Leão do Inverno
20 Livro Um — Capítulo XIX
Notas iniciais

A tarde parecia se arrastar para Samantha, enquanto assistia, entediada, uma leve geada cair do lado de fora.
Katherine estava a ponto de deixar todos loucos com sua busca pela perfeição daquele jantar. Parecia que quem viria era Donatella Versace, não seus sogros. Mas Samantha Winter tentava ignorar tudo aquilo da melhor forma possível, afinal, já tinha muito com o que se preocupar.
O clima na residência não era o mais agradável. Ethan saíra durante o almoço e até agora, pouco depois das seis da tarde, não retornara, tampouco atendia ao telefone e nem sequer respondia as mensagens de Kate. Sam não pôde deixar de notar o olhar que Alex lançava sempre ao passar pelo escritório do pai. Parecia mágoa, ódio... Nojo, talvez? Não importava. Mas era realmente estranho.
O relógio andava muito lentamente. Sam estava encarregada de cuidar da sobremesa enquanto a mãe faria os últimos retoques na decoração.
A gêmea fazia uma torta de limão, escutando Beatles no rádio para abafar a voz da mãe, quando percebeu que não havia limões a disposição. Sentiu-se estúpida, e buscou por qualquer outra fruta que pudesse substituí-lo, mas Katherine a interceptou antes que pudesse fazer alguma coisa.
— Não! – Ela berrara, entrando em pânico. – A terrina é feita especialmente para vir antes de uma torta de limão! Você vai estragar todo o meu jantar, vai desmoronar, vai desarmonizar!
E blá, blá, blá. Samantha apenas observava a boca dela se mexer sem saber o que ela estava dizendo. A pianista cantarolava algo em sua cabeça, apenas para afastar os gemidos desesperados da mulher a sua frente, que parou subitamente, sorrindo como se nada tivesse acontecido.
— Mande seus irmãos comprarem – e saiu, voltando para a sala, para ajeitar milimetricamente as almofadas no sofá.
Foi só naquele momento que Sam percebeu que Thomas e Alexandra passaram grande parte do dia trancados no quarto. Sentiu-se, a princípio, revoltada por ser a única dos três obrigada a aturar os gritos e ordens de Katherine, mas depois a frustração a tomou. O que estava acontecendo com aquela família?
Ela foi procurá-los, um pouco decepcionada, e estava prestes a abrir a porta quando risadas e um "okay, vou ler de novo" a interrompeu.
Ler o que?
A curiosidade, como sempre, foi maior que a ética, então ela apenas encostou a orelha na porta e esperou que a rouca voz de Alex começasse a ler.
"Acho que a perda está relacionada ao amor, seja ele fraterno ou não. Para importar-se com a ausência de algo ou alguém você precisa se afeiçoar a tal coisa. Portanto, é doloroso aceitar a ideia de que aquilo virá a faltar.
A perda para a morte é a pior de todas, porque ela ainda é uma incógnita fatal. Sabemos que será o fim do corpo, mas, para aqueles que acreditam, ainda restam dúvidas sobre o espírito. E para quem fica e encara a vida, é assustador. Você enfrenta sua própria mortalidade ao ver alguém que ama morrer. Mas você não tem descanso porque ainda vive, e dali em diante tudo será cheio da ausência daquele que partiu.
Será um pequeno e particular pesadelo, onde você grita, busca e corre, até que seus pulmões explodam, mas simplesmente não consegue alcançar aquilo que ama e o deixa escapar por entre os dedos.
Para você que vive, só resta a dor, e o vazio, e o desespero, e o desejo inútil de que tudo pudesse ser diferente. Mas não é. Nunca é."
As palavras profundas da irmã lhe tocaram de uma forma diferente; dolorosa.
Samantha respirou fundo e levou a mão ao peito, pressionando para que o aperto fosse embora. Depois de suspirar algumas vezes, ela finalmente alcançou a maçaneta e adentrou o cômodo.
Alex estava deitada de bruços na cama de Tom, enquanto o garoto estava sentado no chão, escorando-se na parede fria.
— Hey, o que estão fazendo? – Ela questionou ao ver inúmeras folhas de papel amassadas e canetas nas mãos dos irmãos.
— Oh, hey. Eu só estou ajudando Alex com um trabalho da faculdade – Thomas respondeu e virou-se para a outra gêmea. – E, aliás, acho que chegamos ao ponto com esta última!
Aquilo fez a cólera de Sam agitar-se como serpentes em seu interior. Até onde Alexandra levaria esse joguinho de infantilidade e ciúme? Pedir ajuda a Thomas apenas para evitá-la?
— Por que não pediu minha ajuda, Alexandra? – Sam exclamou, já alterada.
