Leão do Inverno

21 Livro Um — Capítulo XX


Notas iniciais
Babi: Hola. Não sei muito bem o que falar, porque esse capítulo me deixou emocionalmente instável, então... Espero que apreciem a leitura, já que chegamos ao final do primeiro ciclo da fic, e eu jamais poderia esperar uma resposta tão positiva quanto a que vocês estão nos dando. Muito obrigada por absolutamente tudo, e, ai, seus lindos, me beijem. Capítulo dedicado por mim à Elisa, que não vai ler isso, certamente. Mas ela ama Pearl Jam, e eu a amo, então, acho justo. E, eu não me lembro se já agradeci, mas MaliciousTongue, muitíssimo obrigada pela recomendação descomunal que você nos enviou. Magnífico. Perfeito. Suas palavras realmente me partiram em dezenas de pedacinhos. Boa leitura. ---------------------------------------------------------------- "E pensamentos confusos giram ao redor de minha cabeça. Estou girando, oh, estou girando. Quão rápido o sol pode se pôr? E agora minhas amargas mãos embalam vidros quebrados. Do que tudo isso era feito? Todas fotos, foram banhadas em preto, tatuando tudo. Todo o amor tornou-se mal, transformou meu mundo em escuridão, tatuando tudo que vejo, que sou, tudo que sempre serei." — PEARL JAM, Black.



ANABELLE

A noite estava gelada, mas Anabelle Parker sempre adorara noites geladas, principalmente quando havia alguém agradável para lhe fazer companhia, e ela simplesmente não podia ver a presença de Emma Thorne de outra forma.

Na noite em que se conheceram, depois do convite para tomar um café, a presunção da policial transformara-se em gentileza. Belle nunca conhecera alguém tão educado.

Conversaram muito e já era madrugada quando a oficial conseguiu despedir-se definitivamente. Mas não antes de convencer Anabelle a outro café.

A ferida que Alexandra lhe deixara ainda era um buraco ardente e levemente inflamado, mas Emma conseguia ser um curativo adorável.

Obviamente esta comparação a fazia sentir-se a pior das pessoas, mas ao lado daquela mulher tão controversa – dura e ao mesmo tempo tão suave –, a dor que Lexi lhe causara conseguia ser gradativamente atenuada até a quase inexistência.

Doutora Parker tinha a plena consciência de que jamais a esqueceria. Ela estava em toda a parte, e mesmo dois meses depois da dolorosa quebra definitiva de sua relação, noites frias ou chuvosas traziam a lembrança nítida da garota que amara enlouquecidamente.

Mas enquanto Alexandra alimentara a chama que a incendiara o corpo e a alma, Emma Thorne conseguia ser a fonte de frio que ela precisava para conter todas as labaredas de que era constituída.

O fogo consome, mas o frio preserva.

E agora, esperando o sinal abrir, olhando para Emma e seu café, sob a luz de um poste qualquer, parada sob a leve geada daquela noite, Anabelle entendeu que o frio nunca a incomodara, de qualquer forma.

— O que tanto olha? – A policial sorriu, corando.

— Tem gelo no seu cabelo – Belle riu, tirando as luvas. – Venha cá, deixe-me concertar isso.

Emma se aproximou. Era quase dez centímetros maior que Anabelle. Ela sempre ficava desconcertada com a proximidade, e Parker percebeu o modo como o corpo esguio enrijeceu quando seus dedos se embrenharam nos cabelos claros.

A médica aproximou seus lábios de forma sutil e, surpresa, Thorne arregalou os olhos.

Belle a beijou. Sutilmente, delicadamente, sentindo a outra loira relaxar aos poucos e envolvê-la pela cintura, nitidamente tímida, mas estava claro que ela esperara por este momento desde aquela noite chuvosa em que batera no vidro da psicóloga, chamando-a de “madame” – o que até o atual momento continuava fazendo.

Elas poderiam ter ficado ali a noite toda, apenas explorando a boca uma da outra, conhecendo a textura da língua e o sabor da saliva, se perdendo em uma conexão que, admitindo ou não, ambas estavam loucas para experimentar. Mas uma Van enlouquecida dobrou a esquina e subiu na calçada, e só graças aos reflexos de Emma, as duas loiras foram capazes de se afastar para a parede a tempo.

