Era uma Terça-feira.

Havia deixado meu irmão menor na escolinha, minha mãe havia ido para o hospital com seu jaleco branco de enfermeira, enquanto eu me localizava de pé no ônibus, completamente inerte em meus fones de ouvido, rumo ao colégio São Francisco.

Eu poderia pegar qualquer pessoa de dentro daquele ônibus... Ou melhor, qualquer pessoa em um raio de dez mil quilômetros, e perguntar se conhecia aquela banda. Se conhecia aquela música. E todas as respostas seriam simples: Não.

A banda não era conhecida, não era nem mesmo uma banda; Foram uns amigos amadores que se juntaram para fazer um som e receberam um convite de apresentarem-se em um programa de televisão não tão nobre dos EUA. E o vocalista? Douglas Alexander Smith.

A música entrava em mim como oxigênio, eu sentia a batida em meu peito. Era algo do Jazz com um pouco de Country e uma batida Pop, algo estranho de se distinguir. As pessoas, apressadas e impacientes, passavam por mim para o fundo do ônibus, procurando um lugar para manterem-se razoavelmente confortáveis enquanto de pé, e no trajeto pisando em meus pés, os zípers de suas bolsas trancando em meus cabelos, encoxadas, empurrões, mas eu simplesmente não ligava; Não ligava porque aquela música era sagrada, e eu só deveria ouvi-la de bom humor. Então, espero ela terminar para poder resmungar.

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Chegando na escola, encontro minhas amigas, Emily e Laura, me esperando em frente a sala de aula. Como eu, como todos naquela escola, elas usavam o uniforme vermelho, cinza e branco do colégio, tênis e nada de maquiagem. Por ser um colégio cristão, as regras eram muito rígidas, o controle de rebeldia presente. Elas murmuram um "Oi, Alexandra", e entramos para a aula, tentando nos preparar psicologicamente para dois longos períodos de matemática.

Eu retiro meus cadernos com posters que imprimi da internet (Afinal, para as revistas, Douglas não era famoso o suficiente digno de um pôster) do meu Smith escondendo as capas originais sem graça. Dou uma olhadela em Felipe, o garoto novo da escola, que se sentava a minha esquerda. Ele era bonito, e bastante calado, ignorava aquelas garotas que o convidavam para andar com elas no intervalo e vivia de fones de ouvido, e aquilo me chamava atenção. Eu possuia uma estranha atração por garotos cheirando a encrenca.

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Estou escrevendo quando a caneta voa de minha mão.

Piscando algumas vezes, junto-a, e ela escapa novamente, e percebo que fui eu que a derrubei novamente. Eu a junto umas três vezes, mas ela insiste em cair, até que eu começo a resmungar, porque todos começam a falar ao mesmo tempo a minha volta, e aquilo estava me desesperando.

– Alexandra? Está tudo bem? — Ouço a voz de Emily em minhas costas.

Engulo em seco, respirando fundo.

– Está. — "Precisa estar", penso.

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De uns tempos para cá, eu não poderia me dar ao luxo de ficar doente. Minha mãe e meu padrasto trabalhavam o dia inteiro para poder sustentar a casa e o aluguel, e eu era responsável por pagar algumas contas da casa com o meu trabalho. Eu largava meu irmão, Matheus, na escola, e eu ia pegá-lo depois; Eu o alimentava e cuidava até minha mãe chegar, acompanhado do pai dele, às oito horas da noite.

Eu era responsável demais, importante demais para poder me dar ao luxo de parar um segundo sequer.

Porém, algo me dizia que eu precisaria.

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Eu como um pão de queijo após a escola, à caminho da parada, para o segundo ônibus do dia, rumo ao outro lado da cidade, rumo ao Shopping center.
Estou concentrada entre uma mordida e o Twitter de Douglas S., no qual eu checava em meu celular. Vejo suas fotos de musicais em New York, tuítes antigos nos quais eu não cansava de ler, suas localizações, afinal, tudo.

A minha raiva, era que ele não era famoso.

Sim, ele interpretara papéis em cinema, porém, sua fama era local; Nenhum filme no qual ele participara fizera sucesso suficiente para ele ser reconhecido mundialmente. Eu via suas fotos no Twitter, e sentia raiva, de mim e universo, afinal, o cara andava livremente pela Time Square. Se eu morasse lá, eu poderia encontrá-lo. Se eu encontrá-lo, eu poderia abraçá-lo. Se eu abraçasse-o, eu poderia nunca mais largá-lo.

Era assim.

Minha vida era movida a seguidos incertos "E se".

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Já é o quinto cliente que eu atendo naquela tarde, uma senhora que leva para casa suspeitos livros pornográficos. Eu não rio, afinal, meu trabalho não é opinar, e sim, vender.

Jonas, o mais próximo de um amigo que eu tenho no trabalho, mais uma vez me chama de Querubim, mas se desculpa arrumando o broche de placa no qual estava escrito o meu nome em minha blusa, minha identificação.

E então eu o perdoo, pois fazia muito tempo que nenhum garoto chegava tão perto de mim.

– Alexandra? — Ouço uma voz me chamar.

– Sim? — Me viro rapidamente para ver Lucas, o gerente, com seus olhos cor de âmbar e me encararem, sem expressar emoções.

– Você pode trazer para mim duas caixas com os lançamentos que estão lá em cima, aqui para baixo, por favor? Eu pediria para o Jonas, mas ele está atendendo. — Ele aponta para o garoto, que está aprofundado em uma conversa com uma garota.

Eu reparo o jeito que ele olha para ela, a flertando na maior cara de pau.
Eu gostaria que ele me olhasse daquele jeito.
Gostaria que alguém me olhasse daquele jeito.

– Claro. — Digo, por fim.

Então eu arregaço as mangas e subo as escadas para o andar de estoque, onde o cheiro das folhas dos livros era mais vivo do que nunca. Eu custo a encontrar a tal caixa com os novos Cd's daquela boyband britânica, e as empilho em meus braços, bufando com o peso.

Descer as escadas é um parto; Meus cabelos tapam minha visão e entram em minha boca, o suor escorre como lágrimas. As caixas retiram todo o meu poder de visão, mas, algo me diz que já estou no meio da longa jornada da descida.

É quando ela vem.
Forte, bruta, avassaladora.
Me atinge como um atropelamento, desmoronando todas as minhas camadas.
A dor tem início na base da nuca, como uma martelada, e se espalha pelo meu corpo, tão sutil quanto o veneno de uma cascavel.

Meus joelhos cedem.

Eu caio.

Tudo fica escuro.