— Pensei que estivesse ocupada cuidando de certos narizes quebrados – ela respondeu sem desviar o olhar da folha e aquilo fez a situação piorar.
A gêmea mais jovem caminhou fortemente até seu reflexo e puxou-a bruscamente pelo braço, forçando-a a olhá-la.
— Até quando continuará com esse circo, huh?! Você sabe muito bem que foi a errada ali e-
Alex puxou seu braço e ajoelhou-se na cama para ficar na mesma altura que a irmã. Com o olhar nitidamente magoado e o tom de voz indignado, retorquiu:
— Eu fui a errada? Aquele latinozinho de merda te beija a força e por te proteger a errada sou eu? – Ela riu sem humor e abriu um sorriso irônico. – Talvez você estivesse gostando, não é mesmo? É a única explicação.
A boca de Sam abriu-se em um perfeito "o" e ela se sentiu ultrajada. Lágrimas comichavam em seus olhos e algo agitava-se em seu estômago, impedindo seu diafragma de funcionar devidamente, proporcionando-lhe uma falta de ar horrenda.
Thomas estava esquecido em um canto do quarto, observando atentamente ao desentendimento das irmãs, atônico.
— Com certeza foi isso! Atrapalhei seu momento de ternura. Esqueci como você gosta dos mauricinhos.
— Como você pode dizer isso depois de-
— Depois de tudo o que passamos? – Seu grito foi interrompido pelo outro. Talvez Katherine estivesse escutando tudo, mas àquela altura nada poderia tornar a situação pior. – Não importa pelo que passamos, se a cada vez que um filhinho de papai abanar o rabo você der bola!
— Céus, Alexandra! Você está se ouvindo? – Samantha falou com uma mágoa palpável; agora segurar as lágrimas era impossível. – Acho que já tivemos o suficiente dessa sua ceninha ridícula.
Thomas já havia se retirado do cômodo há algum tempo e agora Sam soluçava por conta da dor que as palavras de Alex estavam lhe causando.
— Vá comprar limões, Alexandra. Mamãe quer uma torta – foi tudo o que ela conseguiu dizer, com a garganta apertada, prestes a sufocar.
Ela se preparava para sair quando uma mão quente rodeou seu pulso.
— Veja-
— Não. Não quero ver nada. Você me magoou, me ofendeu!
— Ofendi? Mesmo? – A gêmea mais velha a largou, irritada. – O que você acha que fez comigo quando me deixou com a mão em frangalhos, cercada por estranhos, para levar um cara que te assediou à enfermaria?
— Você o estava espancando!
— Eu queria matá-lo! – Agora Alex também chorava e aquilo desestabilizou a gêmea mais jovem. – Você não entende o que é ver outra pessoa tocando o que é seu. Mas, afinal, eu sou uma idiota. Você tem razão em preferir aquele cara. Ele pode te dar mais que umas fodas escondidas.
E ela fez de novo. Sua mão foi de encontro ao rosto de Alexandra, acertando em cheio um tapa forte e estalado contra a bochecha já corada.
— Quem você pensa que é?! – Alexandra gritou, apertando o rosto com força, agora chorando audivelmente, trêmula, com um brilho diferente nos olhos. Uma mistura de raiva com mágoa.
— Ninguém! – Sam cuspiu a palavra enquanto observava-a ter espasmos, trincando os dentes. – Ninguém com quem você realmente se importe.
Houve um momento de silêncio. Parecia que ambas estavam se esforçando para conter a respiração. As pernas de Samantha pareciam incapazes de sustentar o peso de seu corpo e ela tinha a sensação de que a qualquer momento poderiam ceder.
— O meu problema – Alex recomeçou, num tom baixo mas embebido de dor – é me importar demais com você. A porra do meu problema foi colocar as suas necessidades acima das minhas, quando tudo o que você sabe fazer até hoje é ignorar completamente tudo o que eu sinto.
A pianista tapou o rosto, soluçando alto, sentindo vergonha e ao mesmo tempo ódio intenso. Queria que ela calasse a boca. Queria que todos aqueles pensamentos parassem, queria Beethoven lhe preenchendo com sentimentos bons ao invés daquela dor maldita lhe comprimindo o peito.
— Devia ter ficado com a sua Barbie, então – Samantha disse, observando-a sair pela porta.
— Devia mesmo – ouviu-a responder e, sem pensar duas vezes, agarrou um jarro de cristal italiano e atirou-o na direção dela.
Alexandra apenas desviou, sem se dar ao trabalho de olhá-la, e aquela frieza era combustível o suficiente para o ódio da gêmea mais jovem se acender com mais intensidade. Ela desceu os degraus aos berros enquanto Thomas e dois empregados vinham para ver o que estava acontecendo.
