Libertação
2 Capítulo 2
Nevava fortemente por fora das paredes de Hogwarts. O grande salão estava decorado com artefatos natalícios e a gigantesca e típica árvore estava montada no centro, por trás da mesa dos professores. Flocos de neve encantados caiam pelo teto, mas ao contrário dos que no exterior, esses ao menos não eram frios e acabavam por desaparecer antes de chegar às mesas e molhar a comida.
Bella sentou-se na ponta da mesa da sonserina e começou a jantar, sem prestar a mínima atenção aos restantes colegas de casa que conversavam sobre os seus planos de viagem para aqueles semanas vagas. Ela estava mais preocupada com o fato de em três dias ir ser sentenciada ao exílio. Em três dias ela selaria noivado com o herdeiro Lestrange e a sua vida iria pelo ralo. Qualquer plano ou vontade que ela tivesse para o futuro não seriam os mesmos. Mas era a obrigação para com a sua família e ela não tinha qualquer voto na matéria. Nunca teve. Por mais que ela tivesse argumentado com os seus pais via carta, com esperança de adiar o noivado, pelo menos até ela acabar as escola, os seus esforços foram em vão.
O seu apetite não era muito e acabou por deixar quase toda a comida no prato. Ela ficou sentada alguns minutos apenas a encarar a comida praticamente intocada. Bellatrix levantou-se e saiu do grande salão. Os corredores de Hogwarts também ficavam decorados para aquela data. Até os fantasmas adoravam aquela data. Já Bellatrix Black tinha começado a odiar ainda mais o natal. A sua cabeça não parava de pensar no maldito jantar. Ela deixaria de pertencer a si mesma e passaria a pertencer ao seu noivo. Bella odiava ser tratada como mercadoria. Isso não a fazia muito diferente de um elfo doméstico. A sua distração rendeu-lhe um forte encontrão contra alguém. E esse alguém tinha logo de ser Sirius Black. Definitivamente a sorte não estava a ser favor.
— O que foi agora, Sirius!? — exaltou-se Bellatrix afastando-se do primo tirando os seus braços, que ela nem se tinha apercebido que estavam repousando sobre a sua cintura, de perto de si.
— Nós precisamos falar Bella. Agora — disse, sério.
Bella franziu a testa. Eram raros os momentos em que Sirius era sério com algo. Sem esperar qualquer resposta da prima, o grifinório começou a andar pelos corredores de Hogwarts, sabendo que ela o seguiria de qualquer forma. Quando Bella deu por si, estavam já no exterior, com os sapatos a afundar na neve. Bella apertou mais a capa do uniforme contar si para tentar estancar algum do vento que uivava fortemente e soprava as folhas das árvores contra a sua cara. Estavam ao pé do salgueiro lutador e Bella parou de imediato, enquanto que Sirius continuou a andar de encontrar a árvore matadora.
— Sirius! Estás maluco!? — exaltou-se, mas mesmo assim tentou controlar a voz para que ninguém a ouvisse. Naquela noite, vários casais aproveitavam para se despedir antes de irem de férias e Bella não queria arriscar ser vista com Sirius, ao pé do lago.
Ele não respondeu, apenas começou uma dança estranha entre as raízes em movimento. Bella não conseguiu conter um singelo sorriso quando o viu a se deitar em cima de uma raiz e a começar a apalpa-la. De súbito, os galhos pararam de se mover e a árvore ficou como uma estátua. Sirius saiu de cima da madeira, apenas com o uniforme um pouco amarrotado e o cabelo cheio de folhas. Ele andou até um buraco na base do tronco e olhou para ela antes de escorregar para dentro da terra. Bella suspirou e seguiu o mesmo caminho, com receio da árvore voltar a si e tentar lhe arrancar a cabeça.
Bella agarrou a sua saia durante o percurso escorregadio. O cheiro a terra molhada não era algo que ela gostasse lá muito e gostava ainda menos de quando as partículas castanhas começavam a grudar na sua cara e nos cabelos negros cacheados. Ela sentiu um impulso para a frente e acabou por cair no chão, só que de cimento desta vez. Ela levantou-se com um grunhido e tentou espantar a sujidade do uniforme. Sirius estava ,mais á frente, também a se limpar. Quando levantou a cabeça e viu o estado de Bella não conseguiu conter a gargalhada. Chatada, Bellatrix esqueceu a limpeza e avançou sobre o primo, desferindo-lhe um tapa na cara. Os risos cessaram e Sirius voltou a ficar sério.
— Não era preciso tanto, Bella — disse antes de seguir por entre os degraus escuros do túnel.
Bella seguiu-o. Os degraus do túnel também eram feitos de cimento mas as paredes e o teto eram terra, visto que estavam debaixo do solo. Ela estava a começar a ter uma ideia de para onde se dirigiam quando notou o tempo que estavam a demorar a chegar. Quando chegaram ao final das escadas, Sirius tirou a varinha das vestes e apontou para uma pequena portinhola no teto.
— Alohomora — proferiu o feitiço para destrancar a fechadura.
