Licantropia: A Reserva

2 Capitulo 1: Fora de Rota.


Notas iniciais
Espero que gostem!

Samantha encarava as marcas no solo marrom com uma curiosidade que assustava e fascinava Maon. Ele conhecia a garota desde que ela fora levada ao Quartel anos antes e desde então sabia do fascínio secreto que ela nutria pelos Filhos da Noite. Ninguém mais sabia daquilo, é claro; todos os simpatizantes dos Filhos morriam misteriosamente em suas camas e Sam não era idiota; entretanto, ela nunca fizera a patrulha antes.

Normalmente, a garota era usada como mensageira ou burro de carga. A função mais importante que já havia exercido em sua vida, fora acompanhar o Conselheiro Huellen até uma das reuniões privadas e mesmo assim, não lhe fora permitido a entrada na sala de reunião. Ser um dos patrulheiros não era o cargo de maior prestígio que os guardas podiam alcançar, mas no caso dos Impuros, como ela, era uma oportunidade de chamar atenção dos avaliadores.

Maon fora escolhido patrulheiro logo após sua graduação. Alto, forte e com um histórico de 25 lutas ganhas contra três perdidas, nenhum dos avaliadores pensara em outra posição para o grandalhão. O patrulheiro soube que sua posição estava seriamente em risco quando viu a pequena Samantha correndo em sua direção, animada e feliz.

–--Vamos logo, Sam. ---ele reclamou e ajeitou a arma sobre o ombro. ---Essas pegadas devem ser de qualquer bicho. O alarme teria identificado um Filho se ele tivesse passado por aqui.

–--Não. Olha, Maon. ---ela se agachou sobre as marcas. ---Eu reconheço essas pegadas. São humanas. Não se lembra das aulas? O alarme sempre falha. ---ela se virou, animada. Os cabelos loiros caíam em cascata sobre o uniforme cinzento da patrulha. ---Acho que devemos seguir.

–--O quê? ---ele ergueu as sobrancelhas grossas, assustado. ---Está louca? Nunca deixe o perímetro esqueceu? Vamos, logo. Ainda faltam dois quilômetros para mapear.

Maon gostava de Samantha. Ela era uma garota legal, esforçada e inteligente, mas nunca tivera chances. Ser uma Impura era quase tão ruim quanto ser um Filho da Noite na Reserva. Ela nunca seria nada mais do que uma simples mensageira, mesmo sendo uma das melhores, como era.

–--Por favor, Maon. ---ela sorriu. ---Nós dois sabemos que pode ser minha única chance na patrulha. Só uma diversão antes que eu tenha de voltar a carregar mensagens naquela droga de Reserva. Por favor, por favor, por favor...

–--Mas, não é uma pegada dos Filhos, Samantha. ---ele coçou a cabeça com o nervosismo. ---No máximo um patrulheiro qualquer.

–--Eu sei, mas eu uso a imaginação. ---ela juntou as mãos em súplica. ---E então? Fico te devendo uma.

–--Eu vou cobrar. ---ele suspirou e fez contato com a central. ---Voltamos em cinco minutos. ---os chiados emitidos confirmaram o pedido.

Sam foi na frente, com Maon observando as ruínas que surgiam ao redor. Perto das muralhas da Reserva, elas haviam sido demolidas e implodidas, restando apenas uma área asfaltada e deserta vigiada de cima pelos patrulheiros e câmeras de segurança.

As ruínas iniciais eram apenas paredes demolidas com tetos que ameaçavam cair, antigos esqueletos de prédios que haviam se incendiado, restos enferrujados de carros explodidos e vestígios da passagem humana desenfreada. As poucas árvores sobreviventes haviam crescido sem limites atravessando paredes com seus galhos e fincando raízes nodosas no chão rachado.

No terreno mais afastado, as casas se conservavam inteiras, mas vazia e saqueadas pelos bandos expurgados. Os prédios tinham pichações com marcas dos clãs antigos, janelas quebradas e sangue seco no chão. Os carros eram colocados de lado como trincheiras improvisadas. Maon viu marcas de garras na lataria dos automóveis.

–--Viu? Não tem nada aqui. ---ele respondeu. ---Vamos voltar antes que a central resolva nos punir.

–--Shiu! ---ela pôs um dos dedos sobre os lábios. ---Tem alguma coisa aqui. ---ela se encolheu atrás de um dos carros.

–--Pare de brincadeira, Sam. Não tem nada aqui. ---ele respondeu no momento em que o som de patas chegou aos seus ouvidos. Maon se agachou ao lado dela.

