Let the Snow

20 Ignorar


Ignorar. Era o que eu ia fazer. Ignorar e viver a minha vida.

Fingir que nada aconteceu. Continuar a pensar que meu pai me abandonou e nada mais, afinal, aquele homem que se dizia Alex Watts não era para mim nada mais do que apenas um estranho.

Uma alucinação. Grande coisa. Aquilo não ia estragar a minha vida, os meus sonhos, o meu tempo com Douglas Smith. O famoso Douglas Smith, se lembra, Alexandra? Aquele garoto pelo qual você chorou e rezou a vida toda. Ele estava ali, ali, vamos, curta, aproveite!

Quando ele chegou, corri e o recebi com um abraço. Notei que ele não esperava aquilo, mas e daí? Ele retribuiu, e aquilo era o que importava.
Não contei a ele sobre Alex Watts. Primeiramente porque não queria que Doug acabasse prejudicando a si mesmo após saber sobre a história do empresário, pois eu tinha certeza de que Doug, com o coração puro, jamais aceitaria receber ordens de um cara como ele. Segundo, pois eu sabia que qualquer minucioso detalhe colocaria a carreira e o emprego de Fred Welsome em risco, coisa que eu não queria.

Com o tempo, minhas energias acabaram se tornando poucas. Eu não tinha mais aquele pique de antes, aquela vontade de correr e pular e caminhar ou nada do tipo. Eu preferia ficar deitada no sofá de Douglas, com o mesmo ao meu lado, vendo um filme de terror e gritando de medo. Gostava de jogar video games com ele, de ver sua reação ao perder as partidas para mim. Nada havia acontecido, nada ia me impedir de viver o pouco da minha vida que restava.

Comecei a tomar meus remédios com mais atenção. Fred havia dito que os colocara em minha comida, mas não queria dar aquele trabalho a ele, então o prometi ser mais responsável.

Notícias sobre a briga da festa saíram em revistas e tablóides, porém, nenhuma delas alegava o real motivo. Douglas e Logan Lerman haviam tido uma briga, mas o porquê nunca era revelado.

E eu sabia.

Mas nada daquilo importava, lembrava a mim mesma.

~

– ... E então a partir daquele momento, o homem denominou a si mesmo de... Zé do Picadinho! -Doug faz uma voz grossa em uma tentativa de ser aterrorizador, mas eu não consigo fazer nada além de rir e jogar-lhe a almofada.

– Ridículo! — Digo, zoando sua história de terror.

– Vai dizer, até parece que o seu plágio de Freddy Krueger foi assustadora, bobocona! — Ele diz, estalando as costas.

– Melhor do que a sua. Pode ter sido plágio, mas foi um plágio maneiro. — Digo, orgulhosa de mim mesma.

– Continua sendo plágio! — Ele faz uma careta na minha direção.

Sem arrependimentos. Sem arrependimentos.

Me deito em seu peito, puxando as cobertas que nos tapavam, que me cobrem meu rosto, deixando apenas os olhos amostra. Ouço o coração de Douglas acelerar de maneira preocupante, fecho meus olhos com força, tive certeza de que ele iria me afastar. Porém, nada acontece. Ele simplesmente se ajeita de maneira mais confortável e pega o controle da televisão.

– Vamos ver outro filme? — Ele pergunta.

~

Não foi uma boa ideia ter visto aquele filme.

"Debaixo da cama", era o nome.

A história era basicamente sobre uma garota que morava sozinha com seu cachorro. Em um dia de tempestade, ela sente o cão lamber o seu pé. Um barulho vinha do banheiro do corredor e ela corre para ver o que era, pensando ser a goteira do chuveiro, porém, quando ela abre a cortina do box, seu cão estava enforcado com o chuveirinho ao redor de seu pescoço e os dizeres escritos em sangue na parede diziam "Demônios também sabem lamber".

Durante o filme, eu ri, comi pipoca e em alguns momentos tive meus momentos de tensão, porém, naquele momento, enquanto a chuva caia e os raios trovejavam lá fora, eu sentia que nunca mais conseguiria dormir novamente em toda a minha vida. O cobertor cobria todo o meu corpo encolhido, como se algum demônio que inventasse de me lamber iria ser detido por aquela coberta anti-espíritos.