Sirius empurrou a madeira para cima e, usando a força dos seus braços, deu um salto e entrou. Bella recusou a ajuda do primo e subiu sozinha até dar de caras com um chão de madeira mais poeirento do que os livros antigos da sua avó. Tossiu e levantou-se. O seu palpite confirmou-se quando ela reconheceu a mobília podre da Cabana dos Gritos, onde tinha estado quando fora o último passeio a Hogsmeade.
— Sirius, porque raios é que estamos da Cabana dos Gritos? Se alguém der pela nossa falta nós vamos estar metidos em inúmeros problemas e ainda teremos de ficar em Hogwarts durante as ferias, já para não falar qu…
Bella foi interrompida do seu discurso por um beijo inesperado de Sirius. A princípio, ela tentou recusar mas, mal sentiu a língua quente dele a roçar contra a sua em perfeita sinfonia, relaxou e deixou-se levar pelo momento. Sirius conhecia-a bem. Muito bem. Sabia quais eram os movimentos favoritos da prima e ela também conhecia os dele. Uma das mãos quentes dele subiu pela perna direita de Bella, elevando-a para mais perto de si enquanto que a outra apoiava as costas dela, prevenindo-a de cair no chão. Eles subiram de nível e os beijos passaram a algo mais intenso. Sirius largou a perna de Bella e tirou-lhe a capa. Antes que prosseguiu-se para as próximas peças de roupa, um sinal soou a sua mente e ele afastou-se para tocar no ponto principal daquela ida até ali.
— Bella, por mais que eu queria continuar isto, nós precisamos de falar primeiro.
— Sobre? — questionou com uma sobrancelha arqueada e respiração ofegante pelos beijos profundos que tinha trocado com ele.
— Bella… eu estou farto disto. Estou farto de me esconder e de mascarar o que sinto por ti. Por muito tempo eu tive duvidas mas, agora sei que te amo. Eu não me importo do que a nossa família vai pensar. Eu quero estar contigo — falou em um tom baixo, quase suplicante e desesperado.
Aquelas palavras taparam os ouvidos de Bellatrix: “te amo” e “quero estar contigo”. Era a primeira vez que ela o via se expressar daquela maneira. A confessar os seus sentimentos por ela.
— Eu tambem te amo e quer estar contigo — viu-se a dizer.
Um sorriso surgiu na face de Sirius e ele aproximou-se mais dela, mas foi barrado pelas mãos da prima no seu peito, proibindo-o de avançar mais.
— O que foi, Bella?
— É complicado Sirius! Os Black são uma família extremamente tradicional. Eles não vão aceitar que nós fiquemos juntos. O meu pai está a amar a ideia de se aliar com os Lestrange e Narcissa então já quer marcar uma hora com a Madame Malkin para discutir sobre o vestido!
— Nós somos humanos, Bella! Família tradicional ou não tu tens o direito de escolher o que queres para o teu futuro. Pensa, tu queres mesmo passar o resto da tua vida acorrentada a um homem que não amas? Nós podemos ser felizes sem nenhuma dessas pessoas.
— Tu tens razão, Sirius, mas eu… — as suas palavras ficaram no ar e minutos se passaram. Apenas ao som do vento exterior e das tábuas de madeira a rangerem.
— Tu o quê, Bella!? — foi a vez de Sirius se exaltar.
Ela não respondeu. A sua cabeça estava enevoada por tudo o que tinha sido dito naquela noite. Apressada, correu até a portinhola e saiu de dentro do túnel o mais rápido que pode para o exterior, fazendo o mesmo caminho de ida só que invertido. O salgueiro continuava imóvel e ela aproveitou para correr dali o mais rápido que as suas pernas esguias conseguiam. Com cautela para não ser vista ou ouvida, Bellatrix dirigiu-se até ao salão comunal da sonserina, que por sua vez já estava vazio. Excepto por um casal que se despedia, sentados em frente a lareira. A cena dos dois apaixonados corroeu os olhos de Bella e as suas decisões embaralham.
Correu para o dormitório e deu graças a Merlin de as suas colegas já estarem em um sono profundo. Entrou no banheiro e tirou o uniforme com violencia. Foi aí que se lembrou que tinha se esquecido da capa na Cabana.
— Merda! — praguejou baixo antes de se enfiar na banheira de água, que tinha deixado a encher antes de tirar as roupas.
Os seus músculos continuaram tensos. Ela encostou a sua cabeça no azulejo e repensou na sua vida. Sua vida. Aquelas sete letras nunca faziam sentido perto dos seus pais. Mas faziam perto de Sirius. Ela queria o mesmo que ele. Queria desesperadamente. Já tinha conseguido confessar o que sentia pelo primo. E isso era um grande feito que ia contra o seu orgulho. Mas era verdade. A mais pura verdade. Naquela banheira, ela pensou no noivado com Lestrange; na força maligna que tinha começado a dar os seus primeiros passos de vida e comparou tudo numa lista mental. A SUA vida tinha ganho no final.
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