Let's be Forever
2 Human
Notas iniciais
Você me constrói e então desmorono
Porque eu sou só humana
***
O olhar dela é tão penetrante, é como se ela lesse nossas almas. O ser maligno também teve a mesma sensação, ele não gosta de quando as pessoas ficam lhe encarando por muito tempo, exceto por mim.
— Ora Xavier, não sou tão velha para me chamar de dona – diz a senhora sorridente.
— Bom, irei deixa-los a sós – diz o Médico Xavier, se retirando da sala.
— E então? O que dois jovens, à flor da idade, vão querer com uma velha louca?
— Com todo o respeito, para mim, a senhora não me parece louca, acho que – Gabriel pausa, receoso, sob o olhar da velha – é a mais lúcida que os médicos.
— Todos nós achamos – ela ri – se apresentem, por favor.
— Hã... Meu nome é Alice Grenne, curso psiquiatria, e ele – aponto para o ser maligno – Gabriel Poter, neurologia, e estamos aqui para entrevista-lá.
— Que tipo de entrevista? – Em seu rosto já não tem aquele sorriso acolhedor e sim uma carranca.
— Pensei que tivessem avisado a senhora, mas enfim é um projeto, na verdade um TCC, e nós queremos saber como foi sua vida, antes e agora, quem é, a quanto tempo...
— Olha aqui garota, não há nada sobre mim que seja da conta de vocês dois.
— Mas senhora...
— Não me importa o que aconteceu e o que deixou de acontecer, eu só quero esquecer tudo e ter paz, já confiei em pessoas como vocês e as mesmas me colocaram aqui nesse inferno.
— Vamos embora Alice, ela não vai falar nada – sussurra Gabriel me puxando pra saída.
Raiva. É o que eu estou sentindo neste exato momento. Okay, ela não quer falar, mas poderia ter sido mais educada. Não me aguentando dou meia volta e fico cara a cara com ela.
— Okay, você não quer falar, tudo bem. Mas eu não admito que duvidem de mim, sem eu ter feito nada. Você confiou nas pessoas erradas, não temos culpa. Agora se você esta aqui é por que merece.
— Você é garota mimada, não sabe nem um terço do que eu passei, das pessoas que perdi, e aquelas que foram e não voltaram, VOCÊ NÃO SABE.
Os enfermeiros e médicos vinham ao nosso encontro. Fico quieta e antes de virar e ir embora falo:
— Pessoas vêm e vão, é inevitável, mas as verdadeiras sempre ficam ao seu lado.
Como se congelasse no tempo, ela me encara assustada como se me reconhecesse de algum lugar, que não me pergunte onde, que eu não sei. Dou meia volta e acompanho Gabriel até a saída, enquanto um aglomerado de enfermeiros e médicos está em volta de Olívia.
Seguimos até o estacionamento, onde meu fusca azul, sim eu tenho um fusca, esta estacionado.
— Ela parece você, quando esta brava – diz Gabriel rindo da situação.
— Idiota – e ele ri e eu acabo rindo junto.
***
Sempre amei viajar. Até os dez anos eu morei no Brasil, já que meu pai era brasileiro, mas quando ele morreu em um acidente de carro, minha mãe achou melhor voltar para Londres, onde a mesma nascera, lá eu conheci o ser maligno, e nossas mães viraram melhores amigas. Quando fiz dezesseis minha mãe resolveu que queria ser feliz novamente, então toda sexta a noite, eu e ser malignos ficávamos em casa, com a pão de mel — a cachorra vira lata que decidimos adotar – enquanto nossas mães saiam, e eu gostava por que minha mãe merecia ser feliz – ainda merece – e por que eu e o ser maligno ficávamos juntos, sim a gente ficava de vez em quando, mas tudo que é bom dura pouco né?
Depois de umas semanas, minha mãe me apresentou ao seu novo namorado, Carlos era seu nome, ele era mexicano, por volta dos seus 34 anos, alto e tinha o corpo másculo, embora bonito eu não gostava dele, e quando ele aparecia lá na minha casa, eu corria até a casa do ser maligno, assim como ele corria até a minha quando o misterioso namorado da mãe dele ligava pra ela dizendo que ia na casa dela. Foi nesse meio tempo que eu e o ser maligno perdemos a virgindade, foram noites maravilhosas, sim fizemos mais de uma vez, mas depois o sonho acabou, por que alegamos sermos só amigos, e isso me magoou e eu acho que magoou ele também.
