IV

Damarco

O licantropo ergue-se, desvencilhando-se das cordas que o prendiam (cujas amarras haviam se afrouxado sozinhas).

- Deus nos acuda! – disse o policial Daniel e saiu correndo da clareira, tomando o caminho de volta para a cidade, desesperadamente.

Mas o padre Joaquim não se moveu. Seu rosto mantinha uma expressão de puro medo, mas manteve-se firme. Ele vira coisas surpreendentes de mais aquela noite e acreditar que mais uma estava prestes a acontecer não seria nada de mais. João havia lhe dito que quando Miguel acordasse seria um licantropo com consciência humana. Por alguma estranha razão, ele não podia mais deixar de acreditar no que João dizia.

O licantropo, agora ereto, lança um olhar confuso ao padre. Ao olhar da fera, padre Joaquim treme, mas ainda assim não se desespera. Miguel vê o irmão caído no chão, mas não parece de todo surpreso, como se já houvesse se deparado com uma cena parecida anteriormente. Ele se abaixa ao seu lado e retira de um bolso interno de seu colete de couro, um frasquinho contendo um líquido vermelho. O frasco era bem pequeno para sua enorme mão de licantropo, por isso ele segura o recipiente com apenas as pontas do dedo indicador e do polegar, meio sem jeito.

- Será que você pode... – começou o licantropo a dizer, olhando para o padre, que deixou-se dar um passo a trás. – ...jogar este líquido em sua boca? Ele precisa beber essa poção para recuperar seu sangue perdido e suas forças.

Padre Joaquim hesitou. A fera falava com ele. Sua voz era estranhamente rouca, mas parecia a voz de um humano, e não um uivo canino. Engolindo em seco, juntando toda a confiança que tinha na proteção de seu Deus, e ignorando o medo e a euforia extrema que invadia sua mente e o compelia a fugir dali desesperadamente, padre Joaquim aproxima-se em passos lentos e trêmulos.

Ele apanha da ponta dos dedos do licantropo o frasco contendo o estranho líquido vermelho, que aparentemente traria a João seu vigor de volta. Abaixa-se ao lado do homem e despeja o conteúdo do vidro em sua garganta. Depois, deposita o frasco no chão e se afasta novamente.

- Obrigado. – disse Miguel. Seus olhos claramente demonstrando agradecimento. Padre Joaquim sentiu-se mais seguro.

João tremeu. Os olhos ainda fechados. Rolava estranhamente no chão, como se estivesse sentindo uma dor terrível. A expressão em seu rosto era a de puro sofrimento. Então, como que se a dor houvesse atingido sua máxima potência, João soltou um grito de agonia. O grito fora tão forte que Padre Joaquim tinha certeza de que havia sido ouvido pelos moradores ainda acordados de São Cipriano.

Então a dor pareceu ter cessado. João abriu os olhos e sentou-se com as pernas esticadas e os braços apoiados no chão às suas costas, como uma criança cansada de brincar que se joga no chão, ofegante.

Levantou-se então lentamente, apanhou a faquinha adornada com serpentes caída, depois sua espada ainda fincada no chão e, olhando para o irmão, deu-lhe um abraço.

- Nunca mais... nunca mais faça isso! – disse João. Seus olhos, padre Joaquim pode ver, brilharam estranhamente.

- Desculpe. Perdi a cabeça. – disse Miguel com sua voz estranhamente rouca.

- Obrigado pela ajuda, padre. – disse João, soltando-se do abraço. – Agora, sugiro que procure abrigo. Se Damarco for mesmo atacar a cidade, você precisará estar em um lugar seguro.

- Mas... o que não entendo, é por que esse tal Damarco iria querer atacar São Cipriano? – perguntou Padre Joaquim.

- Não tenho certeza. – respondeu João. – Essa cidade é cheia de mistérios. Mistérios que os moradores daqui não conhecem. Há muitas histórias sobre ela entre nós, feiticeiros. O que posso lhe afirmar é que posso sentir uma magia poderosa no ar quando respiro.

- Devo alertar os policiais? – perguntou o padre.

- Sim! Alerte-os para ficarem fora do caminho. Aliás, onde está o policial Daniel?

- Fugiu quando você desmaiou.

- Fugiu quando eu acordei, você quer dizer. – corrigiu-o Miguel.

- É... – disse padre Joaquim, meio sem jeito. – Foi um pouco assustador.

- Eu causo essa impressão. – disse Miguel, e para a imensa surpresa de Padre Joaquim, esboçou um sorriso. Era um sorriso canino, se é que é possível se imaginar um. Suas presas assustadoras a mostra, mas, de uma forma estranha, elas agora lhe passavam confiança, e não mais assombro.

