Licantropo - o Livro de évora
3 O Ritual
III
O Ritual
O forasteiro havia saído da cidade pela entrada principal, mas ao invés de seguir o caminho que dava na estrada que levava até a região metropolitana, tomou uma rua de chão, quase nunca usada, para o seio da floresta que se encontrava nos arredores de São Cipriano. Era uma estrada curta, repleta de buracos e que somente era usada por caçadores na temporada de caça e apenas durante o dia. Diziam que a noite a estrada ficava repleta de fantasmas.
Padre Joaquim nunca ligara para aquelas históricas folclóricas bobas. Tinha fé em seu Senhor e isso lhe dava coragem para andar à noite onde tivesse que andar. Mas aquela era uma situação diferente, pois o motivo daquele passeio noturno era seguir um completo estranho que em uma das mãos carregava uma espada e na outra um lobisomem. Um lobisomem de verdade!
O policial Daniel ainda tinha muitas perguntas não respondidas, mas o negrume e a estrada tortuosa fizeram-no esquecer qualquer interrogatório. Ele sempre fora um policial corajoso, mas a presença daquela criatura tornava tudo muito diferente. Isso sem falar naquele forasteiro, cujo simples andar já impunha medo em qualquer um.
- Não tem mais perguntas para me fazer, policial? – perguntou o forasteiro, chamando a atenção do policial, que agora olhava por entre as árvores, receoso de avistar um fantasma.
- Você ainda não me respondeu por que ajudou todo mundo. Você não parece fazer o tipo altruísta, como você sugeriu.
- Ninguém é do tipo altruísta, policial Davi... Dado... Ou sei lá qual é o seu nome.
- É Daniel.
- Bem, oficial Daniel, altruísmo verdadeiro não existe. Sempre existe um interesse próprio por trás de qualquer boa ação. Sacrifício por sacrifício deixou de existir há um bom tempo.
- Isso não é verdade. – retrucou o padre Joaquim. – Eu acredito que ainda existam pessoas nesse mundo capazes de se sacrificar pelos demais.
- É mesmo, padre? E você é uma dessas pessoas? Você se crucificaria para salvar um grupo de fiéis que vai a igreja todo domingo para fazer pose de bom samaritano para o restante da cidade? Se crucificaria?
O padre gaguejou, mas respondeu, com uma expressão forte no rosto.
- S... Sim!
- E você daria sua vida para salvar a vida dessa criatura que tentou atacar seus queridos fiéis?
A expressão do padre mudou várias vezes em poucos instantes diante desta última pergunta. Foi de surpreso para envergonhado e então confuso.
- Salvar o lobisomem? Não entendo... – disse ele, por fim.
- Acha que ele se torna esta criatura porque tem sede de sangue? Acha que ele gosta de atacar humanos?
O padre fez menção de dizer alguma coisa, mas silenciou-se. Ficou claro que, quem quer que fosse aquele lobisomem era importante para o forasteiro.
- Pensei que sua tarefa fosse ensinar aos demais que não se deve julgar o próximo, não? Mas você com certeza demonstrou repugnância por este licantropo, do contrário, teria entendido a pergunta que lhe fiz.
O padre não disse mais nada, apenas continuou a seguir aquele homem. De fato, segui-lo tornou-se inesperadamente importante. Antes ele estava apenas atrás de respostas, mas agora, sentia que precisava descobrir como aquilo tudo terminaria. Afinal, quem era aquele lobisomem?
O forasteiro parou em uma clareira bem iluminada pela luz da lua cheia. Depositou a criatura no chão e fincou sua espada ao lado dela. Depois tirou do bolso interno do colete de couro uma faca adornada com imagens de serpentes.
- O que vai fazer? Matá-lo? – perguntou o policial.
- Não, é claro que não. – respondeu, rudemente. Fez uma pausa, e então voltou a falar. – Se querem mesmo saber, eu lhes conto: este licantropo é meu irmão mais novo.
Aquilo fora um choque para tanto o padre quanto o policial. Irmãos? De fato, padre Joaquim havia imaginado alguma relação existente entre os dois. Mas jamais teria imaginado uma relação de fraternidade.
- Meu nome é João e este é Miguel. Vivíamos em uma cidadezinha parecida com São Cipriano e éramos felizes. Até que em uma noite de lua cheia, enquanto dormíamos, um licantropo invadiu nossa casa. Ele atacou nossos pais com tanta ferocidade que eles morreram. Depois foi até o quarto onde eu e Miguel dormíamos. A cama dele era mais próxima da porta e ele foi atacado primeiro. Mas não por muito tempo, pois meu pai, completamente ensangüentado, apareceu à porta do quarto carregando uma espingarda e atirou nas costas da criatura, que fugiu ferido.
