Let the Snow
5 Glioblastoma Multiforme
Você nunca imagina que vai ter um tumor no cérebro até descobrir que realmente tem.
Se, alguns anos antes, eu me perguntasse qual seria minha reação ao descobrir que meu organismo alimenta um verme em minha cabeça, provavelmente não conseguiria achar a resposta.
Na prática, eu vomitei.
Acho eu, que foi uma reação digna.
~
Meu guarda roupa inteiro está naquelas prateleiras ao lado da minha cama. Meus livros estão empilhados perigosamente na mesa de cabeceira ao lado da cama, o Sol entra pela janela.
O notebook velho da minha mãe está dando calor às minhas pernas, enquanto eu mexo sem parar.
Revejo o twitter de Douglas Smith.
Mexo nas redes sociais.
Mensagens de meus amigos, me perguntando o porquê das minhas faltas.
Penso em fazer um daqueles posts-bíblia, relatando que eu começaria uma longa batalha contra o câncer de cabeça, mas logo imagino os comentários de força falsos de pessoas que mal sabem quem eu sou, e desisto da ideia. Decido responder apenas para Emily, não esquecendo de pedir para que ela não contasse para ninguém.
Eu tenho vontade de sair da cama e dar uma volta, e reconheço que tenho força para isso. Naquele momento estou disposta a caminhar um pouco, porém, o que me resta é a iniciativa.
Eu não quero nada.
Só quero alguém para conversar.
Eu olho ao redor; O leito do quarto andar do prédio para pacientes com câncer é extremamente branco. O chão, o teto, as cortinas de divisória das camas.
Somente eu estou ali, o que é bom e ruim. Bom por não haver mais alguém com câncer no mundo, e ruim pois eu me sentia mais solitária do que nunca.
Então eu começo a imaginar. O vapor do chá que eu tomava contorna sua forma, como se ele estivesse ajoelhado ao lado de minha cama, me encarando. Seus olhos azuis sorriem para mim.
Eu penso em esticar minha mão minúscula e tocar seus cabelos cacheados, porém, admito que não sou tão boa em questões de imaginação para poder imaginar aquilo. Vê-lo é um sonho, agora, tocar seus cabelos é algo completamente inimaginável, a menos que se vivencie aquilo em carne e osso.
Eu sorrio em sua direção, e é como se ele me respondesse o sorriso, e ficamos naquela conversa silenciosa de sorrisos e suspiros.
– Alexandra? — Ouço a voz conhecida.
Tudo desaba. O vapor do chá de extingue, não há mais ninguém ao meu lado, sorrindo para mim.
Levanto minha cabeça, e encaro a forma sinuosa que me encara da porta, a pele marrom clara brilhando com os raios de Sol que entram pela janela do quarto branco.
– Emily? — Digo, sem acreditar.
~
– ... E quando recebi sua mensagem liguei direto para sua mãe. — Emily me conta como chegou ali. — E-então... É sério o negócio?
– Não, isso tudo, o hospital, os médicos, é tudo uma grande pegadinha que eu criei para zombar da sua cara. — Murmuro, revirando os olhos.
– Nem com câncer você deixa de ser irritante! — Ela diz, apertando o meu nariz. Eu a empurro.
Ela ri, mas logo seu rosto se fecha.
– Como você está?
– Péssima. — Suspiro. — Horrível.
Silêncio.
– Por que você estava sorrindo quando eu cheguei? — Ela pergunta rapidamente.
– O quê? — Digo, pois não entendo a palavras rápidas. Minha mãe me disse que fazia "Parte da minha condição".
– Nada, esquece. — Lanço um olhar sanguinário em sua direção. — Tudo bem, tudo bem... Eu não sei, eu fiquei te observando por um tempo, e você estava, tipo... Sorrindo para o nada, eu fiquei com medo de que... Você já começasse a pirar de vez.
Engulo em seco. O que ela quis dizer com "Já começasse a pirar de vez?"
– Eu estava imaginando o Douglas. — Admito.
– Ah, sei, aquele lá, Douglas Shmitt...
– Smith.
– Tanto faz. — Ela me observa — Você gosta mesmo dele, não é?
– Pra caramba.
Ela me fita por um instante antes de mudar de assunto.
~
Quando sozinha, eu abro o notebook novamente.
Decidida, clico na opção Google e digito.
Tumor no cérebro.
Nada muito informativo. Então, engatinho até os pés da cama e pego aquela pasta novamente, tentando encontrar algo que eu pudesse me basear.
Digito novamente:
Gliblastoma multiforme
Eu leio.
Leio.
Leio.
Então eu choro, pois é o que me resta fazer.
Afinal, eu tenho no máximo mais 14 meses de vida.
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