Ofegantes e confusas, elas olharam para o rastro de vapor deixado pelo veículo e quando Thorne levou a mão ao rádio que sempre carregava, Belle a impediu.

— Hoje é seu dia de folga.

— Mas-

— Shh. Não diga nada – Anabelle Parker apanhou o rádio e o manteve longe das mãos da policial, enquanto voltava a esticar-se para beijá-la.

ETHAN

Maldita. Desgraçada.

Ethan Winter socou o volante violentamente, dirigindo sob uma leve geada de volta para casa.

Na verdade ele era o estúpido, só não conseguia admitir, porque era o que sempre fazia: jogava a culpa de seus erros para os outros.

Ele perdera sua ligação com Alexandra, que sempre fora a mais próxima de seus três filhos, porque ela era rebelde e se tornara incontrolável.

Ele falira a empresa porque seu sócio era um homem idiota, com valores demais, e fora fraco para ceder sob pressão e denunciar o esquema de cartel com o Ministério do Desenvolvimento e Tecnologia em que Ethan envolvera o escritório de arquitetura.

Ele traía Katherine porque ela era fria e enervante.

E Victoria estava grávida porque ela era burra.

Seu celular tocou. Mesmo dirigindo, ele atendeu.

— Ethan Jaime Winter, por favor – uma voz quase robótica de mulher soou.

— Falando.

— Boa noite, senhor Winter. Somos do St. Joseph's Health Care e estamos entrando em contato por conta da senhorita Victoria Patrick Wall.

As pernas dele começaram a tremer e seus dedos se fecharam com mais força no volante.

— Sim? – Ethan instigou a mulher a continuar.

— A senhorita Wall sofreu um acidente de carro há alguns momentos e foi trazida para nossa unidade emergencial e em seus pertences os bombeiros encontraram o seu número. Poderia vir até aqui como responsável?

Uma vertigem forte tornou guiar o carro uma tarefa quase impossível. Seu estômago afundou e a respiração ficou presa na garganta.

— Poderia me dar mais informações?

— Não, senhor. É tudo o que temos a disposição no momento.

— Certo. Estou a caminho.

Ethan suava intensamente quando chegou à emergência. Quase não era capaz de andar e as cores pareciam fortes demais.

Ele estaria sendo cruel demais se desejasse que ela morresse? Seria tão simples, tão fácil. Talvez aquela fosse a bifurcação em sua estrada da vida. Um manifesto de Deus, do Diabo, do Universo, algo que fosse colocá-lo no caminho certo, algum socorro etéreo.

Victoria estava em uma maca, escondida por uma cortina, com médicos a sua volta, bombeando, suturando, perfurando e medicando.

— É o responsável por ela? – A Enfermeira disse, olhando-o enquanto mexia na bolsa de sangue conectada ao braço direito da garota.

— Acho que sim.

— Ainda não sabemos das chances dela. Houve complicações e ela será preparada para o centro cirúrgico, mas precisam autorizar, acompanhe-me, por favor.

— O carro em que ela bateu...

— Destruído. Parece que sua amiga estava a mais de cento e trinta quilômetros por hora. As vítimas dela, dois jovens, estão sendo trazidas para cá; deram trabalho, ficaram presos nas ferragens.

— Acha que vão sobreviver? – Ethan estava a ponto de desmaiar.

— Pelo que o pessoal do 999 está dizendo, só por um milagre. Foi uma coisa muito feia.

Maldita. Desgraçada.

SAMANTHA

Samantha Winter não sabia ao certo o que acontecera. Em um momento o telefone pendia vacilante em sua mão. No outro, só escutava o barulho de seu próprio corpo chocando-se contra o chão enquanto a porta abria-se violentamente. Lembrava-se de Katherine gritando, mas não ouvia o que a mãe dizia.

Como entrara no carro ou de que modo ainda se lembrava de como dirigir eram perguntas que jamais saberia responder, mas tinha certeza de que ultrapassara há muito o limite de velocidade.

Sam costurava e ultrapassava todos os carros que estivessem em seu caminho; ouvia buzinas, xingamentos e barulhos de pneu, mas tudo era ignorado, até os sinais vermelhos.

O nó em sua garganta era tão grande que lhe sufocava. Ela mordia os lábios nervosamente e não se importava com o gosto se sangue. Nada importava agora.

