Let the Snow

1 Típica Adolescente


[...]

Eu tinha 13 anos na época. Usava aqueles aparelhos gigantes que saiam da boca e faziam volta em nossa cabeça, usando a camiseta laranja do acampamento da minha série de livros favorita, sentada em uma poltrona no centro do cinema, esperando ansiosamente o início do filme que era baseado naquela obra literária que eu tanto amava.

Particularmente, eu já escondia uma paixão secreta por aquele personagem, mais do que qualquer outro de qualquer outra trilogia, saga ou o escambal que eu já havia lido. E quando eu o vi criar vida dentro daquela maldita sala de cinema... A bomba explodiu.

O filme em si era uma porcaria. Nada era igual ao livro, cenas que eu sonhava em ver, deletadas. O que o salvou fora a atuação do ator desconhecido como o bobo Tyson, seus olhos azuis, quando fitavam a câmera, pareciam abrir uma cratera em minha alma.

~

Ali estava eu, com 15 anos na cara. Indecisa se eu esmagava ou não aquele vulcão prestes a entrar em erupção no centro da minha testa — mais conhecido como espinha.

Como eu poderia atender a um leitor daquela maneira? Eles poderiam se assustar, ou se lembrar de mim como "a atendente de cabelo cacheado e olhos castanhos com uma grande espinha no centro da cara".

No final, decido que é melhor não dar fim a ela, pois não gostaria de ter o título de "grande espinha no centro da testa" substituído por "de testa rosada e sangrando".

Arrumo o meu avental preto com os dizeres "Posso ajudar?" e o símbolo da livraria onde eu trabalhava, e saio do banheiro do Shopping.

Minha amiga, Emily, diz que eu tenho sorte em trabalhar em um lugar da "Alta Burguesia", com ar condicionado, e, acima de tudo, com o que eu gosto. E na verdade, ela tem razão; Não conseguiria trabalhar com algo que não fosse recomendar livros para estranhos, sentir o cheiro das páginas recém impressas, contabilizar o número de livros da encomenda.

Agora, claro que haviam as desvantagens, e essas eram poucas, porém questionáveis. A tentação de pegar um daqueles livros da pré-venda, e escondê-lo na bolsa, era simplesmente enlouquecedor. E além do mais havia... As perguntas.

"Quantos anos você tem? Parece nova demais!"
"Nossa, já trabalha com essa idade?"

"Você sabe demais para alguém tão pequena!"

~

Eu acho que é doença.

Mas minha médica me disse que era apenas um atraso de afloramento, que logo logo meu corpo ia finalmente acordar. No lugar dos seios havia uma bela tábua muito útil para passar roupas. No lugar do meu rosto, estava implantado uma face infantil, imatura e bebêlística. Alguns colegas de trabalho meus me chamavam de "Querubim", devido a minhas bochechas rosadas e meus cabelos loiros e cacheados, e me garantiam que aquilo era um elogio.

Eu não concordava com aquilo.

Minhas curvas só apareciam quando eu usava roupas que implantavam em minha pele, tão coladas quanto minhas órbitas.

Era rotineiro a situação de me oferecerem cardápios infantis em restaurantes, lojas em promoção darem-me aqueles balões de brinde e eu ter que apresentar carteira de identidade em cinemas para comprovar que minha idade era maior que doze anos.

Já pensei em tentar utilizar alguns métodos embelezantes para tentar aumentar minha idade aparente, como mechas coloridas nos cabelos, piercings e maquiagem pesada, porém, nenhum deles passara pelo teste de "Será-Que-Isso-É-Recomendado-Para-A-Idade-Dela", ou seja, eu continuava parecendo uma criança da quinta série em pleno Ensino Médio.

Acreditava eu, que aquele era o real motivo da minha problemática vida amorosa. Primeiro beijo aos 14 anos. Nenhum namorado. Nenhuma paquera (Retirando as paixões platônicas das crianças da segunda série por mim). Ser 100% inexperiente em quesitos de afeto amoroso.

Resumindo, eu era; Anã, com cara de bebê, leitora obcecada, uma típica adolescente de família média que morava no Sul da América do Sul, e acima de tudo, completamente obcecada, apaixonada e dependente por Douglas Alexander Smith.