Let the Snow

21 Sempre fui


– Olha só. Já são dois mil, trezentos e cinquenta e cinco retweets na nossa foto e eu a postei ontem. Não é incrível?

Eu mudava o canal da televisão quando o Doug me disse aquilo.

– Como? — Pergunto, engatinhando até ele e observando a tela de seu celular por cima de seu ombro.

– Eu... Postei a nossa foto no Central Park ontem. Já saiu em alguns sites. Você está famosinha. — Ele ri.

Eu pego o celular de suas mãos, ignorando o "Hey!" e observando melhor. Eu não estava com minha melhor cara — na verdade, nenhum de nós estava devido as caretas — porém, a quantidade de retweets era imensa. Os comentários variavam entre "Quem é essa?", até "Que inveja!".

– Eu não fiquei legal nessa foto! — Falo depois de um tempo.

– Estamos fazendo careta, a intensão é não ficar legal na foto. — Ele revira os olhos.

– Eu sei, mas mesmo assim, eu...

Batidas na porta. Rápidas e firmes.

O homem entra na sala e seus olhos pousam em mim por uma fração de segundo antes de encontrarem o rosto de Douglas. Ele é um homem bonito, seus olhos castanhos são misteriosos e seu terno é de grife. Ele nem sequer me cumprimenta antes de dirigir-se a Douglas.

– Preciso falar com você.

Engulo em seco. Como aquela coisa poderia ser meu pai?

– Ham, claro. Alex, eu acho que vocês ainda não foram apresentados, mas essa é Alexandra. Alexandra, esse é Alex, meu empresário.

– Claro. Eu já ouvi falar dele. — Digo, me levantando e esfregando as mãos nas calças, pouco a vontade enquanto Alex Watts fazia de tudo para não estabelecer contato visual comigo.

– É um prazer conhecê-la, senhorita Alexandra. — Sua voz soa falsa e forçada — Enfim, Douglas, o assunto é confidencial.

Doug pigarreia e me lança um olhar de desculpas.

– Claro, sem problemas, Doug. — Digo, dando as costas e saindo do local.

~

– ...E ele mal olhou para mim! — Digo, gesticulando bastante.

– Que cara de pau! — Fred Welsome diz em meio a um gole de seu chá.

Toda a vez que eu o encarava era difícil não rir; Ele usava uma pescoceira terrivelmente desnecessária devido a paulada na nuca na noite anterior.

– Sim, eu tive que me segurar para não dizer nada a ele. Muito otário. — Bufo.

– Na real, aquele homem é do mal — Fred conta mais cinco gotas de adoçante em seu chá frio — Como ele pode fazer isso com a própria filha?

– Algumas pessoas nascem para fazer maldades. — Dou de ombros — Mas, eu não ligo para isso, sabe? Desde que não interfira na minha vida ou na de mais ninguém, tanto faz.

Ouço um grito alto.

– Ai, meu Deus. — Esguincho antes de correr para a sala de estar.

Douglas estava ali. Ajoelhado no chão, com a cabeça baixa, fazendo meu coração parecer explodir. Me jogo a sua frente e seguro seus ombros, o chacoalhando com força.

– DOUGLAS! O QUE ACONTECEU, DOUGLAS? — Berro, em uma pilha de nervos.

– Eu... Consegui... Consegui... — Douglas murmurava.

– Conseguiu o que Doug, conseguiu o quê?! — Pergunto, fitando seu rosto.

– Consegui o papel, Alexandra! O papel é meu! — Ele ri, levantando para o alto uma papelada como se fosse um troféu.

Demoro para entender, mas entendo. O papel no qual ele tinha viajado até Los Angeles para fazer o teste. Eu havia lido sobre, parecia ser uma grande promessa para as bilheterias.
Sinto minhas pernas sairem do chão, Douglas estava me levantando.

– EU CONSEGUI! — Ele grita, para todos ouvirem — Consegui...

Agora eu estava ali, nos braços dele, nossos rostos quase colados. Seria naquele momento? Ele iria me beijar?

Douglas pousa meus pés no chão delicadamente, ainda sem soltar minha cintura. Devagar, ele pousa os lábios em meu rosto, em minha bochecha, desferindo um beijo longo e suave.

Abrimos os nossos olhos em uníssono.

Ambos sorríamos.

~

– Você viu a previsão do tempo para amanhã? — Doug diz, jogando uma bala para cima e a pegando com os dentes.

Nós dois estávamos deitados em sua cama, encarando o teto, em uma silenciosa disputa de quem conseguia comer mais balas no ar sem errar nenhuma, e eu havia errado todas. Era uma covardia! Afinal, não era ele que tinha problemas motores devido a um câncer.

Depois da noite passada, quando dormimos juntos, parecia que tínhamos dado início a uma nova atividade na rotina, já que ele não disse nada quando eu o acompanhei em seu quarto para uma nova noite de sono.

Jogo a minha bala para cima e não a pego por pouco.
Faço um sinal para ele, algo como "Viu só? Foi quase".

– Não vi, o que vai ter amanhã? Mais chuva? Não seria novidade.

– Não, nada de chuva. Neve. — Ele diz, jogando uma bala para cima e a pegando com os dentes, presunçoso.

– Neve?! — Pergunto, me sentando.

– Sim! Parece que uma tempestade de neve vem vindo para cá do norte. Vai nevar bastante amanhã! — Ele parecia animado.

– Uau! Eu nunca vi neve na minha vida... — Admito, pensativa.

– Não! Nunca viu neve? — Ele duvida.

– Nunca! — Faço beicinho.

– A senhorita "Neves" nunca viu "Neve". Que irônico.

– Não teve graça dessa vez, senhor Smith. — Digo, fria.

Ele ri e passa o braço ao redor da minha cintura, me puxando para perto. Eu deito em seu peito, suspirando. Nós estávamos tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Nossa intimidade nos dava permissão de beijos longos no rosto, abraços fortes, mãos nas cinturas e dormir juntos, porém... Parecia não parar por ali.

Será que ele me desejava tanto como eu o desejava?

– Alexandra? — Ele diz, se deitando ao meu lado e apoiando a cabeça nas mãos.

– Sim? — Pergunto, encarando o fundo daqueles intensos olhos azuis.

– Amanhã, se nevar, eu vou te levar para um lugar especial. — Ele diz, sonhador.

– Especial? Do tipo que você leva todas as garotinhas que dão mole para você? — Zombo.

– Não, especial do tipo que só eu conheço e quero compartilhar com alguém especial. — Ele soa sincero.

Engulo em seco.

– E eu sou esse alguém especial? — Pergunto, passando meus dedos pelos traços de seu rosto, sentindo-o arrepiar com meu toque.

– Sempre foi, Alexandra. Sempre foi.