As lágrimas não escorriam. Recusava-se a chorar imaginando o pior. Não iria permitir-se fazer isso. Os olhos marejados, no entanto, embaçavam muito sua visão, mas era algo que não lhe permitiu ver que um ciclista cruzava a rua naquele momento.

Winter freou o carro bruscamente e, como estava sem cinto, acertou a cabeça no volante. Ficou atordoada por um momento e sentiu o liquido quente escorrer por sua testa.

Não, disse a si mesma, apressada. Não posso perder tempo com isso.

Checou rapidamente pelo para-brisa se o homem estava bem e, sem nem ao menos descer do veículo, voltou a sua corrida desenfreada.

Não levou muito tempo para chegar ao seu destino.

Estacionou o carro da melhor forma que pôde e correu em direção ao grande hospital público que ficava no centro de Londres.

Assim que a porta automática se abriu, ela correu desesperadamente para dentro. Havia macas espalhadas pelo saguão e médicos atendendo ali mesmo. Como era de se esperar de um hospital público emergencial, mendigos e indigentes eram a maioria, e todos pareciam apressados demais para prestar atenção na garota que adentrara o local de forma tão abrupta.

Por três vezes tentou parar algum médico-residente ou enfermeira, mas foi ignorada antes mesmo que pudesse perguntar qualquer coisa. Mas na quarta tentativa, dessa vez quase escalando o balcão da recepção, pareceram finalmente enxergá-la.

— Emergência- Chegar lá- E-eu-

— Primeiro andar, elevador à direita.

Ela vai estar bem. Ela precisa estar bem.

“Acho que a perda está relacionada ao amor”.

Os socos que Samantha dava no botão que sinalizava o primeiro andar poderiam ser considerados como vandalismo. Suas pernas estavam tão moles que era difícil se manter de pé. Recostou-se no espelho embaçado a suas costas, observando as luzes fluorescentes oscilarem a sua volta.

As portas se abriram. Sua cabeça zumbia, como se um enxame de abelhas se tivesse ali instalado e agora ferroavam seu cérebro enquanto voavam de um lado para o outro.

“Para importar-se com a ausência de algo ou alguém você precisa se afeiçoar a tal coisa.”

Mais macas. Um cheiro inconfundível de sangue. Uma família sentada, estática, talvez partilhando um choque comunitário. Médicos correndo de um lado para o outro.

— Dr. Hunter, SC 2. Stat.

— Dra. Taft, quarto 198.

— Dra. Summers, SC 3. Stat.

“A perda para a morte é a pior de todas”.

Um pequeno balcão de informações estava a sua frente. Ela se aproximou rápido, ofegante.

— Onde é a emergência? — Samantha perguntou, trêmula, sem conseguir respirar. — Onde é a porra da emergência?!

— Senhorita-

— Só diga-me!

— Acalme-se-

— Onde é? Onde é?!

Mas não havia tempo! Simplesmente não havia tempo e ela apenas se jogou para dentro daquele emaranhado de corredores, portas e cortinas, com pessoas apressadas e feridas, sentadas, espalhadas, chorando.

Policiais tentando acalmar famílias, estranhos sendo suturados no meio do caminho.

“E para quem fica e encara a vida, é assustador.”

Ela tropeçou numa cadeira-de-rodas vazia, deixada num canto. Cambaleou para dentro de um cubículo com iluminação forte, com médicos e oficiais de polícia, além de pessoas uniformizadas com os macacões do 999.

E ela.

“Você enfrenta sua própria mortalidade ao ver alguém que ama morrer.”

Samantha Winter soube, naquele exato momento, que aquela imagem ficaria gravada em sua mente até seu último dia.

Teve vontade de vomitar, gritar, chorar e desmaiar ao mesmo tempo. Suas pernas não estavam respondendo mais, nem seu cérebro conseguia raciocinar, mas seus olhos se recusavam a desviar daquela imagem horrenda.

Mandíbula torta, coberta por uma máscara onde alguém bombeava um pouco de ar. Metade do rosto amassado, cacos de vidro do tamanho de gomas-de-mascar enterrados profundamente na pele. O braço estivera pendurado para fora da cama por poucos momentos, fora reposicionado por um dos médicos, mas balançava como se não houvesse ossos enquanto alguém tentava fazer massagem cardíaca em seu peito nu.

Havia tanto sangue...

