Let the Snow

28 Trocando o rumo


[...]

– Então eu o mandei tomar em seu orgão excretor, e logo ele me jogou para fora do avião só com a minha mala. Digamos que até que eu me estabeleça, estou completamente perdido aqui. Não tenho dinheiro, só dolares, e se sua mãe não deixar-me ficar na sua casa, posso até virar um mendigo. O que seria ridículo, afinal, eu passo, lavo e cozinho.

Emily me encarava com um ponto de interrogação no lugar da expressão, um pouco desconfortável por não saber do que estávamos falando. Naquele momento, eu me remoía em nervosismo. E se minha mãe não aceitasse Fred? Meu padrasto jamais aceitaria algo parecido. Onde ele ficaria? O que faria da sua vida?
E Fred? Se ele ficasse, será que contaria algo desagradável para minha mãe?

Vejo de longe os cabelos loiros e cacheados de Mariane Neves, seus olhos verdes procurando-me pela multidão do aeroporto. Me levanto e aceno.

– Mãe! — Digo, indo até ela.

Minha mãe sorri, e me dá um abraço longo e apertado. Aquele seu ato pode, nem que por um mísero, abrandar um pouco o buraco negro que estava aberto em meu peito.

– Minha garotinha, que saudades que eu estava de você! — Ela diz, afagando meus cabelos.

– Eu também estava, mãe. — Sussurro.

Nos separamos um pouco hesitantes, até que Emily e Fred vem até nós. Minha mãe fita o homem alto com o cabelo lambido em gel com um olhar desconfiado, porém, Fred não se deixa abalar.

– Prazer em conhecê-la, Mariane Neves. Temos muita coisa a conversar.

~

– ...Alex Watts? É esse o nome dele agora? — Minha mãe solta uma risada alta, amarga e debochada.

Estávamos todos dentro do Celta preto de duas portas de minha mãe, Fred Welsome e Emily esmagados nos bancos traseiros. Minha mãe parece ter se simpatizado com Fred, que não hesitou em despejar tudo sobre Alex Watts de uma vez — desde como fora contratado para me observar até a discussão — sobre os ombros dela, que pareceu ter recebido as informações com ódio.

– Sim. E, depois disso, eu acabei sendo despedido. E agora eu estou completamente perdido e...

– O que ele quer dizer é se ele pode passar um tempo conosco, até conseguir ajeitar a vida dele. — Digo, direta, porque sabia por experiência própria, que minha mãe odiava enrolações.

– Alexandra! Quanta falta de sutileza! — Fred me repreende.

Minha mãe fica em silêncio por um milessegundo antes de responder.

– Não, mas é claro que sim. Você já fez tanto por minha filha, é o mínimo que eu posso fazer.

Fred dá um sorriso largo.

– Obrigada, senhora Neves. Ah, e eu tenho mais coisas para falar. — Sua voz fica séria — Coisas importantes.

Minha mãe franze o cenho, encarando a pista da rua a sua frente.

– Coisas importantes? O que mais é importante?

Sinto meu coração falhar. Será que ele falaria algo sobre Douglas e eu? Minha mãe iria enlouquecer.

– Olha, eu acho que podemos conversar sobre outras coisas quando chegarmos em casa... — Digo, desconfortável.

– Sua filha teve uma convulsão. — Fred é direto.

Minha mãe freia o carro com violência, os pneus cantando no asfalto, fazendo os outros carros ao redor buzinarem, e meu corpo ser jogado para frente. Fico aliviada por Fred não ter dito nada sobre Doug e eu, mas não menos irritada por ele ter aberto a boca.

– O QUÊ?! — Ela e Emily gritam em uníssono, ambas me encarando com incredulidade.

– Mãe, eu ia te contar... — Falo baixinho.

– Como o dinheiro é poder, eu consegui cópias dos exames de Alexandra, e tenho preocupações, principalmente com os remédios. Precisamos fazer os exames o mais rápido possível, pois tenho uma pequena preocupação de que Alexandra seja incompatível.

Minha mãe ignora as buzinas ao redor, pousando o rosto nas mãos.

– Isso é praticamente impossível... — Ela murmura.

– Precisamos levá-la ao hospital o mais rápido possível e verificar seu estado e fazer alguns exames de sangue. Acho que o quadro dela está piorando. — Ele diz, sem pudor.

Minha mãe se vira para Fred, encarando seu rosto.

– Como você sabe tudo isso? — Ela pergunta, quase que desconfiada de que ele pudesse estar mentindo.

– Não sou só um espião e um poliglota. Sou editor e um bom enfermeiro. Porém, ninguém precisa ser médico para ver que a sua filha está piorando.

Minha mãe faz um retorno ilegal, dobrando a esquerda de uma rua, mudando o rumo de onde íamos.

– Para onde vamos? — Pergunto, me segurando com força no apoio acima do vidro do carro.

– Para o hospital. Seu pai pode não ligar, mas EU me preocupo com a minha filha. — Ela diz, acelerando o carro.