Let the Snow

4 A merda de um tumor no Cérebro


Fazia quanto tempo que eu não via minha mãe chorar?

Eu não conseguia encontrar motivos suficientemente graves para fazê-la sofrer daquela forma. Fora apenas uma pergunta; Eu poderia ir ao curso de inglês?

Eu já estava ali há três dias. Minha mãe se recusava a responder perguntas, do tipo, o que tinha de errado comigo, com quem estava Matheus, quando eu iria embora e se já haviam informado à livraria onde trabalho o motivo das minhas faltas.

Ela apenas balançava a cabeça.

"Tudo em seu tempo, Alexandra.".

~

O curso de Inglês era importante para mim. Eu que o mantinha com o resto do meu salário, todo o santo Sábado às sete horas da manhã.

Estava cursando o último ano do ensino básico, ou seja, já dominava verbos, questões e respostas básicas para a convivência tranquila com um norte americano.

Eu treinava o inglês com alguns colegas, jogando jogos sem tradução e lendo manuais dos brinquedos do Matt, apenas esperando para treinar com a real pessoa que me motivara fazer aquele curso do inferno.

Douglas Alexander Smith.

Percebo que tudo o que eu fazia era pensando nele, para ele, quando eu visse ele.

Isso me assusta agora.

~

– Vamos para a biópsia estereotáxica agora. — Ouço a enfermeira que entra falar, mas sua voz soa como se estivesse embaixo d'água. Apenas consigo perceber que ela não é a minha mãe.

– Paciente terá anestesia local na mesa. — Consigo ouvir outra voz.

– Ela parece sedada. — Diz uma terceira.

– Faz parte de sua condição. — Escuto a primeira voz.

Consigo sentir que minha cama se movimenta, e eu quero me sentar para ver onde eles estão me levando. Porém, nada acontece.

Eu simplesmente não sinto.

Meus braços, minhas pernas, minha cabeça, eu não sinto nada.

Quando o foco volta aos meus olhos, consigo enxergar apenas alguns vislumbres de rostos cobertos por máscaras e uma luz ofuscante logo acima de mim.

Sinto meu peito subir e descer em uma respiração ritmada, mas eu quero gritar, perguntar o que está acontecendo, mas nada acontece, nada.

Eu fecho meus olhos, pois é o que me resta, e tento encontrar algo para esquecer o que está acontecendo.

Algo que possa me acalmar naquele momento.

Logo escuto a batida suave do Jazz, o violão ao fundo, a voz grave e controlada de Douglas nos dizeres da música.

~

Quando abro meus olhos, minha mãe está aos pés de minha cama, me observando.

Ela não diz nada, mas sua expressão diz muito; Uma dor e angustia que me fazem estremecer.

– Mãe. — Eu digo, minha voz soa estranha, minha boca parece abrir-se demais para pronunciar aquelas palavras. — O que há de errado comigo?

Ela suspira. Olha para cima, para baixo, fita os dedos.

– Você tem um tumor maligno no cérebro, Alexandra. Isso que está acontecendo. Por isso você se sente tão fraca, por isso você não come e não conseguiu pegar o copo, porque você tem a merda de um câncer incrustado no meio do cérebro.

Eu pisco algumas vezes.

Capito as informações, sílaba por sílaba.

Minha mãe é rápida com a lixeira novamente.