarde foi chegando enquanto ela esperava. O céu ia ficando mais avermelhado, e os pássaros se aninhavam em seus ninhos para a noite. Os animais noturnos começavam a sair, e o sono ia entrando de fininho na cabeça da ruiva.

Porém, antes de cair no sono ali mesmo, ela sentiu algo. Algo...poderoso, vindo do centro da floresta. Ela sabia que tinha que voltar pra casa, afinal, ela duvidava que o que quer que ela esperasse aparecesse ali. Contudo, a sensação era tão forte, que parecia que uma voz a chamasse para dentro. Uma voz calma, convidativa, sedutora... Ela não resistiu e adentou a floresta.