Libido
20 Capítulo 18
Notas iniciais
JAMES
Olhei para o relógio pendurado na parede, observando que já se passava das 1:00 AM. O barulho dos carros conseguia ultrapassar a barreira acústica do meu apartamento, e se misturava ao álbum do Pearl Jam que tocava ao fundo.
Minha cabeça girava desde o telefone de David. A curiosidade dele em saber aonde estava Regina havia me deixado intrigado, pois estava claramente embragado.
Primeiramente pensei que meu irmão estivesse querendo algo a mais com Regina, uma vez que ele esteve interessado nela antes de mim, mas essa possibilidade se esvaiu segundos depois, afinal D.A sempre foi um fraco e minha esposa esmagava os fracos, os atropelando caso estivessem em seu caminho.
Logo depois, veio a possibilidade dele querer começar algum tipo de briga por divergências criativas, afinal David sempre fora uma pessoa controlada, entretanto a bebida tem o poder de libertar nossos demônios mais profundos. Mas eu sabia que não era nada do que pensei.
Não
Realmente, minha teoria sobre o álcool trazer seus demônios era verdadeira. Os copos de vodca que tinha tomado minutos atrás estavam fazendo efeito, nublando minha mente, me deixando confuso.
Fechei os olhos brevemente, querendo espantar qualquer pensamento irracional da minha mente, entretanto tive que abri-los quando meu telefone vibrou firme em meu bolso. Era demasiado tarde, então certamente o assunto devia ser importante para se tratado naquele momento.
Entretanto quando finalmente tirei o mesmo do bolso, e olhei para o visor, estranhei por ver o nome de meu pai na tela. Atendi prontamente, ainda estranhando o horário.
"Alô" falei, e esperei um grande sermão ou alguma informação importante.
" James" seu tom saiu seco, da mesma forma que saia quando eu era pequeno e o ouvia em alguma reunião "Preciso que venha até meu apartamento"
Franzi o cenho, pelo estranhar da hora, principalmente porque sua frase saiu como uma ordem do que um pedido.
" Não posso" não estava com muita vontade de entrar numa negociação, principalmente quando minha mente teimava em projetar apenas imagens e deliberações sobre Regina, e consequentemente de meu irmão também.
"Precisamos conversar, sobre o casamento do seu irmão" insistiu.
Eu sabia que era um assunto importante, entretanto não queria tratar daquilo naquele momento. Meu casamento era mais importante que aquilo.
"Eu não posso"
"James, não lutamos tanto para que seu irmão consiga tudo que ele quer" argumentou novamente e minha cabeça começou a doer. Estava cansado desse assunto, por mais que fosse verdade.
"Eu não fiz nada" e assim que falei, pude ouvir ele quase sibilar no outro lado da linha.
"Sabe" começou "Você já leu Inferno, de Dante?" Foi uma pergunta retórica, e depois de alguns segundos, voltou a falar " No inferno, os lugares mais quentes são reservados aqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise moral"
Logo depois disso, desligou.
***
REGINA
As Mills não choram ou lamentam.
As Mills somente sentem o instinto de sobrevivência.
As Mills ferem e não são feridas.
E ali, sentada naquele ringue, não sabia se era uma Mills ou uma piada.
Eu queria gritar comigo mesma, mas não adiantaria nada. Então somente me levantei, agindo como uma marionete aonde os cordões estavam soltos mas ainda sim, meu mestre tinha domínio.
Senti meus músculos, minha respiração. Me senti estupida também.
Continuei andando, fui até o vestiário. Me despi, sob a meia-luz do ambiente, e fui até o chuveiro. Não me preocupei em assustar a temperatura, abri o chuveiro e deixei a água cair.
A água agia como um chicote, mas o sabote deslizava pelo meu corpo era como um pequeno alivio. Deixei o suor se esvair, e as lágrimas, por mais que insistissem, continuavam se acumulando no cantos dos meus olhos, se misturando com a água que caia do chuveiro.
Terminei o banho, peguei a toalha que estava no meu armário e me sequei.
Me arrumei, tentando parecer ao máximo com a Regina que entrou ali, mesmo me sentindo uma boneca de trapos. Peguei meu celular e uma mensagem chegou de repente.
"Encontre-me na Igreja"
O remetente era obvio, Daniel. Nenhuma das pessoas que me suportavam, entraria naquele ambiente.
Fechei os olhos e me preparei pra sair. Seria uma noite muito longa
***
RUTH
Eu olhei pela janela da biblioteca, que dava para de frente do jardim, percebendo os orvalhos que cobriam os jasmins, caírem no chão, enquanto o chá de maça com canela esfriava na mesa de mogno ao lado do meu exemplar de Morro dos Ventos Uivantes¹.
Minha vida havia sido reduzido a tomar medicamentos, beber chás, ver programas aleatórios na TV, apartar brigas familiares e me lamentar.
Me lamentar por não ter sido uma boa mãe, me lamentar por ter feito escolhas erradas que impactaram a vida dos meus filhos e principalmente me lamentar por ser impotente diante aos problemas e sofrimentos dos meus filhos.
Não sou mais que uma velha doente, solitária em uma casa enorme.
Lembrei de David e James correndo pela casa, gritando por vários motivos e principalmente, brigando.
Lembrei do raio de sol que iluminou um pouco a minha vida e se foi.
Entretanto uma batida na porta me tirou dos meus devaneios. Me senti incomodada, pois essas lembranças eram as coisas mais precisas que eu tinha, porém, ninguém me incomodaria tarde da noite, principalmente porque já tinha tomado toda a medicação, então era algo que precisava da minha atenção.
