II

O Feiticeiro

O padre fez um sinal da cruz e olhou descrente para o homem.

- Como ousa desonrar esta igreja com blasfêmias?

- Perdão padre, mas acho que minhas blasfêmias acabaram de salvar sua igreja e seus fiéis. – retrucou o homem, calmamente. – Agora, se me dão licença, vou levar esta criatura para longe daqui.

Ele então se abaixou e agarrou a corda com a mão direita e levantou a fera como se não pesasse mais que uma pena. Para a surpresa do padre Joaquim e da quase-vítima da criatura, esta estava desacordada. Parecia estar dormindo, apesar de a respiração continuar ofegante.

O homem voltou às ruas e o padre foi atrás, deixando o senhor ainda estagnado dentro da igreja. Não havia ninguém do lado de fora das suas casas, mas as luzes estavam acesas e era possível ver as sombras das pessoas tentando espiar pelo canto das janelas. Algumas até abriram uma frestinha para dar uma espiada no que estava acontecendo lá fora. Por que não se ouvia mais uivos? Quem era aquele homem e como foi que prendera o animal com aquela corda? E afinal, da onde veio aquela corda?

Mas antes que o homem carregando a criatura e o padre que o seguia eufórico andassem mais de dez metros para longe da igreja, ouviu-se o barulho de sirenes e uma viatura da polícia chegou correndo e derrapando naquela que era uma das poucas ruas asfaltadas de São Cipriano.

- Parado aí! – disse um Policial descendo da viatura, mas aparentemente sem saber para quem apontar a arma, se para o homem, ou para o monstro que carregava com apenas uma das mãos.

- Posso saber que crime cometi, oficial? – perguntou o forasteiro.

- Bem, para começar, está portando uma espada! O que é ilegal.

- Policial Daniel, este homem nos salvou do ataque desta... desta...

- Deste. É um licantropo. – respondeu o forasteiro.

- Eu ia dizer criatura, mas... LICANTROPO?

- Não, um pinscher... Claro que um licantropo!

- O que é um licantropo? – perguntou o policial, com as feições confusas.

- Isto! – respondeu o forasteiro, apontando para a criatura.

- Um lobisomem? – perguntou o policial, meio incerto.

- Lobisomem é um nome popular, folclórico. Mas chame-o como quiser. Agora, se me dão licença, vou levá-lo para fora da cidade para a segurança de todos.

- Não sem antes responder as minhas perguntas na delegacia. – impôs o policial, entrando no caminho do forasteiro, que fez menção de seguir sua trajetória.

- Poderá me perguntar o que quiser se me seguir, mas não o acompanharei a lugar algum. – e continuou a andar. Suas palavras foram ditas com tanta imposição que o policial deu um passo atrás e o punho que segurava a arma fraquejou e tremeu.

O homem misterioso continuou então a caminhada que o levaria para fora da cidadezinha de São Cipriano, mas agora acompanhado do padre Joaquim, ainda eufórico, e do policial, que parecia ter recuperado sua coragem, mesmo se abstendo de fazer as perguntas na delegacia. Ele iniciou o interrogatório quando deixaram a estrada asfaltada e viraram em uma rua de chão que os levaria para a entrada principal da cidade.

- De onde veio esta criatura? E por que salvou os fiéis na igreja?

- Homens se tornam Licantropos de duas formas. A primeira é a origem natural. Vocês devem conhecer o folclore. O sétimo filho de um sétimo filho nascerá lobisomem. Outros acreditam que é o oitavo, mas verdadeiramente, o sétimo filho de um sétimo filho. A segunda forma de surgir um licantropo é se um homem for mordido por um ou ter a pele arranhada por suas garras.

- Mas isso não é só folclore? – perguntou o policial.

- O folclore nada mais é do que uma história real que foi fantasiada ao longo de tantos anos que se tornou uma mentira. Mas às vezes, a realidade é mais impressionante que o folclore.

- Mas de onde você veio? E por que parou para ajudar? Você é algum tipo de caçador de lobisomens? – o policial continuou o interrogatório.

- Não acredita em altruísmo? – Perguntou o forasteiro, com um sorriso irônico no rosto.

- O que não acredito é que este seja o caso. E afinal, de onde veio esse monstro?

Num movimento rápido, o forasteiro levantou sua espada e a encostou no pescoço do policial. Este levou um susto tão grande, que deixou sua arma cair.

- Nunca mais... O chame... Assim! – disse, ferozmente, o forasteiro.

Então ele abaixou a espada e seguiu seu caminho em um passo mais rápido que antes. O policial Daniel pegou sua arma e voltou a apontá-la para o homem carregando o lobisomem, mas seu rosto agora estava púrpuro de raiva.

- Pare se não eu atiro! Você está preso por porte ilegal de armas e desacato a autoridade!

O forasteiro não parou de andar.

- Eu vou atirar, está ouvindo?

Não houve reação. Então o policial mirou na perna do forasteiro e atirou, mas, para sua surpresa, o projétil não atingiu o alvo. Não que ele houvesse errado a mira. A bala simplesmente estagnara quando havia chegado há um metro do alvo. Ela ficou parada no ar por alguns segundos, então o forasteiro lhe lançou um olhar calmo e a bala caiu no chão.

Incapaz de entender o que estava acontecendo, o policial olhou para a bala caída no chão e gaguejou o único pensamento que lhe vinha à cabeça.

- É... É como... É como...

- Magia mesmo. – Completou o padre, novamente fazendo o sinal da cruz.