Let the Snow

13 Um livro do John Green


– Não, Douglas, essa realmente é uma péssima ideia. — Murmuro, cerrando os dentes de raiva cada vez que Douglas ria nas minhas tentativas desesperadas de agarrá-lo, com medo de cair.

– Confie em mim, tudo bem? Eu vou empurrar o skate devagar e você só precisa se equilibrar e...

– O quê? Não faça isso! — Berro.

~

O Central Park era simplesmente o lugar mais lindo que eu já havia pisado em toda a minha vida. Era tanta vida, tanto verde, amarelo, marrom e vermelho; Uma variação de flores em tons das mais belas cores. E tanta vida; Pessoas correndo e rindo, animais passeando com seus donos, ciclistas, vendedores, cada qual exalando energia.

Fred Welsome, como não era diferente, havia feito um bom trabalho comigo aquela manhã, deixando-me com uma aparência tão natural que até pensei que aquele poderia ser o meu verdadeiro rosto ao me olhar no espelho, de pele de porcelana, bochechas rosadas e lábios brilhantes.

Porém, eu havia vomitado aquela manhã, acordando com um terrível mal estar. Pensei em dormir até tarde, mas Fred Welsome invadiu o dormitório dizendo que Douglas Smith já estava mofando no sofá a algumas horas, argumento que foi suficiente para me fazer voar da cama.

Quando eu o vi zunindo pelas calçadas em cima daquela tábua com rodinhas, jamais imaginei que a ideia ali era ME fazer zunir pelas calçadas. Eu nunca havia feito nenhum exercício na minha vida, quanto mais andar de skate, porém, eu já havia levado tombos de bicicleta suficientes para saber que provavelmente eu não era muito boa com exercícios de equilíbrio — ainda mais agora, com um câncer que atacava meu sistema nervoso.

Já havia tido várias gafes desde o dia de ontem, movimentos involuntários, dificuldade para entender as palavras rápidas de Douglas e um cansaço que me obrigava a parar e me sentar antes de continuar alguma ação. Douglas provavelmente havia sido informado disso, pois não estranhava e/ou questionava quando eu pedia para repetir frases cinco vezes seguidas ou não conseguia segurar um objeto no qual ele me oferecia.

Eu realmente amava que ele estivesse tentando me fazer sentir "normal", ou algo do tipo, saindo comigo e tentando realizar espécies de lazeres "normais", mas como eu poderia lhe dizer que eu não estava em uma situação "normal", e que provavelmente cairia nos primeiros três segundos de equilíbrio em cima de um skate?

~

Era tarde demais. Douglas empurra o skate, devagar e cautelosamente, mas empurra. Eu nem tento; Simplesmente solto um grito agudo e me jogo por cima de Douglas, agarrando sua camiseta com força. O garoto cambaleia para trás, perdendo o equilíbrio — coisa que eu deveria fazer — e caindo de costas na grama, comigo sobre seu corpo.

Sinto meu rosto queimar, escondo minha expressão em seu peito, e solto um suspiro de alívio quando ele solta uma risada alta, e no final acabo rindo também. Porque, 1) todo o Central Park também ria de nós e 2) eu estava realmente inexplicavelmente feliz.

~

O sol estava se pondo, estávamos sentados sobre uma pequena elevação na grama verde o "Parque Central", o observando dar lugar a noite. Em algum momento Douglas retira um celular branco o visivelmente bastante caro do bolso da jaqueta verde que usava, se aproximando furtivamente de mim.

– O que acha de algumas fotos? — Ele pergunta, casualmente.

Penso. Ele queria tirar fotos comigo? Por que?

– Ah, claro, eu acho. — Engulo em seco. Nunca fora muito fotogênica, porém, ele era o Douglas Smith!

Douglas acaba por se aproximar BASTANTE — nossos corpos colados — e passar o braço ao redor dos meus ombros, segurando o celular e tirando várias fotos seguidas com a câmera frontal. Perdi a conta de quantos retratos foram tirados; Caretas, diversas expressões — medo, surpresa, tédio, felicidade suprema — até que ele pousa levemente os lábios em minha bochecha, enquanto eu ainda ria de sua expressão de fascínio obcecado.

Com o susto do não esperado, eu acabo por me afastar bruscamente, pequenas descargas elétricas estalando por meu corpo.

– A-ah, desculpe, eu nunca pensei que, quero dizer, eu sei que deveria ter perguntado, mas eu... — Douglas tenta se desculpar, pousando a mão livre atrás da nuca, visivelmente sem graça.

– Não! — Digo, quase que urgente demais. Ele havia beijado meu rosto, meu Deus, eu havia me afastado. O que havia de errado comigo?! — Eu que devo pedir desculpas, eu só não... Esperava. M-mas, se você quiser tirar u-uma foto assim, eu não me importo e...

– Não, Alexandra, tudo bem. Eu não quero que você faça algo contra a sua vontade. — Ele guarda o celular novamente no bolso.

Eu seguro minha vontade de gritar de frustração. Eu havia perdido uma chance! Jogado-a fora!

Espere ai.

Chance? Chance de que? De por acaso o ator Douglas Smith se apaixonar por mim e me beijar? De Douglas Smith perceber que eu sou o seu amor verdadeiro e ficar ao meu lado até o breve resto da minha vida? Não, eu estava delirando. Era um acarretamento de câncer cerebral; O delírio.

Aquilo ali era a vida real, onde atores de vinte e três anos não se apaixonavam por adolescentes sete anos mais novas simplesmente porque elas estavam prestes a morrer e as beijavam enlouquecidamente. Minha vida não era um conto de fadas, nem um livro do John Green, belo e trágico, era apenas uma vida que eu deveria dar valor por ser concedida uma dádiva de realizar meu maior sonho, que era conhecer meu ídolo e nada mais.

Eu me contento com seu braço ao redor dos meus ombros e apoio minha cabeça em seu ombro. Com o calor que ele me transmitia naquele clima frio de fim de Outono, do seu cheiro de grama molhada que eu já havia me familiarizado e que parecia me engolir aos poucos.

Admito, como toda a adolescente sonhadora, romântica e maliciosa, que era impossível não desejar mais.