Let's be Forever
3 Old Scars / Future Hearts
Notas iniciais
Eu sei que é difícil escapar do passado e começar de novo
Essas lembranças de todos os futuros corações que você matou
Eu não quero ser aquele que é deixado para trás
Não me culpe, não me odeie
Eu não quero ser aquele que é deixado para trás
***
Aproximamos-nos lentamente, mas pela ordem divina que adora acabar com o momento dos meus sonhos, resolveu me dizer olá. Nesse momento o meu celular toca quebrando o encanto do momento
Levanto desconfortavelmente evitando olhar para ele.
— Me desculpe, eu te machuquei? – ele pergunta preocupado.
— Tá tudo bem, eu não me machuquei – o olho, encarando aquelas orbes azuis como o oceano, me perdendo por um momento – Hã... Eu preciso... Preciso atender – digo levantando o celular.
— É eu acho melhor você atender mesmo.
Olho para a tela do celular para ver quem estragou O MEU momento e vejo que é da clinica psiquiatra Orquídea.
— Oi.
— Olá, senhorita Grenne? Aqui quem fala é o Xavier, o médico que atendeu você e ao seu colega — o mesmo cara que tentou ser sexy pra mim, é só o que me faltava – estou ligando para pedir desculpa pelo ocorrido de hoje cedo e lhe convidar para tomar um café, se você quiser é claro?
— Hã... Esta tudo bem, não precisa se preocupar e um encontro? – digo olhando para o ser maligno, movendo a boca “me ajuda”, que pega o celular da minha mão.
— Você tem algo a mais dizer? Eu e minha namorada estamos ocupados – Gabriel diz sorrindo pra mim, mas seus olhos não o acompanham. Ele fica em silêncio por um momento escutando o médico e depois diz “okay”, desligando o celular – Parece que demos sorte, Olivia quer falar com a gente.
— Namorada? É sério isso? – digo rindo meio envergonhada.
— Qual é? Cara folgado, você nem deu sinal que queria algo com ele e ele veio cheio de gracinhas pra cima de você – diz ele agora indignado e... Espera o que vejo nos olhos dele é... Ciúmes?
— Tudo bem, é normal sentir ciúmes de quem ama – digo rindo... Espera O QUE FOI QUE EU DISSE?
— Eu? – ele fica pálido – Desde quando eu sou ciumento? Por quê? Você iria aceitar o convite daquele babaca? – pergunta ele rapidamente com uma pitada de raiva.
— Por que não? – Ele me encara assustado – to brincando, seu bobo, e se você não sabe agora eu tenho um namorado – digo rindo da cara que ele fez – vamos, amor, temos que ver o que a dona Olivia quer com a gente.
***
O caminho até o sanatório é bem complicado. Ele fica numa região isolada, o que para mim fica no meio do nada, pois você olha pra qualquer lado e só vai ver árvores e mais árvores, e atrás dele vai ter um bosque, muito lindo e encantador por sinal, mas muitos dos pacientes já se perderam por lá e nunca mais foram vistos.
O Orquídea teve o seu “sucesso” até o final da década de 50, quando uma parte dos soldados, generais, comandantes que lutaram – diretamente e indiretamente – na primeira e segunda guerra mundial, ficaram loucos e foram mandados para cá sem chamar muita atenção. No entanto, houve boatos que em 1945, logo após da guerra ter terminado, todos eles se mataram lá dentro, mas há controvérsias que dizem que eles foram mortos pelos médicos e enfermeiros.
Nem preciso encarnar o Sherlock para saber o que aconteceu, já que no ano seguinte, foi lançada uma entrevista dos enfermeiros, médicos e policiais dizendo que uns pediram para mata-los em cartas, já que eles seriam executados em dois dias por terem se aliado a Hitler.
Mas o sanatório acabou perdendo a fama e a confiança da imprensa, junto com isso uma parte de seus pacientes, mas claro que houve famílias que simplesmente se esqueceram dos parentes ali deixados e alegaram ser uma benção se eles estivessem mortos ao invés dos participantes da guerra.
Doido? É CLARO. Tem até uma série no ID falando sobre manicômios assombrados. Eu sempre quis assistir, o problema é que eu moro com a minha mãe. Não preciso dizer mais nada.
Eu me esqueci de dizer que quando eu e o ser maligno escolhemos O Orquídea, tivemos que vir até a Alemanha, o que foi uma benção, pois além de eu amar viajar, eu fui liberada por duas semanas do meu emprego para conseguir fazer esse projeto. Eu sou professora de francês numa escola somente de línguas, é como se fosse um segundo plano, caso não desse certo ser psiquiatra e pra poder pagar o curso, já que mesmo morando com a minha mãe, sou eu quem paga os meus cursos.
