Let the Snow

6 Fazer as Malas?


Duas semanas.

Remédios.

Corticosteroides e anticonvulsivantes.

Em breve, a estreia não aguardada da merda de quimioterapia.

– Eu não quero fazer isso. — Digo para minha mãe, irritada.

– Não importa se você quer, você simplesmente VAI FAZER a porcaria da quimio.

– Nossa, que legal. — Murmuro, chorosa como criança birrenta.

Minha mãe revira os olhos.

– Vamos, não faça drama. Isso é para o seu bem, para poder tirar esse Grande Piolho da sua cabeça.

Eu quero dizer para ela. Dizer que já sei sobre o que eu tenho, uma câncer terminal que vai me matar em até 14 meses. Que quimioterapias e radioterapias não irão me ajudar em nada.

Mas eu vou para a quimioterapia, não por minha vontade, mas sim para agradar a minha mãe, o que, percebendo bem, é tudo o que eu fiz na porra da minha vida toda.

~

Quatro semanas

A doença já começa a se manifestar. Eu realmente me sentia doente naquele ponto, cansada, fraca. Movimentos involuntários eram feitos por mim a cada segundo, a lixeira sempre pronta para a ação ao lado da minha cama.

Eu apenas esperava morrer.

A quimioterapia estava acabando comigo. Aquilo não me ajudava, apenas me obrigava a lembrar de que tudo era besteira, de que eu morreria de qualquer forma. Morreria sem lançar um livro, sem beijar um segundo garoto, sem fazer sexo, sem comprar meu carro, sem ter filhos, e acima de tudo, sem conhecer o Douglas Smith.

Eu odiava chorar. Fui criada em um ambiente onde chorar significava demonstrar fraqueza, e fraqueza não era aceita na família Neves. Eu não chorei quando meu pai abandonou a mim e a minha mãe para morar fora com a amante. Não chorei quando tive uma fratura exposta do osso da perna, na segunda série, nem quando minha mãe me deu meu primeiro tapa na cara.

Mas eu chorei ao pensar que havia desperdiçado meus únicos 15 anos de vida trabalhando e estudando para nenhum futuro. Que eu amei 3 anos da minha vida uma pessoa, e nunca a conheci. Aquilo era injusto. Porra, um pouco mais de tempo, não?!

"Por favor", eu rezava toda a noite. "Um pouco mais de tempo".

Seis semanas

Eu já sabia pelas fontes do notebook, porém, não consegui agir de maneira ao menos razoável quando percebi que meus cabelos caiam em mechas.

Careca.

Anã, magrela, cara de criança e careca.

Olá, eu sou um duende.

Então meus cachos loiros foram tosados, e mais uma vez eu chorei.

Chorar, rezar e dormir.

Aquela era a minha vida desde então.

A sensação de ser careca era estranha, eu sentia como se a todo momento pessoas assoprassem minha cabeça. Calafrios percorriam minha espinha seguidamente, e aquela fora a bandeira que faltava. Agora, era como se tivesse uma placa fluorescente em cima de mim dizendo: ELA TEM CÂNCER! POR FAVOR, SINTAM PENA!

~

Nunca mais falara com Emily.

Ela simplesmente sumira do mapa, não entrava mais das redes sociais nem respondia às minhas ligações.

Talvez ela tivesse desistido de mim.

Talvez ela não quisesse sofrer em me ver daquela forma.

É quando sinto meu celular vibrar.

Deixo tocar, uma, duas, três vezes, simplesmente porque curto a música de toque.

Leio a identificação de chamada, o que me faz atender mais rápido; Emily.

– Alô? — Digo, aliviada — Nossa, Emily, onde você se me...

– Faça suas malas, Alexandra. — A voz diz, e consigo ouvir o sorriso em seus lábios — Você vai conhecer Douglas Smith.

Notas finais
Atenção: Próximo capítulo sem previsão. Afinal, terei de ir viajar por um tempo, e não sei se lá terá internet.