Let the Snow

23 Ter medo


[...]

– Ah, claro. Que tipo de jogo? — Douglas pergunta, sem olhar para mim.

– Um jogo do tipo "Sim e não". Você pergunta, eu pergunto. Nada de "Sei lá" ou "Mais ou menos", o papo é curto e reto. — Digo.

– Ah... Ahm... — Douglas coça a nuca — Ahm, tudo bem, eu acho.

– Tá legal. — falo, nervosa — Você começa.

Douglas pensa por um tempo.

– Ahm... Você é... Menina? — Ele diz, rindo.

– Não, não. Imagine, eu sou um belo e irresistível machão. — Reviro os olhos.

– Tá legal, desculpe, estou sem ideias. — Ele diz, coçando o queixo.

Suspiro.

Sem arrependimentos.

– Você está apaixonado? — Pergunto, tentando passar uma imagem indiferente.

A expressão corporal de Douglas fica desconfortável.

– Olha, eu não... — Ele começa.

– Papo reto! — Falo, julgando-o.

– Mas acontece que eu não sei! — Ele diz, fazendo biquinho.

– Sim ou não. — Cruzo os braços.

Douglas suspira, quase que fazendo birra.

– Não sei. Sim. Eu acho. — Ele ruboriza, mesmo na escuridão consigo ver o vermelho em seu rosto — Tá, agora é minha vez. VOCÊ está apaixonada?

– Claro que estou. — Digo, revirando os olhos — E já deixei isso bem claro. — Sou grossa, os olhos de Douglas parecem assustados — Agora é minha vez. — Pigarreio — A garota que você supostamente está apaixonada sou eu?

– Chega. — Douglas se senta, abraçando os joelhos — Não quero mais brincar. Brincadeira chata. Nenhuma diversão.

Suspiro e me levanto, saindo do capô do carro e chutando a neve, irritada. Douglas me segue, segurando meu braço enquanto eu começava a chutar a neve com mais força.

– Qual é o seu problema? — Ele praticamente me passa um sermão.

– Você é o meu problema! — Digo, sentando na neve.

– Eu? O que foi que eu fiz?! — Doug parece ofendido.

– Você não fez nada, Doug, esse é o problema! — Falo, colocando as mãos em meu rosto — Eu amo você desde os treze anos. E quando eu te conheço, você me dá... Me dá esperanças, entende? Esperanças de que talvez você possa... Talvez estar... — Minha voz falha.

– A-Alexandra, eu nunca... Nunca... — Ouço-o pigarrear — Nunca pensei que pudesse estar fazendo algo de ruim para você, eu... Você sabe que são muitas coisas que podem nos... Distanciar e eu... Eu não acho isso certo. Nem com você, nem comigo.

– Como assim? Como assim não é CERTO? — Berro, me levantando e apontando para ele enquanto falava.

– Alexandra, você tem quinze anos, eu tenho vinte e três, e eu nunca senti isso antes. Não de verdade. É errado. Nós somos... Quero dizer, eu não sei... Argh, isso é tão confuso... — Ele diz, esfregando as mãos no rosto.

– Douglas, eu não sei se você sente o mesmo que eu sinto por você, mas... Cada vez que eu olho para você, sinto tremer minha alma. Quando estou com você, me sinto completa, sinto como se tudo estivesse certo em seu devido lugar. Sei que muitas coisas nos separam, idade, distância, mas... Eu estou aqui, agora. Ninguém pode me julgar, te julgar, desde que o sentimento seja verdadeiro, entende? — Limpo uma lágrima que escorre furtivamente por meu rosto — É por que eu sou nova? Ou é por que eu estou doente? Por que estou morrendo?

– Não, Alexandra, eu não...

– Do que você tem medo Douglas?! — Digo, insistindo.

– Eu tenho medo de te prender a mim! Tenho medo de me prender em você! Tenho medo que isso acabe por nos ferir, tenho medo de que se eu mergulhe de cabeça nisso, acabe sendo julgado, acabe saindo ferido, você entende? Eu não consigo explicar essa sensação que sinto com você, essa minha mania de sempre querer de agradar, de meus pensamentos, não importam o mais longe que estejam, sempre acabam a me levar até você! — Ele cruza os braços, encarando o chão — Eu tenho medo do que está acontecendo comigo. Tenho medo de nada dar certo. É disso que eu tenho medo.

Me aproximo a passos lentos que afundam na neve.

– Eu prometo que jamais irei te magoar... — Digo — Estamos aqui, agora. Por favor. Eu... Eu só quero realizar isso. Essa sensação que arde dentro de mim. Ninguém vai nos julgar, ninguém. Eu... Só quero viver o hoje, entende? Por que eu nunca sei se terá um amanhã.

Douglas permanece em silêncio. Eu me arrasto até o carro, pousando a mão na maçaneta, quando ouço-o me chamar pelo nome.

– Sim? — Pergunto, me virando e fungando.

– Eu posso fazer mais uma pergunta? — Ele pede.

– Pode. — Digo, sem conseguir olhar seu rosto.

– E-eu... Eu posso beijar você? — Por mais que sua voz não passe de um sussurro, suas palavras são firmes.

Seus olhos me fitam de maneira ardente.

Era tudo o que eu mais queria na vida.

– Douglas, isso dói. Dói muito. — Minha voz soa embargada — Mas eu não quero que você faça nada contra a sua vontade. Eu não quero que você sinta pena de mim, que você se sinta obrigado a...

– Eu não estou fazendo nada por pena. Nem por obrigação. Você não vê, Alexandra? Você é tudo o que eu mais quero. Tudo o que eu mais desejo.

– M-mas... Mas... — Sinto um rubor subir em meu rosto, uma chama acender em meu peito — O-o que você acabou de me dizer, sobre nós, e os outros...

– É um grande defeito que eu tenho. — Ele se aproxima lentamente — Dar valor demais para o quê as pessoas vão pensar. Eu preciso, eu tenho que viver o agora, sem ligar, eu ligo demais para o depois... Eu quero você, como quis ontem, como quis antes de ontem e como eu desejo incontrolavelmente agora. Eu só preciso saber se você... Também quer.

Nossos rostos estavam quase colados. Ambas as nossas respirações estavam aceleradas, como se tivéssemos corrido muito. Minhas mãos voam para as costas de Douglas, puxando-o para mim.

– Quero. É claro que eu quero.

Nossos lábios se tocam.

Fora um beijo intenso, um beijo quase desesperado, como se nossos corpos precisassem um do outro para continuar de pé. Eu agarrei seus cabelos, Douglas me sentando no capô do carro para não precisar se abaixar.

Um calor dominava todo o meu corpo, uma estranha sensação de vontade de arrancar as roupas que nos separavam.

Emily já havia me dito que sentira aquela sensação. Ela havia me avisado que era quase impossível resistir a ela.

Pois bem, eu não queria resistir.

A neve caia em flocos, colorindo o mundo de branco.

Porém, nenhum de nós sentia frio.