Let the Snow

29 Motivo de lágrimas


Fui internada na mesma hora.

Bastou minha mãe informar aos enfermeiros sobre meu caso — E Fred não ajudou muito ao manusear toda a história para que parecesse pior — que eles já utilizaram o quarto vago para continuar o tratamento.

Minha mãe e eu estávamos sentadas em um banco desconfortável, esperando meu nome ser chamado para os exames de sangue. Eu examinava meus dedos, tentando entender como tudo poderia ter mudado de uma hora para outra. Eu estava com Douglas Smith, de repente meu pai me humilha e agora eu estava no hospital. Como tudo poderia ser tão... Rápido?

Ouço minha mãe pigarrear.

– Ficou bonita em você. — Ela murmura, meio sem graça — Os... Cachos. Naturais.

– Ah. Ah é. — Digo, tocando nos meus cachos falsos — Eu não agradeci. Obrigada, são fantásticos.

– Eu pensei que iria gostar. Mas sabe que não precisa usar o tempo todo, não é?

– Sei sim, mãe. Mas... Eu gosto assim.

Minha mãe suspira e pousa a cabeça em meu ombro. Naquele momento em me sinto estranha, sinto lágrimas queimarem meus olhos.

Tudo tão rápido. Uma mudança tão bruta. Saudades tão avassaladoras.

~

Fred Welsome me dá o celular, com urgência. Ainda estou sonolenta, mal consigo abrir meus olhos direito.

– A-alô? Doug? — Sorrio enquanto falo.

– Alexandra. Como você está? — Ele pergunta, um suspiro interfere a ligação.

– Estou bem. Apenas de observação, sabe, quimioterapia e esse tipo de coisa. Meu quadro está congelado, nenhuma melhora, mas também nenhuma piora. E você?

– Estou... Razoavelmente bem. As gravações já começaram aqui em Chicago, está chovendo bastante. E Alex disse que se der tudo certo com as bilheterias, posso ser convocado para mais uma franquia. — Ele diz, orgulhoso.

Eu e Fred tínhamos concordado em não dizer nada sobre o vôo para Doug. Sabíamos que não traria nenhum benefício para ninguém, pelo contrário absoluto.

– Isso é ótimo Doug. — Sorrio, mesmo sabendo que ele não poderia ver.

Silêncio.

– Sinto sua falta. Todo o dia. Toda a hora. — Ele finalmente diz.

Um nó se forma em minha garganta, mordo meu lábio inferior com força para evitar um soluço.

– Você não imagina o que eu sinto, sempre que eu acordo pensando que você estará ao meu lado e não encontro ninguém, Doug. Dói demais. — Admito.

Ouço Douglas soluçar. Eu não queria fazer aquilo com ele, não queria que ele se sentisse culpado, não queria ser o motivo de suas lágrimas. Limpo as minhas rapidamente, pigarreando para minha voz deixar de embargar.

– M-mas eu estou bem, está tudo bem, nós estamos bem, isso que importa. Certo? — Falo, com a voz mais alegre que consigo.

– S-sim. Mas eu não esqueci o que prometi, e estaremos juntos novamente em breve. — Ele dá uma longa pausa — Estão me chamando, eu tenho que ir. Amo você. E... Espero que você não tenha se esquecido do que me prometeu.

A ligação fica muda.

Encaro o celular por alguns minutos antes de depositá-lo na mesa ao lado da minha cama. Eu me lembrava sim, de prometer jamais magoá-lo.

Em alguns momentos, me questionava se conseguiria manter esse juramento.

~

Minha mãe ainda tinha um marido e um filho menor. Ela trabalhava, de vez em quando indo visitar meu leito furtivamente, mas jamais conseguindo ficar mais que alguns minutos. Fred Welsome estava sendo simplesmente essencial para mim. Ele dormia comigo no hospital quando minha mãe fazia hora extra, e quando não fazia também. Me auxiliava com dúvidas que outros enfermeiros não me diziam, como por exemplo, se eu estava piorando ou melhorando. Me dava atenção integral, jamais deixando-me cair no tédio, sempre inventando algo para me entreter e tentar me fazer sentir menos morta.

Era hora da quimioterapia. Ele me levou até a sala, segurando minha mão com uma das suas e o meu soro venoso na outra. Ele me contava piadas e não fazia caras estranhas quando eu vomitava.

Emily também se mostrou ainda mais companheira do que eu achei que fosse possível, ao aceitar decorar duas folhas de falas para apresentar uma "mini-peça" com Fred, sobre uma garotinha que tinha encontrado o amor da sua vida e logo depois eles foram separados.

O desfecho da história seria deles se encontrando e vivendo felizes para sempre, segundo Fred, porém, eles pararam quando eu comecei a chorar.

~

– Os exames de sangue comprovaram o que o senhor Fred já havia nos dito. — O médico encara o rosto de Fred Welsome — Pelo jeito seu organismo rejeitou o efeito dos remédios, e, para ser sincero, fico surpreso de como o seu quadro se manteve até mesmo estável perto do que poderia ter acontecido.

Encaro meus dedos. Fred, preocupado, pergunta:

– Mas... E agora? Quais serão os remédios que ela deverá tomar?

O médico olha meu rosto.

– Cogitamos a possibilidade de receitar esse remédio na primeira vez, por sua ação ser rápida e eficaz. Mas os efeitos colaterais são... Fortes, digamos assim. Porém, agora, não temos escolha, precisamos reverter o seu quadro em 85% para pelo menos deixar como estava quando você saiu daqui, então, concordamos que ele será o melhor. — Ele pega um vidro escuro e me mostra. Leio "Carbamazepina" — Você tomará três comprimidos por dia, acompanhados da refeição, e é de extrema importância que os TOME de verdade. O comprimido pode ser grande e ter um gosto desagradável, mas você sabe, é para o seu bem.

O médico pega delicadamente o vidro de minhas mãos e começa a sair do quarto.

– Doutor? — Fred o chama — Posso falar com você em particular?

– Claro. — Ele responde, prestivo, porém, parece entediado.

Fred guia-o para fora do quarto, eu o encaro com curiosidade. Ele faz um gesto com as mãos, uma rotação entre os dedos indicadores, e soube que ele me contaria depois.

Porém, ao ver as suas reações pelo vidro da janela, enquanto eles conversavam — Coçar a nuca, esfregar o rosto, roer as unhas — perguntei-me se ele realmente me diria exatamente o que o médico lhe havia dito.