Let the Snow
19 Viver a vida

Em poucas horas, Fred Welsome se tornou meu melhor amigo.
Ele fazia de tudo para fazer-me rir, não se deixava abalar com minhas críticas ou mau humor, sempre muito prestativo. Falamos de tudo; Da minha vida, da sua vida — Sem mulher, sem filhos, que morou na casa da mãe até sua morte — de suas experiências vergonhosas, das minhas experiências vergonhosas, e eu lhe deixei a par de tudo o que havia acontecido na festa e sobre a minha alucinação — Pelo menos os detalhes, porque maioria da história ele ouviu devido aos meus gritos.
Apenas uma coisa lhe deixava desconfortável; Alex Watts.
Eu tinha certeza de que o conhecia, porém, Fred insistia em deixá-lo no anônimato. Tomei a liberdade de pegar o notebook de Douglas (No qual estava bastante escondido entre suas roupas dentro de seu armário que residia dentro de seu quarto com a porta fechada) e procurar mais sobre o suposto empresário. Não havia encontrado nada muito relevante, apenas que ele havia sido responsável pela carreira de uma famosa modelo mundial e apenas isso.
As poucas fotos que eu encontrei onlines do empresário causavam voltas em meu estômago. Eu precisava saber de onde ele era, o que fazia, precisava saber de onde eu o conhecia, mas nenhuma informação que me era fornecida era útil ou me trazia alguma lembrança. Eu tinha certeza de que Fred Welsome sabia das informações que eu precisava, porém, ele continuava a negar.
Minha decisão fora ignorá-lo. Se ele não servia para me ajudar, não era meu amigo. Enfiei-me debaixo das cobertas e revirei o mundo de sites a procura da vida do homem.
Fui acordada no meio da noite por Fred. Seu rosto estava cansado e os cabelos bagunçados — coisa que eu havia visto pela primeira vez. Era noite, o relógio marcava uma hora da manhã.
– Eu pensei muito a respeito. Provavelmente irei ser despedido, mas eu não estou nem ai, eu vou te contar tudo para que você pare de parecer uma idiota ai, revirando essa coisa tecnológica a procura de segredos que nunca encontrará. — Ele suspira e se senta ao meu lado enquanto eu limpava a baba que havia escorrido de minha boca durante o sono e colocando o notebook de lado — Eu só espero que valha a pena.
– Fred... Se isso irá te dar desvantagem em algo eu não quero. — Sou sincera — Eu não quero que seja despedido por minha causa, mesmo que eu queira tanto saber das coisas e esteja zangada com você...
– Quieta antes que eu mude de ideia! — Ele diz, tapando minha boca com as mãos — Eu fui contratado para cuidar de você. Não sou só um editor, sou um enfermeiro.
– M-Mas... Quem te contratou para isso? Douglas. Claro. — Reviro os olhos — Ele não precisava ter feito isso, eu estou bem, e além do mais...
– Não foi Douglas, Alexandra. Foi seu pai.
~
Alex Watts.
Alexandre.
Chloe Watts.
A mulher pelo qual meu pai havia abandonado eu e minha mãe.
Alex Watts.
Alexandre Watts.
– Quando Alex recebeu o e-mail da sua amiga e teve certeza de que era sobre você que ela estava falando, isso o deixou com medo. Medo, na verdade, de saber que você poderia conhecê-lo. Por isso tentou abafar a situação, e aposto que se não fosse pela sua amiga ter encontrado o e-mail do próprio Doug, você não estaria aqui. Se você perceber, ele fez de tudo para que você não o visse, certo? Ele não sabia se você o reconheceria, porém, era um risco. Eu nem sei o porquê dele ter vindo aqui pessoalmente, talvez estivesse mesmo desesperado, talvez o teste fosse importante. Mas... Ele me contratou para várias tarefas. Primeiro, para vigiar você e Douglas. Vigiar o quê? — Ele dá de ombros — Não sei, mas era para eu vigiar. Talvez ele não queria que vocês transassem ou algo assim, mas eu não vou vigiar vocês ou separar seus corpos no meio de uma transa, certo? — Ele diz aquilo casualmente, enquanto meu rosto queimava — Enfim, isso, para eu ajudá-la no que fosse preciso, tanto em questões de beleza quanto dúvidas de adolescente e enfim, para eu ver se estava tudo certo com você e sua saúde. Ambos sabemos que você tem câncer, além de ambos sabermos que você NÃO ESTÁ tomando os remédios. Eu os colocava em sua comida, não se preocupe. — Ele diz com uma risadinha.
– Isso... Não pode estar acontecendo. — Digo, passando as mãos em meu rosto.
– Sim, é um grande coincidência, eu que o diga! Mas não, você não está alucinando!
– ISSO NÃO TEM GRAÇA. — Digo, o encarando com raiva.
– Desculpe. — Fred se encolhe.
Me levanto e vou até as janelas do quarto, as abrindo, o vento corta meu rosto, eu respiro fundo. É coincidência demais, demais. Meu pai, que havia me abandonado quando eu ainda era pequena, se tornara um bem sucedido empresário e nem sequer voltou atrás para saber como eu estava. E ele era simplesmente o empresário do meu Douglas Smith.
– Mas que porra louca! — Berro, e aquilo me faz sentir melhor.
Fred me encara surpreso.
– Tudo bem, essa reação foi digna.
Encaro o rosto de Fred Welsome. Quantos anos ele tinha? Trinta? Cinquenta? Era difícil adivinhar, mas mesmo assim, seus olhos possuíam tamanho conhecimento e que eu só pude ocorrer a ele. Me sento na cama novamente, o observando, sem nenhuma certeza até ali.
– Ah, Fred. — Digo, atônita — O que eu faço?
Fred suspira e levanta meu rosto, pousando o polegar em meu queixo, olhando dentro dos meus olhos.
– Alexandra, para o quê você veio aqui?
– P-para conhecer o Doug. — Fungo, a tentativa de reprimir as lágrimas é falha.
– Então, é isso que você vai fazer. Você tem apenas mais uma semana e seis dias. E eu sei como você o ama, e quer saber? Ele conversa comigo sobre você. Ele é um rapaz muito e muito tímido, isso é fácil de ser notado, porém, ele se preocupa muito com você. Ele planeja tudo pensando em seu bem estar, sempre querendo te agradar. Sempre elogia você para mim, diz que você é uma garota incrível. Eu não tenho muita experiência em quesitos amorosos, mas para mim, o amor é quando você põe as necessidades de alguém acima das suas. Douglas faz isso sem hesitar. O que você acha?
Eu pisco algumas vezes, afastando as lágrimas.
– Você é uma garota forte e linda, que precisa viver sua vida sem arrependimento, Alexandra. É duro dizer isso, mas você sabe, você está... Morrendo. Por favor, não se prive com bobagens, não perca seu tempo com besteiras, corra atrás dos seus sonhos. Viva. Tá legal? — Ele diz, limpando uma lágrimas do meu rosto.
– Tá legal. — Digo, o abraçando — Obrigada.
– Eu... Eu que agradeço, garota. — Ele diz, posso ouvir seu sorriso.
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