— Então vá! – Gritou, observando a irmã apanhar as chaves do carro de Kate sobre a mesa. – Suma da minha vida, eu não quero vê-la nunca mais!
Tom tentou dizer alguma coisa, mas Alex o pegou pelo braço e o arrastou para a escadaria da garagem.
— Isso mesmo! Vá! Adeus!
E Samantha, que nunca dizia adeus, gritou a palavra para os quatro ventos.
ALEXANDRA
O clima estava estranho. Alex podia ver pelo canto dos olhos Tom encarando-a. Ele claramente queria perguntar o que aquela cana significava, mas ou estava muito confuso ou muito assustado para tocar no assunto.
Ele ligou o radio, quebrando o silêncio mórbido, e uma banda americana qualquer começou a cantar. Do lado de fora geava um pouco, e a cidade toda parecia congelada – silenciosa demais, triste demais.
— Você quer me contar algo? – Ele perguntou bem baixinho.
— Não – ela respondeu ainda mais baixo, sentindo-se prestes a cair no choro outra vez.
— Eu também socaria o cara que te beijasse a força. Relaxa – ele coçou a nuca, olhando pelo retrovisor evitando-a. – Você sabe aquela animação que saiu em novembro? Let It Go, ou algo assim.
— Let It Go é o nome de uma das músicas – Alexandra conseguiu sorrir, mas mordeu o lábio com força, contendo um soluço ao lembrar-se da primeira vez que assistira a esse filme, com Samantha. – Chama-se Frozen – ela disse, com a voz embargada.
— Isso – ele limpou a garganta e suspirou. – Lily gosta de falar que as personagens principais têm um romance secreto incestuoso.
E a palavra fez Alex apertar com força o volante, olhando para a rua com mais interesse, com a garganta tão apertada que mal podia engolir.
Estava suando, de repente.
— Eu achava a coisa mais nojenta do mundo, embora fosse um pouco erótico – Thomas agora olhava para as mãos, sem coragem de fitá-la. – Mas... Ela me explicou algumas coisas. Uma das irmãs, a Let it Go, era cativa de si própria. Ela era simplesmente sozinha. E a Ruiva Sensual era tudo o que ela tinha, depois de tudo. A única pessoa em quem ela podia confiar quando descobriram que ela era diferente.
“Lily me explicou que, mesmo sendo irmãs, as duas criaram um laço mais profundo, por conta de toda essa confiança. Todo o amor. Era amor demais para os laços fraternos suportarem. Era confiança demais para que elas continuassem a se ver apenas como irmãs. Era como se elas se conhecessem tão bem, que já não podiam se separar. E tinham que se juntar de alguma forma, partilhar toda aquela afinidade de um jeito e-“
— Thomas, controle-se. É só um filme – Alex sentia as pernas trêmulas. Ele estava realmente fazendo aquilo ou era coisa de sua cabeça?
— Eu sei, mas o que eu quero dizer é que... Eu entendo o porquê de a Let It Go ter se apaixonado pela Ruiva Sensual. E eu não as julgo. Por mais louco e estranho e imoral que possa parecer... Eu não as julgo.
Não disseram mais nada o restante do caminho. Chegaram ao supermercado, compraram os limões – mais três jogos novos para testar; duas bolas de futebol, uma para cada; oito sacos de batatas chips; quatro garrafas de refrigerante e mais um engradado de cerveja.
“Precisaremos de tudo isso se quisermos sobreviver a um fim de semana na mesma casa que a vovó e a mamãe”, Thomas disse, “E, logo, logo, de uma ponte de safena”, a velha no caixa murmurou, provocando uma gargalhada dos dois.
A partir dali, o clima pareceu se tornar minimamente mais suave.
De volta ao carro, Alexandra respirou fundo, tentando não pensar em como reagiria ao voltar para casa.
Samantha deveria estar sofrendo para explicar à Katherine porque quebrara seu vaso, mas antes que pudesse sentir pena da irmã, a marca perfeita dos cinco dedos ardeu em sua bochecha corada de frio.
E novamente sua garganta apertou.
Sentiu certo remorso, mas apenas por ter falado sobre Evony. A verdade era que não suportaria a ideia de deixar Samantha agora, depois de tudo o que estavam dispostas a enfrentar juntas, depois de assumirem para si mesmas essa questão que a corroía há anos.
As palavras de Tom só a deixaram mais desestabilizada. Samantha estava sendo uma completa vadia, mas Alex sabia por experiência própria que seu orgulho nunca a levara a lugar nenhum.
Estava doendo, obviamente. Fora magoada de forma bruta e verdadeiramente preterida, mas para alguém que já preterira tanta gente, aquilo, agora, lhe parecia quase justo.