A pele antes muito clara de Alexandra fora tingida por várias tonalidades de vermelho e onde o inchaço se fazia presente, estava arroxeada. Cortes imensos, assombrosos, minando um líquido carmim e semi-coagulado.

Samantha avançou para ela.

“Mas você não tem descanso porque ainda vive,”

— O que aconteceu com ela?!

Mas ninguém respondeu. Guardas a puxaram antes que alcançasse o corpo mutilado e desfigurado. Gritavam para que Sam se afastasse, mas como ela poderia?!

— O que- O que aconteceu com ela?!

Estavam tentando empurrá-la para fora, mas a pianista se debatia com força. Sua cabeça parecia cheia de morfina; era com se tivessem lhe afogado e estivesse assistindo a tudo aquilo de baixo d’água.

Tiraram a máscara de ar e ligaram o desfibrilador. Os médicos gritavam uns com os outros, os policiais gritavam com Samantha e Samantha gritava para os médicos.

“e dali em diante tudo será cheio da ausência daquele que partiu.”

A máquina aderiu ao peito de Alex e os médios puxaram. O corpo arqueou e voltou a cair contra a maca.

— Alex! – Sam gritou, agora cravando as unhas nos guardas que começavam a vencê-la, carregando-a para fora.

O corpo arqueou e caiu.

— Mais uma vez!

— Alex!

— Prepara!

— Alexandra!

— Afasta!

Arqueou e caiu.

O rosto desfigurado tombou para o lado e a enfermeira auxiliar afastou uma pálpebra, só para encontrar um glóbulo ocular quase sem sinal de uma íris.

“Será um pequeno e particular pesadelo, onde você grita, mas simplesmente não consegue alcançar aquilo que ama e o deixa escapar por entre os dedos.”

— Horário da morte...

As portas se fecharam e Sam sentiu seu corpo ser arrastado para fora. Ainda conseguia sentir o cheiro da carne fritando sob a frequência do desfibrilador.

Sangue. Havia tanto sangue.

E ela gritara “adeus”.

“Para você que vive, só resta a dor, e o vazio, e o desespero, e o desejo inútil de que tudo pudesse ser diferente.”

As pessoas falavam com ela, mas Samantha era incapaz de enxergar ou ouvir o que eles diziam. Estava tudo escuro e seu corpo escorregava de algo que se parecia com um acento.

“Mas não é.”

Não sentia mais nada. Seu coração era o único som audível agora. E sua própria voz dizendo “adeus”, pedindo que ela desaparecesse.

Alex estava morta.

“Nunca é.”

ABRIU OS OLHOS lentamente. As luzes eram muito claras e ela mal podia enxergar. Sentiu braços a sua volta e um odor muito forte invadindo suas vias respiratórias.

Bateu com a mão em algo, tentando afastar aquele cheiro e, com a cabeça tonta, reconheceu rostos que voltavam a tomar foco.

Thomas, com os braços a sua volta, e seu avô, segurando um algodão com éter.

— Alex! – Ela tentou levantar-se, mas suas pernas estavam tão fracas que não conseguiu.

Deveria ser um sonho, certo? Um maldito pesadelo. Mas ao levantar o rosto e se deparar com um Thomas de rosto inchado e cheio de pontos, braço enfaixado e preso a uma haste com soro, ela soube que não era.

— Onde ela está? – Sam choramingou, sentindo os soluços obstruírem sua garganta. – Onde-

— Acalme-se, querida – sua avó apareceu em seu campo de visão e passou um braço sobre seu ombro. – Você-

— Eu quero saber onde ela está! – Samantha gritou, empurrando a mão nodosa da velha para o lado, arrancando um gemido de Thomas e levantando-se.

— Levaram-na para o IML – Tom disse, sem olhá-la. – Vão fazer a autópsia para poder liberar o corpo. Mamãe está preenchendo os papéis.

E o vômito irrompeu por sua garganta antes do grito. Ela chorava ao mesmo tempo em que jatos falhos de líquido azedo jorravam por entre seus lábios e manchavam sua roupa, juntamente com o chão.

Seu avô a amparou, mas seus joelhos cederam ainda assim. Não conseguia respirar. Não enxergava nada e seus ouvidos zumbiam de novo.

