Let the Snow

15 O melhor pior dia


Acordei ao som do toque do meu visivelmente-bastante-barato-celular.

Minha mãe ligando. Suspiro, tento me manter acordada quando atendo.

– Alô. — Digo, fria.

– Alexandra? — Sua voz é cautelosa.

– Do que precisa? Estou bem, viva e respirando. Porém, ocupada. — Digo, faço ânsia de desligar, mas me detenho — Ah, esqueci de avisar, provavelmente não conseguirei atender o celular mais tarde, pois sairei com Douglas. Não perca seu tempo.

Então eu desligo.
Ah, meu Deus, que sensação horrível.
"Lembre-se das palavras dela", penso. "Lembre-se de como ela te magoou".
Limpo as poucas lágrimas que conseguiram fugir de meus olhos e vou para o banheiro, lavar o rosto.
Aquele seria um longo dia.

~

Douglas não estava em casa; Fred me disse que tinha saído sem dizer para onde iria.
Eu possuía dinheiro na mala — algo como cem dólares — mas não dariam para aquela ocasião. Fred Welsome estava me esperando na porta quando eu desci, nem ao menos deixou-me terminar o cereal antes de me arrastar porta afora.

– Muito tempo jogado no lixo com coisas fúteis! Precisamos comprar seu vestido! — Ele diz, me enfiando dentro de um táxi.
– Mas eu não tenho dinheiro! — Berro.
Ele revira os olhos e me joga um tipo de cartela em formato retangular.
Um cartão de crédito. "Fred Welsome", dizia.
– Explicado? — Me diz, antes de informar o taxista de que iriamos para a Time Square.

~

– Vamos, vamos, feche a boca e comece a andaaar! — Fred diz, empurrando minhas costas.

Eu não conseguia andar nem falar, apenas observar tudo... Aquilo.
Incrível, algo completamente futurístico. Minha boca permanecia aberta enquanto todos aqueles painéis brilhavam e mostravam imagens, os carros buzinavam alto e haviam tantas pessoas amontoadas que eu estava ficando com dores de cabeça. Um novo mundo, trezentos anos mais adiantado do que tínhamos no Brasil.

Fred Welsome murmurava "Excuse me", enquanto me arrastava no meio da multidão.Depois de um tempo andando, finalmente entramos em uma loja, o choque térmico — do frio para o calor aconcheante do ar condicionado — me faz estremecer.
Aparentemente, Fred já havia ligado para a loja e separado o meu modelo — segundo ele, um modelo acessível sem deixar de ser caro — e havia me levado para experimentar. Quando eu vi o modelo, não acreditei na beleza; Curto, em um tom de bege claro, clássico porém extremamente elegante.

– Desde quando sabe meus gostos sobre moda? — Pergunto para Fred, com as mãos na cintura, brincando.
– Desde que virei seu estilista/maquiador/secador de lágrimas. — Ele me lança uma piscadela antes de se virar para a vendedora — Vamos levar.

~

Consegui convencer Fred a não parar para comprar sapatos, primeiramente por que eu tinha uma sapatilha preta nova na mala, e por segundo por que eu estava quase desmaiando. Tudo era muito vivo e bonito, mas logo a multidão de pessoas foram me desesperando aos poucos.
Pegamos outro táxi e enfim chegamos em casa.
Quero dizer, na casa do Douglas.

Fred mandou-me tomar banho enquanto "hidratava" o meu "enfeite de cabeça" — como ele apelidou carinhosamente os cachos falsos — e mandou-me vestir o vestido. Eram 19:00H em ponto quando Douglas chegou.

Eu estava sentada no sofá, jogando a bolinha de tênis deixado por ele ali, um dia atrás. Me virei para vê-lo, e não sei qual dos dois expressaram maior expressão de surpresa.

Ele estava lindo, com uma jaqueta xadrez em tons de branco, verde e laranja, calça caqui branca e tênis. Seus olhos estavam mais azuis do que nunca, seu sorriso brilhava.
Somente então percebi que ele me encarava fixa e surpresamente. Fred havia me dito que a maquiagem era "ousada sem ser vulgar", usando o delineador em estilo gatinho, e admito que realmente gostei. O vestido parecia ter sido feito para o meu tipo de corpo, meus cabelos falsos estavam presos em um penteado de festa, um coque. Eu me sentia bonita, porém... Não imaginei que Doug notaria e ainda mais agiria daquela forma.
Ele se aproximou e, olhando em meus olhos disse:

– Você é a garota mais linda que eu já vi na minha vida.
– N-não e-é bom mentir, Sr. Douglas. — Repreendo-o, minha voz soa trêmula.
– Eu nunca minto. — Ele sussurra em meu ouvido, enviando outras daquelas já familiares sensações de choques elétricos — Você está linda. Linda.

Engulo em seco, completamente sem graça.

– Julia, Fred? Estamos saindo! — Doug diz, me puxando pela mão.
Eu observo os outros dois enquanto Doug me arrastava para dentro de seu carro -um modelo grande e que poderia ser considerado de luxo por mim -, e Fred me manda um sinal de joinha com o polegar esquerdo.

Estava começando. A pior melhor noite da minha vida estava por vir.