“Depois disso, nosso pai, sem dizer mais nada, caiu o chão e morreu. Nossa mãe já estava morta na cama dela e Miguel estava gravemente ferido. Desesperado, comecei a chorar e a gritar por socorro, mas ninguém quis ir, pois haviam visto a criatura e tinham medo que ela voltasse. Então peguei Miguel no colo e estava correndo com ele para o hospital quando um homem encapuzado apareceu e se ofereceu para ajudar. Ele me disse que não havia medicina no mundo capaz de curar Miguel naquele estado. Então ele nos levou para uma clareira como esta e realizou o Ritual Mágico que salvou a vida do meu irmão. Mas infelizmente, não há magia com a capacidade de impedir a transmissão da maldição de um licantropo.”
- Sinto muito. – disse o policial Daniel. Padre Joaquim, ao seu lado, deixara cair algumas lágrimas.
- Não preciso da compaixão de vocês, mas... Agradeço mesmo assim. Miguel e eu temos vivido como nômades desde então. O feiticeiro que salvou a vida de Miguel se chamava Pelásio e foi ele quem me deu esta espada. É uma Laus Caninum. Faz com que licantropos permaneçam inconscientes enquanto estão transmutados, desde que estejam próximos a ela, é claro.
- Mas por que se tornaram nômades? – perguntou o policial Daniel.
- Primeiro porque não queríamos ficar em um lugar tempo o suficiente para começar a chamar a atenção dos outros. Segundo, porque estivemos buscando vingança. Soubemos que o licantropo que matou nossos pais passou por aqui durante a última lua cheia.
- Então aquele lobisomem da última vez não era seu irmão? – perguntou o Policial Daniel, novamente.
- Não. Ele se intitula Damarco e é o atual governador do Castelo de Licaão, a casa do clã mais antigo de licantropos. Não são muito amigáveis. Eu e Miguel havíamos desistido de caçá-lo, pois sabíamos que era uma tarefa quase impossível. A maldade de Damarco só é menor que seu poder, isso sem falar na quantidade de capangas que possui. Iríamos viajar para o norte, para nos encontrarmos com Pelásio novamente, quando soubemos que Damarco havia se transformado nas redondezas desta cidade. Miguel quis vir imediatamente, mas eu fui contra. Nós tivemos uma discussão e ele fugiu. Longe da espada, ele acabou se tornando licantropo esta noite e atacou a cidade mais próxima, no caso, São Cipriano.
- E você acha que esse Damarco pretende atacar nossa cidade esta noite? – perguntou o policial Daniel.
- Sim. Ou pelo menos, é possível. Por isso mesmo é que preciso realizar o Ritual do Levanta Cão o mais rápido possível. Se ele for atacar a cidade, Miguel precisará estar consciente.
- Consciente? Mas isso não será perigoso?
- O Ritual do Levanta Cão é uma expansão do poder da espada Laus Caninum. Ela permite que o licantropo mantenha o controle mental, mesmo consciente. Licantropos mais experientes conseguem atingir este nível sem a necessidade de um ritual de sacrifício. Geralmente os licantropos de nascimento, aqueles filhos de pai ou mãe, ou ambos, também licantropos.
- Ritual de sacrifício? Isso me parece meio satânico... – disse o policial Daniel.
João lançou-lhe um olhar de desdém. Virou-se então para seu irmão deitado no chão. Com aquela faquinha, ele riscou o chão ao redor de seu irmão e da espada, formando um círculo perfeito. Parecia já ter feito aquilo várias e várias vezes antes. Então, prostrando-se diante da espada e segurando firme a faca que havia tirado anteriormente do bolso do colete de couro, levantou o pulso esquerdo, e olhando para a lua disse:
- Lua cujo poder mágico de transformação retira a consciência da Licantropia, aceite este sacrifício em troca de controle mental da vítima de uma das maldições mais antigas do mundo. Que sua mente se torne sã, mas que a sede de sangue e carne continue adormecida.
Então, com um movimento rápido, ele corta o próprio pulso com a faca e deixa o sangue escorrer por todo o círculo que desenhara no chão. Depois deposita seu pulso, ainda sangrando, sobre a cabeça de seu irmão licantropo. Quando tanto sangue havia sido derramado que João mal conseguia manter-se em pé, os olhos humanos da criatura canina abriram-se e João deixou-se cair no chão. Agora era ele que ficara inconsciente.
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