Let the Snow
14 Poderia ser Verdade
– O que acha de encarar umas caras famosas ao vivo? — Douglas pergunta, jogando a bolinha de tênis no teto e pegando-a novamente.
Estávamos na sala de estar da sua casa, eu estava observando a lareira crepitar, sentada e afundada no tapete fofo e peludo, e Douglas, ou Doug, como ele havia pedido para que eu o chamasse, estirado sobre o sofá maior, jogando a bolinha no teto e a pegando novamente em um "ploc" deveras irritante.
– Como assim? — Pergunto, finalmente desviando meu foco de olhar da lareira — era fascinante ver as chamas lambendo a madeira — e observando seu rosto, sendo novamente dominada por um choque elétrico que corria da minha nuca até a ponta dos meus dedos do pé.
– Sabe o bambambam, Logan Lerman? — Ele pergunta, ainda jogando a bolinha.
– Claro que sei quem é Logan Lerman. — Reviro os olhos.
– Ele vai dar uma festa na mansão dele, e convidou, eu acho, praticamente todo mundo que já atuou com ele. Alexandra Daddario, Lily Collins, Nat Wolf, Pierce Brosnan, Brandon T. Jackson, Emma Watson, Ezra Miller são só alguns. E quando atores famosos convidam atores famosos, os convidados famosos convidam outros famosos para irem com eles na festa do famoso que convidou o famoso que convidou o outro famoso.
Pisco. O quê?
– Enfim, ele me convidou. E eu vou levar você. Certo?
– E-espere ai. Nesse lugar vão todos esses famosos que você falou e... Você vai, e tudo bem, mas agora... Está me convidando para ir?!
– Sim, claro. Eu não ia, só vou se você quiser ir. Por mim tanto faz. — Douglas parece indiferente.
– Por que você não iria?! — Pergunto, assustada.
– Muitos famosos, muito estrelismo, drogas, bebidas... Isso não é pra mim, sabe? Mas claro, tem a sua parte boa, como todos os famosos, fotos, publicidade e enfim, a música, a comida... — Ele apoia a cabeça nas mãos que estavam atrás da nuca.
– Parece ser divertido. — Nem consigo imaginar o quão errada eu estava.
– Certo. Então vamos. É amanhã. Oito da noite. Você precisa de ajuda com algo? Quero dizer... Essas coisas de garotas? — Ele parece confuso.
– Não, claro que não. Eu acho que tenho tudo do que preciso. — Minto. Não queria pedir nada para Doug, como por exemplo, uma roupa. O que eu ia fazer da minha vida?
– Legal.
Um violão começa a tocar suavemente, seguido com outros instrumentos que formam a doce batida de um Jazz; O celular visivelmente-bastante-caro de Douglas está tocando. Ele olha o visor antes de dizer:
– Preciso atender. Já venho. — E assim ele voa pelas escadas.
Fico ali por um tempo, pensando, formulando.
Uma festa na mansão do Logan Lerman. Convidados famosos. Não, aquilo não cheirava bem. Porém, era simplesmente irrecusável.
– EU OUVI TUDO! — Fred faz mais uma de suas aparições surpresa.
Aparentemente ele havia pulado de trás do sofá, me dando um susto tamanho que fora suficiente para me fazer tremer como se equilibrada em uma corda bamba.
– Você sempre fica nos espiando assim? — Pergunto, aborrecida.
– É o meu trabalho... — Ele murmura.
– Pensei que o seu trabalho fosse editar e traduzir, não ficar cuidando da vida alheia... — Digo.
– Detalhes, detalhes, agora me diga; Com que roupa você vai? Você só trouxe trapos naquela sua mala! — Ele diz, insensível.
– Minhas roupas não são trapos! — Berro e jogo uma almofada que acerta seu rosto, mas ele não se deixa abalar.
– Amanhã eu não quero que saia de casa. Tome um longo banho e durma até tarde. E faça o favor de tirar um pouco essa peruca, deixá-la arejar um pouco. — Ele sorri — Acredite, eu sinto que amanhã é o seu dia. Vou te transformar em uma diva!
~
Douglas aparece na sala e joga o telefone no sofá, ele quica e se cai no chão. Provavelmente não fora violento suficiente para causar algum dano realmente sério, mas fico chocada com a reação.
– O que aconteceu? — Pergunto, me levantando e caminhando até ele.
– Nada. — Ele diz, duro. Me encolho. Ele nota e abre um sorriso — Olhe, não foi nada com você... É só que tenho que viajar depois de amanhã. Ficarei uns dois dias por Los Angeles, meu empresário, Alex, conseguiu um teste para mim. E-eu perguntei se eu poderia te levar, mas ele falou não e eu discuti com ele, mas... Você vai ter que ficar aqui. E-eu... Me desculpe.
Engulo em seco. Eu, sozinha naquele lugar. Sozinha não; Eu teria Julia e Fred mas... Douglas não estaria ali. Seria deprimente.
Percebo que ele parece realmente chateado, então sorrio, tentando esconder minha total decepção.
– C-claro, Doug, não se preocupe, ok? Eu vou ficar bem. Não se preocupe. — Sorrio.
Ele se aproxima e me abraça forte, eu retribuo. Porém, as palavras de minha mãe me vem a mente e eu tenho vontade de chorar.
~
Minha mãe ligava exatamente três vezes ao dia; De manhã, de tarde e a noite, muitas vezes quando eu já estou dormindo.
Em cada ligação, as variações de humor me deixam louca. Ora feliz, ora irritada, é sempre uma surpresa diferente.
Naquele momento poderia-se dizer que ela estava cansada.
Eu lhe contei sobre a volta no Central Park — deixando de lado o skate e tudo que era perigoso ou arriscado, segundo ela — e sobre a aproximação de Douglas e como eu tinha certeza absoluta de que estava completamente apaixonada por ele.
Se o que eu esperava era congratulações e fogos, eu recebi tudo ao contrário.
Minha mãe me deu um sermão.
Me disse para não guardar esperanças, afinal, Douglas era um marmanjo, um homem adulto que se fizesse algo em sua filha poderia ser considerado pedofilia, que eu estava "perdida em um mundo de fantasias" que não existe, que ele tinha apenas pena de mim por eu ter câncer e para eu tomar vergonha na cara de ter dignidade.
Cada palavra era como um tapa na minha cara. Eu chorei silenciosamente enquanto ela berrava, e quando desliguei o telefone, enfiei minha cabeça no travesseiro para que meus soluços não ecoassem pela casa.
E eu só fiquei tão abalada por perceber que poderia ser verdade.
~
O abraço que Doug me dava parecia que iria durar uma eternidade.
– Sabia que eu adoro quando você me chama de Doug? — Ele sussurra no meu ouvido, enviando um calafrio por todo o meu corpo, fazendo-me estremecer.
– P-por que? Pensei que todo mundo t-te chamasse assim. — Digo, fraca.
– Só de você parece soar verdadeiro. — Ele sorri em meu ouvido — E é por isso que eu prometo fazer de amanhã um dia incrível, como um pedido de perdão pelos próximos dois. Tudo bem? — Ele segura minha mão.
"Por que está fazendo isso? Por que está me dando tanta esperança?", penso.
Agarro sua mão.
– Tudo bem. — Murmuro.
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