- Vá para a delegacia, então. – era João quem falava agora. – Procure pelo oficial Daniel e diga-lhe para não aparecer quando a batalha começar. De fato, acho que a delegacia será o lugar mais seguro para vocês dois, então fique lá.

- A delegacia? Estava pensando em voltar para a igreja e...

- Não! A igreja é com certeza o lugar mais perigoso da cidade agora... Na verdade padre, não posso lhe afirmar com certeza de que terá sua igreja de pé amanhã de manhã.

Padre Joaquim engoliu em seco.

Os três voltaram correndo para a cidade, agora bem alertas em relação a barulhos externos, olhando loucamente por entre as árvores da floresta. Padre Joaquim segurava com firmeza seu terço por dentro de sua batina. João, a sua espada. Quanto a Miguel, mantinha os punhos fechados firmemente e os olhos agora demonstravam uma expressão séria e concentrada.

Em poucos minutos cruzavam a entrada da cidade. Padre Joaquim virou à direita em uma rua lateral que o conduziria até a delegacia, mas antes, despediu-se dos dois.

- Boa sorte. – disse o padre. Se alguém lhe dissesse há meia hora que diria tais palavras para aqueles dois àquela noite, diria a esta pessoa que precisava procurar um psiquiatra.

- Obrigado. Por tudo. – disse João. – Cuide-se.

Assim sendo, enquanto o padre tomou a rua de chão até a delegacia, João e Miguel seguiram na rua asfaltada até a igrejinha de São Cipriano.

Não demorou muito para os dois a avistarem. Era uma igreja construída com a arquitetura gótica. Sua abóbada era feita de nervura de pedra e enchimento de tijolo. Suas duas torres frontais eram truncadas, sem pontas. A planta da igreja tinha o formato de uma cruz. A entrada principal era composta por uma porta dupla de madeira ornamentada com uma cabeça de cabra em cada uma delas (coisa que os habitantes da cidade sempre acharam estranho e desprezavam). Acima desta havia sido instalada uma rosácea com a representação da Virgem Maria com o Menino Jesus e acima desta última, um Vitral que mostrava o momento em que São Cipriano se converteu ao cristianismo, ajoelhado diante de sua futura esposa, Justina.

João e Miguel pararam diante da escadaria que conduziria a fachada principal da igreja e ali permaneceram por alguns minutos, sem dirigir uma palavra sequer para o outro, apenas ouvindo os sons da noite em São Cipriano. Palavras não precisariam ser ditas. Ambos sabiam o que o outro estava pensando.

Então ouviu-se um uivo não muito distante. As luzes dos postes públicos que iluminavam as ruas diminuíram de intensidade e João e Miguel puderam apenas ver uma sombra aproximando-se. Era uma sombra alta e quanto mais esta se aproximava, mais as luzes diminuíam de intensidade.

- Ora... ora... ora... – disse o dono da sombra. – Se não é Cronos, o Caçador, e seu fiel cão de caça, Mikael.

Então a criatura possuidora daquela sombra assustadora entrou para o plano visível aos olhos dos irmãos. Era um licantropo, mas maior e mais musculoso que Miguel. Tinha quase 3 metros de altura. Seu pelo era mais escuro, suas garras mais afiadas e suas presas, à mostra em um sorriso cínico, mais pontudas. Os olhos do licantropo mantinham uma expressão meio-humana de pura malícia. Ele parou a uns 10 metros dos irmãos.

- Não está acompanhado de seus capangas hoje, Damarco. – disse João, estranhamente chamado de Cronos pelo licantropo a sua frente. – Não tem medo de sair sozinho em noite de lua cheia?

Damarco deu uma risada maligna. Era uma risada fria, com certeza não demonstrava alegria, mas uma sede de sangue, de carne.

As pessoas das casas próximas olharam pelas aberturas das janelas, amedrontadas. Mães abraçavam seus filhos e os pais seguravam em algum tipo de arma, como espingardas ou facões, aguardando o pior.

- Tenho assuntos, digamos, particulares aqui nessa cidadezinha dos infernos. Assuntos que não condizem com o Clã. – disse Damarco, e continuou a se aproximar dos irmãos.

João levantou sua espada. Estava pronto para atacar. Miguel, ao seu lado, pôs-se em posição de ataque: as patas traseiras inclinadas, prontas para dar impulsão, as frontais, simplesmente encostadas no chão para ajudar com empuxo.

Damarco expandiu ainda mais o sorriso irônico. Parecia se divertir com a idéia de lutar contra os irmãos.

- Finalmente vou mandar vocês dois para junto dos seus pais.