O puma surgiu minutos depois. O animal era esguio, musculoso e ágil. A pelagem negra e os olhos amarelos eram fascinantes para Samantha. Ela o encarava com seus olhos azuis, hipnotizada. O animal virou a cabeça à oeste e rugiu um aviso. Maon esperava que outros pumas surgissem, mas uma seta trespassou o pescoço do animal, rápido demais para que seus olhos pudessem acompanhar.

Sam se assustou, mas Maon tapou sua boca. Ele sabia o que a flecha significava e os Filhos surgiram minutos depois para confirmar seus medos. Eram três; dois homens e uma mulher. A mulher usava uma camiseta branca que terminava acima do umbigo e uma calça jeans suja e cheia de rasgos; os dois homens usavam calças igualmente rasgadas e sujas, com camisas surradas. Um deles, o que carregava o arco, usava um casaco cinza de um time de beisebol qualquer.

–-- É menor do que pensava. ---respondeu o homem sem casaco.

–--Aprenda a usar seus sentidos, Dragan. --- o arqueiro respondeu. ---É a primeira coisa que deve aprender. Ouvir é mais fácil do que ver, mas ainda assim, onde nós estamos, é a visão que garante a comida.

–--Pare de bancar o professor, Soren. ---a mulher respondeu e puxou a flecha do puma. Com um movimento simples e sem esforço, ergueu a carcaça do animal e o pôs sobre um dos ombros. ---Você não é tão importante quanto acha.

–--Cale a boca, Serena. ---ele respondeu, mas estava sorrindo. ---Sou eu que ensino os novatos. Agora vamos. Esse bicho idiota nos levou para muito longe do clã. A alcateia deve pensar que estamos mortos.

Os outros resmungaram concordâncias e sumiram na curva de um dos prédios. Maon retirou a mão da boca de Sam e lentamente, ambos de levantaram e se esgueiram para fora do carro velho. Sem emitir som, os dois se comunicaram com sinais de mão e começaram a retornar pelo caminho de origem. A flecha surgiu do alto e trespassou um dos braços de Maon que gritou de dor, deixando a arma cair. Samantha ergueu o pescoço e vislumbrou o vulto que saltos de um dos prédios.

Ele aterrissou com leveza e agilidade. Era o arqueiro que chamavam de Soren que os encarava sorridente e selvagem. Cabelos escuros, pele bronzeada e olhos de ouro como os do puma. Ele tinha uma segunda flecha apontada para o peito de Maon.

–--Vocês fedem. ---ele respondeu simplesmente.

Foi no minuto perdido para pronunciar essas palavras que Samantha se moveu. Maon nunca seria capaz de acreditar que alguém conseguisse se mover tão rápido. A garota ergueu a arma e lançou três tiros na direção do homem; em seguida empurrou o peito de Maon e mandou que ele corresse e avisasse a Reserva. Assustado e surpreso, ele obedeceu.

O arqueiro não parecia ter sido atingido e corria na direção da garota como um leão faminto. Ela não tinha chances. Maon atravessou paredes quebradas e pulou sobre andaimes fincados no chão antes de ser derrubado pelo outro garoto; Dragan. Ele parecia mais novo, com 15 ou 16 anos, mas os olhos brilhavam como uma fúria assassina. O garoto prendeu Maon sobre suas mãos e emitiu um rosnado semi-humano.

A luta não durou muito, e o patrulheiro ficou completamente imobilizado sob o corpo do menino. Ele era pesado demais para a idade e forte demais para um humano. Maon se lembrava de alguém ter lhe dito aquilo no treinamento que agora não servia para nada. Ele fechou os olhos e esperou que a criatura arrancasse sua garganta, mas o peso rapidamente cessou.

Samantha se lançara sobre o garoto e tentava de todas as formas, cortar o pescoço da criatura com a faca longa que todos os patrulheiros escondiam acopladas no braço. Embora o garoto fosse mais rápido e mais forte, tinha dezenas de cortes no rosto que sangrava em abundância. Ela gritou para que Maon chamasse ajuda e mais uma vez, ele obedeceu.

A última coisa que ele viu foi da mulher chamada Serena puxar os pés de Sam e arrasta-la para longe em direção as ruínas. Ela não gritou ou pediu ajuda, simplesmente o mandou continuar correndo. E novamente, Maon obedeceu.

Notas finais
O que acharam? Bom, ruim, médio? Qualquer sugestão é bem vinda!!