Pedi para que a pessoa se apresentasse, e atrás da porta se revelou meu mordomo, Sidney, trajado normalmente entretanto com uma expressão mais séria que o eu normal, taciturno.
"Senhora desculpe incomodar, mas seu filho está na sala de estar para vê-la"
"Qual dos meus filhos seria?" perguntei em vão, com uma ponta de esperança de ser James, para consertamos nosso relacionamento. "James?"
"Não senhora" claramente ele deve ter percebido o tom esperançoso e iludido em minha voz “E para que não tenha surpresas, Sr. David está embriagado e se recusa a receber qualquer cuidado. Queremos coloca-lo em seu antigo quarto, para que não tenha mais problemas ”
Balancei a cabeça, incrédula que teria que reviver todo o filme de terror. Eu senti meu coração na garganta, como se aquilo fosse sinal que uma tempestade perfeita² aconteceria.
Me levantei com dificuldade da cadeira em que estava sentada, caminhei, passando pelo meu mordomo que ainda segurava a porta. O caminho até a ampla sala de estar fora dificultoso, não apenas por meus problemas de locomoção mas também porque todo meu corpo estava mortificado.
Tudo, a situação toda me levava a sete anos atrás.
E eu não queria voltar para o Inferno.
Já podia sentir as chamas.
Meus olhos procuravam por todos os cantos, até mesmo os inóspitos da casa, algum sinal de que aquilo tudo fosse uma simples brincadeira da minha mente velha e cansada. Mas quando vi meu filho caçula, deitado no sofá, e empurrando os empregados que tentavam o ajudar. Vi que a realidade era quase pior que a anterior.
"David" O Chamei com o tom reprovador, mas o que eu queria mesmo era abraça-lo e falar que tudo ficaria bem.
Sua cabeça virou em minha direção. Seus olhos estavam pequenos e sua face rosada, além da sua pele brilhante de suor devido a bebida.
"Mãe" Ele respondeu com a voz arrastada, quase como se não quisesse falar.
"Por que você bebeu?" o questionei, ainda que sua mente estivesse nublada pelo efeito do álcool, bêbados sempre falavam a verdade.
"Regina" foi o único que saiu da sua boca, antes dele fechar os olhos.
"Brigou com ela?" Perguntei, ainda que seus olhos permanecessem fechados, eu sabia muito bem que não estava dormindo.
David soltou um ou outro resmungo e os funcionários ainda tentavam levantar seu corpo. Mais uma vez, ele afastou uma das empregadas e do outro lado da sala, ouvi um suspiro de reprovação.
"Deixem-o" pedi, cansada de ver essa cena, digna de comédias dramáticas.
Vi todos se afastarem, enquanto Sidney continuava ali. Parecia um corvo no cemitério, esperando todos saírem para anunciar a tragedia ou um urubu, esperando para comer sua presa derrotada. Não era algo comodo de se ver. Fiz um sinal para que saísse, mas me arrependi, uma vez que ainda teria que tirar meu filho do sofá.
"Sidney, vá chamar Astrid por favor"
"Devo pedir que venha com o de sempre?" perguntou com um tom de desdem .
"Não precisa, vá o mais rápido possível" Falei num tom de ordem, que poucas vezes utilizava, mas era meu filho que estava em jogo.
Sidney fez um sinal com a cabeça e logo depois o vi desaparecer, como uma sobra.
Entretanto, o que permanecia como uma sobra, era o motivo de Regina estar envolvida na bebedeira do meu filho.
***
REGINA
Peguei meu carro e dirigi sem problemas até a igreja. Parecia que Deus esquecia dos seus filhos na madrugada e cada esquina escura era um chamado para o pecado. Apenas uma luz brilhava e eu fui pra lá, ainda que sem vontade.
Estacionei muito sem vontade e pouco preocupada se levaria uma multa, perder um pouco de dinheiro era o menor dos meus problemas.
A igreja já estava fechada, mas havia uma pequena porta aberta. Não era a primeira vez que entrava ali tarde da noite, nem seria a última porém essa clandestinidade sempre me incomodou, muito mais do que o fato de entrar naquele ambiente.
Entrei na sacristia, olhando ao redor para ver se Daniel aparecia. Demorou poucos minutos, até ver meu ex futuro namorado ali com uma roupa de dormir.
"Padre parece que você é um enviado de Deus para me tentar ao pecado" falei, tentando sempre flertar com ele. Isso me fazia esquecer dos meus próprios problemas.
"Faço meu melhor" provocou de volta
"Por que me chamou aqui?" perguntei.
"Você não está bem, Regina" esclareceu
Sorri agora, impressionada em como ele me conhecia.
“Deus deve ter um ótimo pay per view"
O motivo seria David Nolan?" me questionou e eu virei o rosto, tentando esconder a expressão de dor e confusão que apareceu em meu rosto "Você gosta dele? O ama?"
Olhei finalmente para Daniel, revelando tudo o que eu queria esconder
“Eu não sei, não é amor, mas ele mexe comigo e eu simplesmente não sei o motivo. David Andrew Nolan está na minha cabeça e não sai. Eu traí o meu marido, estou traindo a mim mesma enquanto minto. Estou exausta”
“Que Deus tenta piedade da sua alma” Foi o único que disse, enquanto me encarava com uma expressão de pesar.
***
RUTH
“911?” perguntei tremula “`Preciso de uma ambulância. Meu filho sofreu um acidente, caiu do 4º andar”
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