Um raio parece balançar meu cérebro. Eu me levanto, e ponho o pé descalço levemente sob o chão frio, pé por pé até a porta do meu dormitório. Abro-a lentamente e encaro o corredor vazio; Os relâmpagos o iluminam sombriamente. O relógio do corredor faz "tick tock", e marca três horas e nove minutos da manhã.

Eu nunca fui uma garota religiosa, porém, sempre fui extremamente cagona, de maneira que me desesperei ao ver o horário. Já havia visto em filmes de terror que à partir das três da manhã os espíritos malignos ficam a solta, porém, nunca fui dessas garotas que viram a noite em claro para poder sentir aquela sensação de terror.

Bato levemente na porta do quarto de Doug, mas não recebo resposta. Nervosa, fito meus próprios dedos, quando ouço um barulho, vindo do fim do corredor.

Passos.

Luzes ligando.

Ah, santo Deus, tinha alguém na casa!

Vejo a sombra de mover e vir exatamente na minha direção.

Com um grito, escancaro a porta do quarto do Douglas Smith e me jogo na cama ao seu lado, naquele momento, literalmente nem ai para merda nenhuma.

Douglas praticamente voa da cama, parando de pé e mais ou menos alerta.

– O QUE ACONTECEU? — Ele berra, sonolento.

– Tem alguém na casa, Doug, tem alguém na casa! — Digo, puxando as cobertas até um pouco abaixo dos olhos.

– T-tem certeza? — Ele pergunta, se aproximando e pousando a mão em minha testa, como se checasse minha temperatura.

– Sim, eu tenho, não estou alucinando dessa vez! — "Eu acho", penso.

– E-espere aqui, eu já volto. — Ele diz, abrindo seu roupeiro e tirando de lá um taco de golfe.

– DOUGLAS! Não, por favor, fique aqui comigo! — Digo, nervosa com a possibilidade dele se machucar.

Doug sorri para mim.

– Eu já volto.

~

Haviam se passado apenas uns cinco minutos, que pareciam horas.

Eu remoía-me de arrependimento de tê-lo deixado ir, e se algo tivesse acontecido com ele?

A maçaneta.

Girando de vagar.

Paralisada, tudo o que eu faço é me enterrar de cobertas e fechar os olhos.

– Você quase me fazer matar o Fred! — Ouço a voz grave e sonolenta.

Tiro as cobertas de cima de mim e fico de pé na cama, aliviada. Quando dou por mim, estou abraçando Douglas com força.

– Eu fiquei tão preocupada e... Peraí... Como assim matar o Fred?

– Pois é, o coitado foi pegar uma xícara de chá da cozinha e recebeu uma tacada de golfe na cabeça.

Cubro minha boca com as mãos.

– Coitado! — Murmuro.

Douglas ri.

– Ele está bem, só murmurou que não aguentava mais a vida e que ia se mudar para a Holanda. — Douglas ri e revira os olhos.

Me sento novamente.

– Eu não conseguia dormir, e fui dar uma volta, acho que estou ficando paranóica. — Admito.

– Ah, não acredito! — Douglas ri alto — A durona Alexandra Neves com medinho de "Debaixo da cama"? É ridículo demais para ser verdade! — Ele começa a fazer caretas.

– Para! Eu não sinto medo! — Digo, cruzando os braços e levantando o queixo.

– Não sente? Que pena... — Ele diz, fingindo tristeza — Porque, na real, eu não consigo dormir também. — Ele mente — Então meio que ia te convidar para, sei lá, fazer companhia para mim ou algo parecido.

"Opa", penso. Ele estava me convidando para dormir com ele? Era mesmo o que eu estava ouvindo?

– Olha... — Começo, coçando a nuca — Na real, nessa situação eu admito que estou com um pouco de medo sim. — Concluo, ruborizando.

– Ótimo. — Douglas ri.

Ele se deita no lado esquerdo da cama e eu o imito no direito. Conversamos por um tempo, antes dele cair no sono, antes de mim. Sua respiração era suave, e sua boca estava levemente aberta, me fazendo rir.

Aproveito e mexo em seus cabelos, sentindo seus cachos macios. Seu cheiro me invadia, o calor não sendo emitido apenas das cobertas.

Apenas roupas nos separando.