Bom, o cara acabou pedindo a minha mãe em casamento, mas dois dias antes um anônimo mandou uma carta para ela, dizendo: Quem avisa amigo é, há visitas noturnas na casa ao lado, se descoberta, a confiança será quebrada. Não precisou de um cientista da NASA para saber que a carta se referia à casa dos Poters. Então no meio da noite, minha mãe foi na casa ao lado e pegou o Carlos e a mãe do ser maligno, em situações mega constrangedoras, rolou o maior barraco e a vizinhança inteira ficou sabendo. Acabou que o Gabriel e a mãe dele se mudaram para a Irlanda, mas não parei de conversar com ele, morria de saudades, mas nunca disse isso a ele.
Embora a minha vontade seja de viajar o mundo todo, quis seguir a mesma profissão que o meu pai, minha mãe diz que é loucura, mas eu gosto, fazer o quê.
Depois de sair daquele sanatório, Gabriel me levou a um parque lindo, em seu auge da primavera, me levou onde o jardim estava florido e mais a frente um lago, que parecia ter saído de um quadro.
Desde que nos conhecemos, ele tem o costume de me levar a bosques, campos lindíssimos, que parecia ter saído de nossos sonhos e se materializado na vida real.
— Melhor? – ele me pergunta depois de um tempo em silêncio enquanto caminhávamos entre as árvores.
— Ainda querendo esganar aquela velha mal criada – digo indignada.
— Hey, calma, também não precisa ficar assim – o encaro com raiva e antes de eu o contradizer, ele completa – nem todos querem lembrar-se do passado. Se coloca no lugar dela, se ela foi traída, como diz ter sido e tá enfurnada lá, é por que algo grave aconteceu, para ela estar lá, um motivo ou vários... Vai saber se essa mulher não era uma psicopata que matava geral – ele ri.
— Você tem razão, ser maligno – digo e ele sorri presunçoso – mas, você notou como ela se rebelou contra nós?
— Acho que você se esquece de aonde fomos. Aly aquilo é um sanatório não um asilo. Todos lá têm um passado obscuro, sem contar os remédios que dão a eles.
— Verdade – suspiro – mas tem alguma coisa de errado nisso tudo, aquela reação não foi provocada por um ataque de raiva, ou devido aos remédios, aquilo foi o rancor, tristeza, mágoa gritando, eu vi, eu sei que é isso por que eu sou assim e você sabe mais do que ninguém. Ela foi traída pelas pessoas que ela amava que ela devia confiar, ela mesma disse isso.
Ele parou, fechou os olhos, balançou a cabeça, suspirou.
— Você é doida, mas eu te adoro... Okay, Holmes e o que você vai fazer quanto a isso? Não esta pensando em voltar e força-la a dizer, né?
— Ora, Watson, parece que nem me conhece, não sou capaz de machucar uma formiga sem me sentir culpada, quanto mais machucar um ser humano – digo inocentemente entrando na brincadeira.
— Ó, não foi isso que eu vi ontem, você afogando as pobrezinhas das formigas – diz ele rindo.
— Hey, elas estavam em cima do meu bolo de chocolate e isso é inadmissível – rio junto com ele.
— Mesmo assim, você é uma assassina de formigas – o empurro – devia ser presa por tamanha crueldade – diz ele fazendo drama rindo enquanto me empurra correndo logo em seguida e eu corro logo atrás.
Quando estou perto o suficiente pulo em cima dele rindo, ele ri também, mas acaba tropeçando caindo. Mas isso não foi o problema, O PROBLEMA FOI ELE TER CAIDO EM CIMA DE MIM.
Rimos, até perceber em que posição nos encontramos: ele em cima de mim e eu sob ele, OBRIGADA DEUS. O tempo parece congelar. Ele procura minha mão e quando a acha entrelaça nossos dedos me olhando intensamente, “eu sinto a sua falta, seu ser das trevas, dos beijos, de quando a gente tinha alguma coisa” eu penso e parece que isso esta escrito nos meus, porque ele pareceu entender e quisesse me dizer a mesma coisa, mas não queria admitir. Seu olhar desceu até a minha boca, assim como o meu desceu até a sua...
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