Let the Snow
3 Clamar pela Morte
Eu não sei como parara ali.
Não me lembro de nada, nem ninguém, apenas uma longa e tortuosa sensação de ser queimada viva.
~
Houve um momento em minha vida, em que eu clamava pela morte.
As pessoas pensam que aquelas milhares de pulseiras são apenas para fazer estilo, porém, abaixo delas, há cicatrizes das quais não me orgulho.
Na verdade, fora logo após o meu primeiro beijo.
Fora na esquina fora da escola, com um garoto chamado Leonardo.
Eu não posso afirmar o porquê, afinal, o garoto era bonito, me tratava bem, e a sensação fora ótima, mas, logo após, eu me senti... Terrível.
Como se eu tivesse cometido o pior crime possível. Me senti estranha, não me reconheci, me arrependi.
Nunca encontrei ninguém que sentisse o mesmo sentimento que eu após o primeiro beijo. Minhas amigas me diziam que elas se sentiram maravilhosas, maduras e sexys, desejadas, finalmente afloradas.
Seria baixa alto estima da minha parte?
E as coisas pioraram com minha mãe.
Ela nunca estava presente em minha vida. Dava apenas atenção para Matheus e seu marido, nunca tinha paciência, e me entregava responsabilidades nas quais eu precisava arcar sem reclamar. E o pior de tudo; Eu nunca era recompensada.
Não podia sair com minhas amigas, pois ela sempre tinha um compromisso e eu precisava cuidar do meu irmão.
Não podia ir àquela festa pois era muito perigoso.
Não podia dormir na casa da Emily pois minha mãe não conhecia os pais dela, mesmo eu os conhecendo há anos.
Eu já ouvira falar de cortes. Quando soube pela primeira vez, achei ridículo. Se uma pessoa já sofre por dentro, qual era a vantagem em sofrer por fora também?
Mas, quando eu fiz pela primeira vez, pude entender.
O alívio, a sensação de peso retirado nos ombros.
Comecei a descarregar ali, tudo.
"Querubim, anã, criança, magrela, estranha."
Eu escrevia as palavras em meus pulsos e depois as via sangrar.
Sorria enquanto a dor latejava em meu corpo.
E eu só parei por causa dele.
~
Algo que sempre me assustou fora hospitais. E ainda por cima, acordar em uma maca, em um hospital, com a sua mãe te observando, como se planejasse onde ia abrir um talho com um bisturi.
Me sento rapidamente, e com isso, meu cérebro parece escorregar e bater no lado esquerdo da minha cabeça. Sinto como se algo puxasse de dentro do meu pescoço, e acho que minha mãe entende, pois me dá a lata de lixo em uma velocidade digna.
Eu vomito tudo o que comi pela manhã, ou seja, um resto de pão de queijo.
– O que estou fazendo aqui? — Pergunto para mamãe, nervosa.
– Você caaissidnasda. — Ela diz.
– O quê? — Pergunto, piscando algumas vezes, tentando entender se ela estava bêbada ou algo do tipo.
Minha mãe se aproxima e checa minha temperatura.
– Você caiu. — Ela repete.
– Ah. Ah. — Flashes de memórias me vêm a mente — Acho que eu cai das escadas, na livraria. — Concluo.
– Sim, eu sei disso. Você não só tropeçou, não é? — Ela diz, como se soubesse da respostas.
– Não! Foi uma dor. Uma dor aqui. — Digo, tocando levemente na base da minha nuca. — Eu nunca senti nada igual, foi algo agoniante.
Minha mãe passa a mão no rosto, limpando o suor. A senhora Neves parecia cansada. Apenas naquele momento percebo isso.
– Minha filha, segure esse copo.
Ela me oferece um copo de água. Com aquela visão, minha garganta seca; Eu estava quase morrendo desidratada.
Estendo a mão para pegar o copo, e então minha mãe o puxa para o lado oposto.
– Hey! — Digo, a encarando.
– Eu... Eu não fiz nada. — Murmura.
Ela pega um tipo de pasta que estava presa aos pés da minha cama, e anota, logo saindo do quarto. Eu engatinho até lá, e minha imagem reflete no espelho do quarto, me assustando.
Minha pele, que costumava ser sempre dourada, estava doentiamente pálida. Uma marca roxa de hematoma manchava um pouco abaixo do meu olho esquerdo, e havia um grande curativo em minha testa.
Eu pego a pasta aos pés de minha cama. A letra rápida e firme de minha mãe manda:
Eletroencefalograma, tomografia computadorizada e ressonância magnética.
Eu não era perita, e nunca me passara pela cabeça prestar medicina no vestibular, porém, acho que não era necessário oito anos de estudo para saber que aquilo não era bom.
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