Licantropo - o Livro de évora
1 A Fera
I
A Fera
O sol ia se pondo na pequena cidade de São Cipriano enquanto os habitantes se arrumavam para a missa dominical. O ar úmido do lugar e a falta de nuvens no céu não os faziam deixar de esquecer que aquela seria uma noite de lua cheia, o que trazia medo aos habitantes devido aos recentes acontecimentos na cidade.
As pessoas prendiam a respiração enquanto saíam arrumados de casa, homens de camisas sociais e calças compridas, as mulheres com camisas comportadas e saias. As crianças mais jovens podiam usar bermuda, mas como o tempo estava frio, também trajavam calças, exceto pelos vestidos engomados das meninas.
O aglomerado de pessoas parecia uma procissão em processo de encerramento que ia em direção a igreja. Todos queriam andar próximos uns dos outros, e evitando o meio da rua, tentando andar pelas calçadas.
A igrejinha de São Cipriano ficava no centro da cidade, que não era muito grande, portanto, todos apreciavam a caminhada (menos naquele domingo). Poucos na cidade tinham carro, e aqueles que tinham só os usavam quando tinham que viajar por necessidade. Tradicionalmente, os ciprienses formavam um povo que não tinha costume de passear quando chegava o período de férias. Na verdade, eles gostavam tanto da calmaria da sua cidade, que não criavam sonhos de conhecer lugares distantes.
O medo presente entre os habitantes de São Cipriano era proveniente do fato de que eles costumavam levar muito a sério os ditos populares, principalmente histórias de ocultismo, lobisomens e o folclore brasileiro de maneira geral. Histórias que se intensificaram desde a passagem de uma criatura suspeita pela cidade.
Há exatamente um mês, quando os cidadãos ciprienses entravam em suas casas para acompanharem a novela, deixando os empregos e as prosas de lado, ouviu-se um uivo distante. Não era um uivo comum. Não podia ser. Foi frio, gélido e prolongado. Além do mais, não havia lobos naquelas redondezas e aquilo com certeza não fora um cachorro.
O povo, apesar de todos os costumes tradicionais, era muito curioso. Quando o uivo se repetiu, muitos foram até as portas de suas casas para dar uma espiada no lado de fora. As ruas pareciam desertas, mas em um instante, uma criatura passou correndo por entre as casas em uma velocidade anormal.
Nenhum animal que conheciam corria àquela velocidade. O animal passara mais rápido que um carro, ora essas! E não parecia ter sido invenção da mente de alguém, afinal, muitos foram os que viram a criatura passar.
Houve um grande bafafá na cidade nos dias que se seguiram e a história de um animal que passou correndo pela rua tornou-se a história do lobisomem e a história do lobisomem tornou-se a história da aparição de um demônio em São Cipriano.
Naquele domingo, a missa, sempre bem elaborada e rezada calmamente pelo padre Joaquim, pároco das redondezas, estava em um ritmo acelerado. Todos em silêncio, mas sem conseguir realmente prestar atenção no que estava acontecendo no altar. O próprio padre parecia um pouco nervoso e durante a homilia, aconselhou aos fiéis que, ao término da cerimônia, todos voltassem o mais depressa possível para suas casas e rezassem um terço a fim de afastar o mal da cidade. Mas a missa não havia nem chegado ao final quando aquele uivo gélido e estranho fora mais uma vez ouvido, vindo das ruas lá fora.
A Igreja de São Cipriano fora construída com arquitetura rústica, no formato de uma cruz com a cúpula alta para que quando o padre fizesse o sermão, sua voz ecoasse naturalmente por toda a igreja (que afinal, não era tão grande assim). A acústica fez o uivo do animal ressoar por todos os cantos e o arrepio foi geral entre os fiéis.
Todos olharam para trás e lá estava a criatura, parada à entrada principal da igreja. Em pé sobre as duas patas traseiras, apesar de ser muito curvada para frente. Não possuía nenhum tipo de rabo e os olhos mantinham a aparência humana. O corpo coberto por um pelo cinzento, as unhas das patas frontais pontudas como garras e os dentes, presas.
O silêncio durou apenas alguns segundos, quando o animal uivou mais uma vez.
A gritaria foi geral dentro da igreja. Pessoas apressadas para saírem pela porta lateral e outras correndo loucamente sem uma direção certa.
Então o animal atacou. A vítima mais próxima era um senhor já de idade que não conseguira correr por causa das pernas bambas de nervosismo e a artrose. Seus olhos arregalados refletiam a imagem da fera aproximando-se. A boca aberta em um grito surdo.
Mas quando a besta estava a pouco mais de um metro da sua presa, uma corda larga e grossa surgiu como que do ar e se enrolou por todo o corpo do animal. Este caiu de borco no chão, lutando para se soltar, mas incapaz de fazê-lo.
Algumas pessoas que tentavam desesperadamente pular sobre os banquinhos da igreja para fugir pararam para olhar, mas depois acharam que seria melhor aproveitar a chance para escapar do que se arriscar para descobrir o que, de fato, acabara de acontecer.
Por isso, cinco segundos depois, só quem continuava na igreja era o senhor que quase fora atacado e o padre. Juntou-se a eles então, um homem que atravessou o mesmo portal que a fera e prostrou-se ao lado dela.
O homem tinha cabelos negros arrepiados. Trajava uma camisa branca por baixo de um colete de couro. As calças jeans rasgadas à altura dos joelhos, e, nas mãos, nada menos que uma espada.
A espada era cumprida e tinha um punhal bonito, ornamentado com rubis. A lâmina era muito prateada e as luzes das velas ali se refletiam. Parecia a espada de um rei medieval.
- O que aconteceu? – disse o padre aproximando-se, mas sem deixar de notar o homem e sua espada. – Da onde veio essa corda?
- A corda é minha. – disse o estranho.
- É suficiente para segurá-lo? – voltou a perguntar o padre, observando a criatura se debater contra a corda que parecia ter se enrolado por todo o animal e se amarrado sozinha.
- Me dará tempo suficiente para levá-lo daqui antes que ele consiga se soltar.
Mas a pergunta que mais interessava, e que intrigava tanto ao padre que ele tinha medo de perguntar, foi feita pelo senhor, ainda parado diante da fera:
- Como fez para prendê-lo?
O forasteiro ficou em silêncio por um instante e olhou tão profundamente nos olhos do senhor que este se arrependeu de ter feito a pergunta. Então, ele respondeu, com um tom de voz calmo, porém misterioso:
- Com Magia.
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