Let the Snow

22 Play a game


Como previsto, a neve cai em camadas sobre o jardim. Acordei primeiro que Doug, correndo para a janela e observando com fascínio aquele fantástico fenômeno natural.

Sinto um movimento e logo Doug está atrás de mim, sua respiração fazendo cócegas em minha nuca. Ele passa os braços ao redor de meus ombros e pousa o queixo em meu ombro, precisando se abaixar para fazê-lo, devido a nossa notável diferença de altura.

– É lindo, não? — Ele pergunta em meio a um bocejo.

– Talvez a coisa mais incrível que eu já tenha visto. — Minha voz não passa de um sussurro.

Silêncio.

– Guerra de neve?

– Só se for agora. — Respondo.

~

Peguei emprestado um moletom de Doug e o vesti rapidamente, pegando as pantufas de Fred Welsome emprestadas-sem-pedir e correndo para o jardim. A neve era estranha em minhas mãos, fofa e letalmente gelada, porém, era divertido moldá-la. Corri e escondi-me atrás de um arbusto, observando atentamente a porta dos fundos, de onde eu havia saído e provavelmente Douglas me seguiria.

Silêncio por um longo tempo, a ponto de minhas pernas cansarem.

– PEGUEI VOCÊ!

Sinto algo gelado se espatifar contra as minhas costas. Me viro para ver um Douglas de toca azul e pantufas, rindo como um louco, protegido pela tampa da lixeira, que ele usava como um escudo.

– Isso não vale! — Grito, jogando a bola de neve que na direção de seu rosto, e errando por muito.

– Vale tudo em uma guerra! Aqui mulher não tem desconto! — Ele diz, jogando mais uma bola de neve, mas consigo me abaixar a tempo de desviá-la.

– Vou fazer você implorar por perdão, Smith! — Jogo-lhe várias bolas de neve de uma vez só.

Ouço um barulho na maçaneta da porta. Fred Welsome está ali, com a pescoceira ridícula e um copo de algo borbulhante em mãos.

– Pessoal, são apenas nove horas da manhã! Eu sou uma pessoa esforçada e estou cansado, preciso dormir! Então se vocês fizerem a gentileza de um pouco de silencio e uma pausa das atividades de um casal adolescente, eu realmente agradecer...

É mais forte que eu. Uma bola de neve explode no peito de Fred, fazendo-o cambalear para trás.

– Vamos, Welsome! Liberte-se dessa opressão careta e renda-se a nós! — Digo, em meio a uma risada.

Fred me encara com um olhar sanguinário.

– Essa foi a gota d'água, mocinha! Mais uma de suas travessuras infames e eu vou...

Jogo outra bola de neve nele, apenas por diversão. Eu queria acertar seu peito, porém, minha mão parece entortar. A bola de neve atinge com força a mão de Fred, que, assustado, derruba a xícara de café fervendo na neve.

Silêncio colossal.

Eu e Douglas nos entreolhamos, pois sabíamos o quão sério o café era para Fred.

– N-não... Não... — Fred se ajoelha na neve, apenas de roupão de banho e meias, a pescoceira impedindo-o de abaixar completamente a cabeça.

Ele me olha, como se fosse me matar.

– NÃO MEXAM COM O MEU CAFÉÉÉÉ! — Ele berra, e como uma máquina começa a fabricar bolas de neve com as próprias mãos, com a mira certeira acertando três de uma vez em meu rosto.

Ouço Douglas urrar de rir atrás de mim enquanto eu me engasgo com a neve. Fred não dava pausa, jogando neve em mim incessantemente.

Quando finalmente estou praticamente atolada na neve, ele para, e, batendo as mãos como se dissesse "Trabalho feito", dá as costas e entra na porta dos fundos, desaparecendo quando ela se fecha.

– O que aprendemos com isso? — Douglas pergunta, enquanto cava a neve de cima de mim.