Pensou em Belle e em como deveria ter sido difícil escutar que Alexandra amava outra pessoa durante anos. Não deixaria que a dor dela fosse em vão. Portanto, ao afivelar o cinto do carro e tomar fôlego, decidiu que, ao chegar em casa, se redimiria com a irmã – mesmo que ela estivesse certa e Sam fosse a errada.
A vida era uma maldita caixa de surpresas. Não perderia mais tempo ao lado de Samantha, muito menos por conta de alguém como Miguel.
Ao saírem do estacionamento o constrangimento que fora dissolvido minutos antes pareceu engoli-los de forma rude outra vez.
Alexandra tentava não pensar, mas era inútil.
Thomas sabia. Claro que sabia. Como ele sabia era uma questão que talvez ficasse sem resposta para sempre, mas, de alguma forma, ele percebera. E, se ele percebera, talvez outros percebessem.
O cérebro de Alex parecia uma máquina sobrecarregada. Se pensasse um pouco mais, certamente sairia fumaça de seus cabelos.
Ela tentou distrair-se; condensar a camada embaraçosa ali presente, e para isso tornou a ligar o rádio. Bem alto, e com cuidado para não tocar ou olhar para o irmão.
No entanto, ele não parecia querer prolongar o silêncio por muito mais.
— Alex – Thomas finalmente resolveu falar, e a garota apenas olhou-o por alguns instantes, voltando a prestar atenção no caminho. – Preciso lhe pedir um favor.
— Qualquer coisa.
— É um pouco complicado – ele arqueou as sobrancelhas e abriu a janela; o ar congelante foi bem-vindo, contrastando com a temperatura sufocante proporcionada pelo ar-condicionado. – Alguns meses depois que você foi para Berlim, eu encontrei Olivia.
O nome fez Alexandra enrijecer e apertar o volante.
— Por que não me disse?
— Você já tinha problemas demais àquela altura – Tom esclareceu. – Mas isso não importa agora. Eu encontrei Olivia. Ela estava péssima. Realmente péssima. Em menos de um ano ela havia se transformada em uma viciada em heroína. E ela me contou sobre o que sentia a seu respeito.
As bochechas de Alexandra coraram e ela rezou para que a escuridão fosse suficiente para esconder aquilo.
— Ela tinha feito um aborto e tudo o mais – ele suspirou, passando as mãos pelos cabelos, nervoso, como Samantha fazia ao estressar-se. – Eu cuidei dela. Conversei com o Senhor Gold. Ele estava prestes a interná-la, mas eu me ofereci para levá-la todos os dias aos Narcóticos Anônimos. Fiquei com ela durante as crises de abstinência. Botei o namoradinho traficante para correr. Fui eu quem troquei as roupas encharcadas de suor durante as febres. O pai dela estava cansado demais, ou eu preferia pensar assim. Ela estava indo bem. Ficou limpa por mais de um ano. Consegui um emprego pra ela num café; não era algo grande, mas já era algo.
— Por que fez tudo isso? – Alex sabia que não era a principal pergunta a ser feita, mas sentiu uma afeição ainda maior pelo irmão ao ouvir aquilo.
— O motivo realmente não interessa, já que nada disso importou depois que você voltou – as mãos dele fecharam-se em punhos e às luzes da cidade Alexandra podia distinguir as lágrimas nos olhos claros do rapaz. – Ela teve uma recaída, quase sofreu duas overdoses.
Agora não era apenas Thomas quem tinha lágrimas nos olhos. Ela sentia-se terrível. O que poderia dizer? “Sinto muito”? Depois de tudo?
— E, eu sei que é rude falar isso, mas... A culpa é sua, Alex – ele disse, baixinho, da forma mais gentil que pôde. Tom era sempre gentil, mesmo com quem merecia ser espancado, como sua irmã mais velha. – E eu preciso da sua ajuda. Preciso que converse com ela. Explique que ama outra pessoa, tente fazê-la entender. Eu entendi, não é mesmo? – Ele estremeceu. – É a vida da Via que está em jogo, e você precisa ajudá-la. Se não por ela, que seja por mim. Eu não sei o que eu faria se- Se alguma coisa- Se ela-
— Tudo bem, Tommy – a garota sentiu suas entranhas sendo revestidas de chumbo. Engoliu a bile para não vomitar e soltou o ar devagar, avançando em direção ao cruzamento.
— Promete? Promete que vai falar com ela?
— É claro. Apesar de tudo eu-
— Alex, cuidado! — Thomas gritou, mas ela não teve tempo para entender do que se tratava.
Foi tudo rápido demais.
O mundo girando.
Todo seu corpo do lado direito sendo quebrado e esquecido.
Dor enlouquecedora. Luzes, fagulhas e barulho.
E então nada. Só escuro, para sempre.
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