Por um lado eu fui abençoada por conseguir viajar e por outro sacrificada, já que eu e o ser maligno dividimos o mesmo quarto do hotel – isso explica o episódio do chocolate que o ser maligno comeu.
Ta okay que o quarto tem duas camas de solteiro, mas é estranho dormir no mesmo quarto que ele novamente e o pior de tudo é que quando eu tenho pesadelo, é ele que me acorda então ele me abraça e fala que vai ficar acordado até eu dormir, mas eu sou uma filha dos infernos e falo: “Eu não tenho mais dez anos, okay? E eu não preciso de ninguém cuidando de mim” ... até por que quando poderíamos ter ficados juntos quando éramos jovens, você negou, dizendo que só conversava e cuidava de mim por obrigação, mesmo depois de tudo o que nós fizemos.
***
É estranho voltar aqui no sanatório. Bom agora é 3:00pm e eu to morrendo de fome (eu comi um sandwich faz uns 20 mins), entramos no hall branco – SANTO ZEUS FILHO DA CARROCINHA, SERÁ QUE ELES NÃO CONHECEM OUTRA COR, até eu to ficando doida.
O médico Xavier que se acha o gostosão, já nos espera e quando nos aproximamos, ele sorri pra mim e encara Gabriel em desafio. Quanta putaria essa coisa de querer exercer o domínio sobre o sexo oposto, acho assim... Desnecessário isso.
— O senhor nos chamou, pois Olivia gostaria de nos ver, certo? – digo séria e ele me encara assentindo com um sorriso meloso nos lábios – bom, sem querer ser ousada, onde ela esta?
— No jardim, minha cara – aff que cara insuportável.
Gente sabe aqueles caras que querem ser sexy, mas só consegue te deixar desconfortável de um modo ruim, bom eu lhes apresento, Xavier.
— Ótimo, eu e meu namorado estamos curiosos para saber o que ela quer com a gente, já que foi ela que nos expulsou hoje de manhã.
Seu sorriso vacilou, mas mesmo assim continuou em seus lábios e me encarando como se eu tivesse nua. Cadê o meu machado pra eu acertar o crânio dele?
— Sim claro, me acompanhem.
Os pacientes parecem mais calmos aqui no jardim — que é maravilhoso, aqui tem dama da noite, peônias brancas (Daniel e Luce) e lírios, a minha flor favorita do mundo inteiro — do que lá dentro. Não é pra menos, aqui é mais colorido, alegre, não somente branco psicótico. Olívia esta mais afastada, isolada, sentada num banco branco, distraída com os lírios que a cercavam.
— É a flor favorita dela – confidencia Xavier.
Chegamos mais perto dela e ela sorri para nós.
— Creio que não fui uma boa anfitriã para vocês hoje de manhã.
— Nem um pouco – concordo com ela – mas entendemos a sua relutância e não queremos obriga-la a nada.
— Esta tudo bem, eu irei contar tudo o que vocês quiserem crianças, mas peço que sejam compreensíveis comigo, caso eu me exalte.
— Sem problemas, lhe daremos o tempo que precisar dona Olivia – diz Gabriel sorrindo.
— Oh, não me chame de dona, olha que eu ainda posso roubar seu coração, isso se ele já não pertencer à outra – ela diz me olhando e deixando o ser maligno desconfortável.
— Não sabemos o futuro, não é? É melhor eu não duvidar – diz Gabriel rindo, desviando o assunto.
— Bom, o tempo é curto e precisamos dele, então se o Xavier nos der licença, isso será uma conversa particular.
— Oh, sim claro, se me derem licença – ele se despede e nos deixa a sós.
O médico saí, e eu e o ser maligno nos sentamos no gramado mesmo, de frente para a senhora.
— Crianças...
— Tudo bem, gostamos ficar sentados na grama, é bom – diz Gabriel, interrompendo a objeção de Olivia.
— Esta bem, eu nem sei por onde começar – diz ela sem graça.
— Você pode começar falando quem você foi, onde nasceu e cresceu, quantos anos tem – digo ativando o gravador do celular – se importa se eu gravar a nossa conversa?
— Não, claro que não – ela suspira, olha pro céu, como se pedisse ajuda – o que vou contar a vocês será muito difícil para mim. Tento por anos esquecer tudo o que aconteceu, e o que você me disse hoje de manhã sobre eu merecer estar aqui, é verdade, admito, mas isso me corrói todo misero segundo.
— Saber que esta sozinha? – Tento.
— Não, mas o que eu fiz antes de vir para cá...
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