– A sempre ter um escudo de lata de lixo para se defender de maníacos amantes de café? — Pergunto, me levantando debilmente com a ajuda de Douglas, sem conseguir sentir os dedos dos pés.

– Mais ou menos. A lição mais importante foi: Nunca, nunca mesmo, mexa com o café de Fred Welsome.

Ambos rimos.

~

– Onde é esse lugar? — Pergunto, observando pela janela do carro os flocos de neve caírem do céu

– É bem afastado. Só vou avisando para não pensar que estou sequestrando você ou algo parecido.

Suas palavras me fazem lembrar de Logan Lerman. Estremeço.

– Bem... Como você conheceu ele? — Puxo assunto.

– É engraçado. Uma vez, eu estava voltando de uma festa em New York, no meio de uma tempestade, quando me perdi. Acabei parando nesse lugar, e fiquei por lá até amanhecer. É realmente um lugar pacífico. Nunca mostrei para ninguém.

– Então... Devo me sentir lisonjeada?

– No mínimo. — Ele ri, sem tirar os olhos da rua.

Nos afastamos razoavelmente de casa, até mesmo da cidade. Começo a me preocupar quando pegamos uma estrada deserta, no meio do nada, com a neve nos envolvendo. Suspiro. Estava tudo bem, eu estava com Douglas; Ele sabia onde estava indo.

Entediada, abro furtivamente o porta-luvas. Um fone de ouvidos moderno de tom prateado ligado a um mp3. Pego e ligo-o, lendo a lista de músicas. Haviam algumas músicas onde o vocalista não cantava, ele berrava. Franzo o cenho.

– De Bob Dylan até isso? — Pergunto, roubando sua atenção da estrada por alguns segundos.

– Sou uma pessoa com um conceito musical diversificado. Problema? — Ele faz biquinho.

– Não. Nenhum. — Rio.

Coloco os fones de ouvido e fico atenta as letras das músicas enquanto encaro o vidro da janela.

Um tempo se passa até que sinto um cutucão no ombro.

– Estou te chamando a horas! — Douglas diz.

– Desculpe! Me perdi em pensamentos com suas "músicas diversificadas". — Sorrio, presunçosa.

Douglas ri.

– Chegamos. — Ele ri, balançando a cabeça algumas vezes.

Encaro em volta.

– Está brincando, não é? — Pergunto, duvidosa.

Afinal, estávamos onde? No meio do nada, com algumas poucas árvores e o chão a nossa volta cobertos de neve... E nada mais.

– Você vai ver, sua impaciente do caramba.

Douglas deixa o carro em ponto morto, e abre a porta, caminhando para abrir a minha. Meus pés afundam na neve densa, encaro em volta, um pouco nervosa. Douglas segura a minha mão e me guia até a frente do carro, envolvendo minha cintura e me levantando, sentando-me no capô do carro, logo fazendo o mesmo consigo.

– No três, quero que me imite. Tá legal? — Ele diz, esperançoso.

– Isso é ridículo. Estou com frio. — Faço birra.

– Um. Dois. Três.

Douglas se deita no capô do carro, de frente para o céu escuro. Com um suspiro, o imito.

Então entendo.

O céu naquele lugar era simplesmente inacreditável. Um milhão de estrelas pareciam explodir a cada simples piscada, vejo algumas estrelas-cadentes, porém, elas passam rápido demais para que eu pudesse fazer algum pedido. As estrelas tinham todas as cores; Azuis, brancas e vermelhas.

– Isso... É incrível. — Murmuro, uma fumaça quente se espalha pelo ar com minha respiração.

– Por isso que é meu lugar especial. As pessoas passam reto por essa estrada sem perceber a beleza que se esconde em alguns mínimos detalhes. Eu gosto disso. A beleza escondida. Me fascina.

Fico em silêncio por algum tempo, pois não consigo encontrar palavras boas o suficiente para responder àquela observação.

– Tudo bem com você? — Douglas diz, provavelmente interpretando mal o meu silêncio.

– Claro. Tudo ótimo, eu só... Vamos jogar um jogo?