Libido
19 Capítulo 17
Notas iniciais
Balancei a cabeça em descrença, piscando para ter certeza que aquilo era realmente verdade. Depois de observa-lo atenciosamente, percebi que seus movimentos estavam hesitantes e cambaleantes.
"O que quer aqui David?" Perguntei após cuspir o protetor.
Ele nada me disse, e então caminhou mais em minha direção. Quis soca-lo nesse momento por não responder nenhuma das minhas perguntas e logo depois essa vontade passou, sendo substituída pela vontade de me socar por no fundo estar gostando um pouco daquilo.
Meu cunhado continuou andando até mim, chegando às cordas do ringue e tendo que quase lutar com elas para poder passar. Coloquei uma expressão séria ainda que fosse uma cena cômica, não podia ceder.
Quando chegou a uma distância que eu podia sentir seu cheiro e ver seu rosto de maneira clara, pude perceber que seu aroma costumeiro de perfume e loção para barbear fora eclipsado por cerveja e suor e seus olhos estavam avermelhados.
Ele transparecia o que eu estava sentindo por dentro.
Não tinha sorrisos bêbados, risos sem motivo ou qualquer coisa do tipo. Seu rosto era uma máscara inelegível, apesar do maxilar trancado.
Poderia-me bater ou me foder e eu não poderia agora dizer o que eu desejava mais. Era um paradoxo infernal.
Nos encaramos, percebendo seu pomo-de-adão subir e descer conforme engoliu a seco, parecendo que iria falar algo entretanto se arrependeu no meio de caminho e as palavras ficaram presas ali. Esse era o momento que eu o chamaria de covarde por não agir, mas eu mesma estava ali estática, me acovardando e me escondendo na falta de coragem alheia.
Minha língua que sempre fora minha companheira de batalhas, havia me abandonado. Assim como minha sanidade.
"Dar um fim nisso" respondeu finalmente e a única coisa que pude fazer em resposta fora piscar. Eu sabia que era o correto e necessário porém mesmo assim a sensação de rejeição estava ali. Como quando era pequena e minha mãe dizia aos quatro ventos que eu nunca seria o que ela esperava e então eu me deitava em posição fetal na cama e tentava esquecer que existia um mundo fora daquela frágil segurança, com medo de ir enfrenta-la e ela acreditar que estava faltando com respeito com sua autoridade.
Mas David não era minha mãe, eu não devia qualquer respeito a ele ou para qualquer coisa que tínhamos. Então meu corpo reagiu
"Então vá" foi o que conseguir dizer, indicando com a mão para a porta de onde ele veio. Me virei, tirando as luvas das mãos e tirando meu rosto do seu campo de visão, a minha posição fetal quase trinta anos depois.
Fechei os olhos, e esperei pelo som de passos em direção à porta, mas não houve nada até que senti um puxão em meu braço e logo depois seus lábios nos meus.
Sua pele estava pegajosa no entanto não me importava com isso
Não me importava com nada
Porque aquilo era o que eu queria, e eu sempre fui uma vadia egoísta.
Uma vadia egoista que estava se perdendo nos lábios macios e amargos pela cerveja. Que perdeu os dedos no emaranhado dos fios finos de cabelo de sua nuca.
"Regina" suplicou num breve momento que parou para respirar. Era enlouquecedor, não só de desejo mas de dor. Parecia quase um lobo amuado, uivando de dor.
Fechei os olhos e pude sentir sua mão direita passear livre sobre minha cintura livre de qualquer tecido. Meu top, já suado por conta de todo o exercício, agora recebia gotículas pela excitação que eu transbordava.
Mas ainda havia algo na minha cabeça que me rondava. Eu era uma vadia egoísta, uma vadia egoísta como minha mãe. A mulher que eu jurei para mim mesma que não me tornaria.
Tomei um fôlego, não sei se por hesitação ou porque simplesmente a presença dele ali me tirava o ar assim como tirava minha sensatez. Deixei meu cérebro oxigenar, e num último suspiro são, consegui sussurrar um "saia".
David largou instantemente minha cintura, de forma cambaleante e se afastou, se virando. Vi seus ombros arquearem em derrota, em uma luta que ele dava como vitoriosa. Fechei meus olhos nesse momento e sentei no ringue, ouvindo seus passos cada vez mais distantes.
A vontade de chorar me invadiu, mas eu engoli.
As Mills não choram ou lamentam.
***
"Filha da puta" foi o que eu gritei quando saí daquela academia.
Eu estava com raiva, furioso, frustrado, entristecido e completamente apaixonado por aquela mulher. Aquela maldita que esperei que risse da minha cara após o não, mas que como sempre me surpreendeu, se jogando no chão.
Por que ela estava sentindo o mesmo que eu, mas diferentemente de mim, negava até a morte.
Porém meu orgulho rondeava minha mente, gritando que eu deveria faze-la sofrer. Mas ferir o diabo era uma tarefa difícil, principalmente quando se parece com um anjo.
Peguei meu celular, e liguei para um táxi, eu precisava dormir ainda que, o que eu quisesse realmente era passar a noite dentro dela.
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