Assim que o fluxo parou, ela estava gritando. Muito alto. Estava arranhando a si própria e a seu irmão, que tentava contê-la. Enfermeiras e seguranças se aproximavam, sua avó chorava, e alguém a espetou com uma agulha.

Quase instantaneamente seu corpo relaxou e os gritos morreram.

Tudo o que viu depois disso foi as cores desvanecendo.

— LEMBRA-SE DO ASLAN, de As Crônicas de Nárnia? – Alex era uma garotinha fofa, baixinha e com olhos extremamente grades. – Há leão como ele no nosso mundo; chama-se Kitty. Ele não é assustador; é apenas bondoso. E Kitty costuma presentear as crianças que realmente acreditam nele.

Eu acredito. Eu acredito. Eu acredito.

Samantha olhava o lado de fora da janela. Chovia forte.

Alex adorava chuva.

Havia biscoito e chá na mesa ao lado, mas apenas o cheiro daquilo a enojava. Ela sentia que jamais seria capaz de voltar a comer. E morreria de inanição. Algo bem agradável. Qualquer morte era agradável, olhando agora, na verdade.

Thomas fazia carinho em sua mão. Os dedos dele estavam quentes e inchados, pois ficaram presos entre duas placas de metal, e as unhas estavam cheias de sangue coagulado.

Sammy estava vestida com as roupas dela. O cheiro dela estava por toda a parte. Ela sempre estaria ali. Em qualquer lugar que olhasse. Dentro da própria Samantha, caso ela encarasse o espelho.

Kitty. Eu acredito. Por favor. Por favor, por favor.

— Sammy, meu amor, coma-

— Mamãe, não. Quando ela quiser certamente vai comer – Thomas dispensou Katherine pela sétima vez.

— Mas- Ela precisa- Eu não- – e a decoradora começara a chorar. Todos estavam chorando. – Eu não consigo. Seu pai não reage. Ela parece mais morta que Alexandra. Eu não consigo!

E saiu correndo, soluçando, amaldiçoando o destino. E Sam não tirou os olhos da janela.

Estava doendo tanto. Ela nunca imaginou algo assim. A vontade de enfiar uma bala na própria cabeça, ou de se jogar de uma janela era tão intensa. Abraçar o nada, voar por poucos segundos e se esquecer do caos, da tragédia, do... Do nada que a consumia.

Era como se algo comprimisse seu peito. Chorar não era mais o suficiente. Suas unhas se enterravam na pele e puxavam, arrancando lascas até a epiderme, deixando o sangue escorrer. Ela precisava sentir outra dor. Ela precisava sentir algo além daquilo.

Eu quero senti-la. Kitty, por favor.

— Vamos levar o caixão agora?

O caixão que sequer pudera ser aberto. Ela estava desfigurada.

Sam só se levantou porque Thomas a amparou e a levou para fora. Ela simplesmente não conseguia. Estava fraca no corpo e na alma. Queria sentir raiva de Victoria Wall, a motorista, mas a raiva que sentia era direcionada a si mesma. Por ter dito adeus. Por negar o “eu amo você”.

Mas agora, olhando a grama verde engolir o caixão lacrado, as flores sendo jogadas, a terra tragando o corpo que a manteve quente, que lhe deu o mais sublime dos prazeres, que a completou, ela conseguia gritar o “eu amo você”.

Porque, talvez, se gritasse alto o suficiente, ela acordasse.

— Kitty, por favor! – Era a última coisa que poderia fazer. Ele concertara sua boneca, poderia concertar Alexandra também. – Por favor, eu acredito!

Mas o leão de Alexandra jamais respondeu.

FIM DO LIVRO UM.

Notas finais
Babi: Eu sei... Não consigo parar de soluçar. Argh, odeio finais com morte, mas todos os meus finais simplesmente guiam pra esse tipo de caminho! Ai, meu coração. Eu quero a descrição completa dos sentimentos de vocês. Sério. Quero muito. E sem spoiler porque acabou o primeiro livro. Vão ter que ficar no aguardo aí pra saber o que vai acontecer. E, já que já está tudo ferrado, mesmo, deixa eu fazer uma propaganda básica, porque eu gosto. Pra quem curte 5H, leiam minha fic no SS, "Lobos e Raposas", http://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-fifth-harmony-lobos-e-raposas-3035408 Eu vou me retirar, porque não estou bem. T.T Obrigada por ler.