Licantropia: A Reserva
3 Capitulo 2: Através das Ruínas.
Notas iniciais
Samantha não foi morta naquele dia. Nem no seguinte e nem nos outros dois quando eles finalmente sumiram das ruínas e foram cercados pelas cidades abandonadas. Durante todo esse tempo, ela foi vendada e guiada pelos empurrões bruscos e fortes de Serena.
Ela não via as coisas à sua volta, mas sentia o chão abaixo de si, gradativamente, deixar de se tornar um terreno perigoso cheio de pedras e coisas quebradas que ameaçavam fazê-la tropeçar e quebrar o pescoço para transformar-se em uma área mais plana, asfaltada e que permitia- os andar em linha reta.
Foi apenas quando todo o grupo atravessou o limite entre as ruínas e a cidade que retiraram a venda de Sam. Seus olhos acostumados à escuridão levaram bons minutos para identificar a cena à sua volta. Os prédios se erguiam altos e conservados; as lojas estavam inteiras e não havia sinal de depredação em nenhum lugar; os carros estavam estacionados próximos ao meio fio e as ruas empoeiradas não estavam cobertas com lixo como as ruínas.
–--Essas são as... ---o golpe de Serena a calou no mesmo instante e fez Samantha morder a língua com força. O gosto de sangue invadiu sua boca, incômodo e amargo.
–--Sim. São as cidades do Êxodo. ---respondeu o garoto chamado Dragan.
–--Cale a boca, idiota. ---Serena reclamou. ---Ela não precisa de informações. Vamos, ande. ---ela empurrou Sam em direção a uma das lojas.
O arqueiro, chamado Soren, arrebentou a tranca das portas com um empurrão e mandou que os outros entrassem. Sam escutara cuidadosamente as conversas e concluíra que o líder do grupo era ele. Agora que podia observar seus rostos, Samantha sentia que sua morte estava próxima. Dragan, o recém-transformado lhe lançava olhares de fome enquanto Serena parecia prestes a arrancar sua garganta, mas Soren era o pior; seus olhos amarelos estavam cheios de ódio, raiva e fome. Era como encarar o leão mais faminto e raivoso do mundo.
–--Procure por água ou qualquer coisa que ainda seja comestível. ---ordenou Soren a Dragan. ---Use o olfato e seja rápido. Serena...veja se...
–--Já sei. Já sei. ---ela ergueu as mãos e torceu o nariz. ---Procurar por remédios ou roupas ou qualquer coisa útil. ---a mulher sumiu junto com Dragan nas sombras que cresciam à medida que a noite avançava.
Soren se sentou entre duas prateleiras e tirou o arco e aljava dos ombros. Nas sombras, os cabelos escuros e pele bronzeada se camuflavam e a única coisa que Sam conseguia distinguir era os dois olhos dourados e selvagens. O som de afiar chamou a atenção de Samantha que deixou sua imaginação vagar. Em sua cabeça ela via as mãos de Soren terminarem em garras afiadas que ele usava naquele instante para afiar as flechas. Instintivamente, ela se aproximou do arqueiro que lhe lançou um olhar de puro ódio e rugiu.
–--Se aproxime mais um milímetro que seja e eu rasgo sua garganta. ---ele respondeu. ---Com os dentes.
Samantha já havia aprendido a não falar, apenas obedecer. Ela se afastou alguns metros e recostou a cabeça em uma pilha bem organizada de pneus novos. Em cima deles havia uma placa escrita: desconto de 30%. Sam imaginou como deveria ser a vida antes da Guerra da Lua.
Nas aulas do Quartel, ela ouvira os historiadores explicando como tudo tinha acontecido e subitamente, suas memórias daqueles dias retornaram fortes e vívidas. Ela estava mais nova, menor e mais magra. Uma pequena aspirante a soldado que não prometia muita coisa. Ao seu lado estava Maon, sempre alto e forte e Jessie, uma garota que morrera anos atrás após ser mordida por um dos Filhos. O historiador gritava o mais alto que podia para que sua voz alcançasse o fim da sala.
–--O ano é 2015, não se tem registro de que mês exatamente. ---ele havia dito. --- O primeiro caso de licantropia foi detectado em Paris. Os resultados dos experimentos foram inconclusivos e mais casos foram encontrados em todos os lugares. Cidades grandes e pequenas. A Retaliação ocorreu três anos depois; monitoradas e catalogadas, algumas cidades foram abandonadas com cuidado e levadas até os centros principais de pesquisa, que mais tarde se tornariam as Reservas, para proteção. Entretanto, algumas outras não foram evacuadas no tempo certo e vocês podem ver o resultado se olharem para as ruínas depois das muralhas que nos protegem.
–--Encontrei três garrafas de água, uma de vodka e essa mochila. Sem comida; tudo o que encontrei mataria até um de nós. ---a voz de Dragan tirou a atenção de Sam.
–--Inútil. ---Serena lhe deu um tapa no alto da cabeça, mas surpreendentemente, estava sorrindo. ---Encontrei morfina, esterilizantes, agulha e linha. Não é muita coisa, na verdade, a maioria estava estragada, mas ainda assim... Gregory poderá dormir melhor quando chegarmos. ---ela jogou o conteúdo sobre o chão e com a outra mão retirou uma mochila dos ombros. --- Roupas novas, escovas de dente, pentes e tênis novos. Não tinha espaço na mochila, mas podemos pegar mais quando partirmos.
–--Está vendo, idiota. ---Soren saiu das sombras e analisou o conteúdo com cuidado. ---É assim que se faz. ---ele sorriu e se sentou próximo a lanterna que eles usavam como fonte de iluminação.
O ritual já era conhecido por Sam. Eles primeiro iriam comer a parte deles de carne desidratada e defumada de um bicho qualquer que eles haviam caçado, beberiam alguns goles de água e apenas depois quando o cheiro de comida estivesse causando extrema dor a Samantha, eles lhe dariam dois pedaços finos e gordurosos da carne que a manteriam bem por algumas horas e depois deixariam seu estômago doendo. Foi exatamente o que aconteceu, à exceção de Soren que bebeu metade da garrafa de vodka.
–--Me explique de novo porque não matamos essa coisinha. ---o arqueiro apontou para a garota. --- Ela não serve de nada.
–--Não seja um bêbado idiota. ---Serena murmurou quase inconsciente. ---Ela é da patrulha. Podemos descobrir sobre os carregamentos e as rotas. Já imaginou tudo o que podemos roubar? Remédio, comida, armas e roupas. Sabe há quantos anos não uso algo que esteja rasgado ou manchado? Podemos pegar os carros e seria muito mais fácil se locomover nessa merda de mundo.
–--E quem disse que ela irá nos dizer alguma coisa? ---Dragan perguntou.
–--Eu me encarrego disso. ---Soren respondeu com um sorriso bêbado. ---A menina vai abrir a boca quanto eu começar a arrancar seus dedos um de cada vez.
–--Você só está assim porque ela te derrubou nas ruínas. ---Serena respondeu e sorriu maliciosa. ---Uma garota desse tamanho... como pôde ser tão fraco, Soren?
–--Cale a boca. ---ele respondeu, os olhos cor de bronze brilhando com raiva. --- Eu não esperava que ela soubesse lutar.
Sam se encolheu em uma bola e pôs o rosto contra os joelhos. Ela estava sorrindo, mas não era idiota a ponta de mostrar aos seus captores. Tinha sido incrível. A adrenalina de lutar contra os Filhos, usar todas aquelas horas de treinamento e quando derrubara o arqueiro fora a melhor parte. Nem mesmo ela contava com aquilo.
Na manhã seguinte, foi Dragan quem a acordou com um chute leve, mas certeiro na sua perna que a fez mancar boa parte da viagem. Eles atravessaram as ruas desimpedidas da cidade abandonada. As casas estavam trancadas, assim como os prédios e lojas. As pichações que cobriam as paredes eram antigas e descascavam; não havia marcas de luta em nenhum lugar e os carros estavam todos em perfeito estado.
–--Por que não pegamos um dos carros? ---sugeriu Dragan.
–--E avisar um clã qualquer de que estamos aqui? Ser visto pelos Rasantes? Qual é o seu objetivo com isso? ---Serena resmungou e empurrou Sam para frente.
O resto da viagem foi feita em silêncio. A cidade abandonada terminou e a rodovia seguinte era um caos de carros, pertences perdidos, buracos de bomba e vestígios esqueléticos de coisas queimadas na explosão. As árvores ali não haviam crescido ainda e todo aquele terreno aberto deixou os captores tensos e alertas. Samantha os compreendia; os Rasantes da Reserva quase nunca iam tão longe, mas algumas vezes, acontecia. Entretanto, os clãs que guerreavam entre si, eram uma realidade comum, diziam os pesquisadores. Três Filhos da Lua carregando uma refém seria o prato perfeito para qualquer alcateia próxima.
A estrada terminou algumas horas depois dando lugar a outra ruína. As mesmas casas, prédios e lojas, depredados ou caindo aos pedaços. Carros como barricadas, marcas de guerra em todos os lugares. Eles pararam em uma rua mais elevada e a visão seguinte deixou Sam sem fôlego.
Um acampamento gigantesco se estendia por todos os lados. Dezenas de Filhos circulavam por todo o lado, carregando suprimentos, organizando as ruínas, gritando ordens uns para os outros.
–--Está pronta, menina? ---Soren rugiu na orelha de Sam. --- A diversão vai começar e pode ter certeza que eu vou agradecer por esse corte que você fez no meu rosto.
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