Let the Snow
33 Segurar as mãos
Cócegas nos meus dedos.
Cócegas não eram felizes, na verdade eram uma farsa. A pessoa poderia morrer de rir, mas na verdade ela estava morrendo por dentro!
Murmuro qualquer coisa para saber se estou debaixo d'água. Não estou. Isso significaria que eu não poderia cair. Junto forças para abrir meus olhos.
Estou sonhando.
Segurando a minha mão, está ele ali, me olhando com seus olhos azuis suaves. Eu gostava de sonhar com Doug. Era tudo perfeito! Perfeição era o parceiro da felicidade, e felicidade é o canal!
– Doug! DOUG, DOUG, DOUG, DOUG, DOUG!! — Digo, estendendo os braços para ele me abraçar, me sentia uma criança.
Ele tapa o rosto com as mãos e solta um soluço, mas mesmo assim me abraça. E eu sinto! Eu sinto! E o cheiro... Não podia ser! Eu sentia sonhos, mas agora, sentir cheiros em sonhos era... Impossível!
– Você está aqui? De verdade, de verdade mesmo? Está aqui comigo?! — Perguto, em dúvida.
– Ah, Alexandra... — Ele acaricia meu rosto — Eu estou sim. Estou aqui com você. E não vou sair daqui. — Ele funga.
Me aproximo com rapidez e puxo seu rosto. Eu vejo lágrimas neles, naqueles olhos serenos. NÃO.
– DOUGLAS, EU NÃO ACREDITO! — Berro, irritada.
Ele pisca algumas vezes, porém, se mantém sereno à minha reclamação.
– Sim? — Ele pergunta, acariciando minha testa.
Minha testa! Minha careca! Eu tinha desistido de usar a peruca fazia pouco tempo, porque ela pinicava demais! Porém, o que importava era a nossa felicidade, certo? Eu não estava bonita sem os cachos falsos, mas eu estava feliz, e se Doug realmente gostasse de mim, ele ficaria feliz por eu estar feliz!
Era tudo tão fácil!
– Eu NÃO ACREDITO que você é que nem eles! — Digo, e aponto para mamãe e Fred, que estavam de pé, encostados na parede, nos observando com expressões vazias — Você tem que ser como eu! Feliz! Já aturei mamãe e Fred, agora, você também? Não! Nãoo! — Digo, cruzando os braços de raiva.
Douglas limpa o rosto rapidamente.
– Não! Eu estou feliz. Muito feliz de estar aqui... De finalmente te ver de novo. Estava com tantas saudades.
Uma ideia me ocorre.
Se ele estava ali, o que tinha acontecido? E o filme dele? Ah, será que alguma coisa tinha acontecido com ele?
– FOI O ALEX WATTS, NÃO É? FOI ELE! AQUELE CANALHA! ELE QUE FEZ VOCÊ PERDER O PAPEEEL! VOU MATÁ-LO! — Grito, faço ênfase de me levantar da cama, mas então me lembro que não posso mais usar minhas pernas.
Douglas olha para Fred, que murmura algo que eu não entendo para ele. Minha mãe me encara surpresa, como se não soubesse o que estava acontecendo. E afinal, ela não estava! Eu que sabia falar inglês, e eu estava falando inglês naquele momento. Eu, Douglas e Fred. Nosso grupinho americano. Minha mãe não fazia parte dele. Coitada!
– Não, Alexandra, ele não fez nada! Na verdade, eu vim para cá porque eu... Fiquei de férias! Fiquei de férias e... Quis vim te ver, porque estava com muitas saudades! — Ele diz, com um suspiro.
– AAAAAh! — Digo, aliviada — Que bom! Por que não disse antes? — Falo, tocando de leve a ponta do seu nariz.
Flores. Ao lado da minha cama um grande buquê. Elas coloriam o quarto. Perfeitas!!
Pego uma e coloco em sob minha orelha.
– Estou bonita? Estou bonita? — Pergunto, risonha para Doug.
– Sim, está linda. — Ele diz, porém, sua voz continua triste. Mas ele sorria. Já era um começo!
Eu puxo ele e lhe dou um beijo. Eu gostava de beijar. Mas não qualquer um; Eu gostava de beijar o Doug. E não era só porque ele era o meu primeiro namorado, mas sim porque ele era o Douglas!
Ouço um som estrangulado. Vem da minha mãe.
Ah, meu Deus! Ela não sabia sobre nós, era para ser segredo!
– Ops! Desculpe mãe! Mas é isso que namorados fazem! — Cantarolo, era hora dela saber!
– Mas que merda é... — Ela começa a dizer.
– NOME FEIO, NOME FEIO! — Grito, apontando o dedo para ela, aquela boca suja.
– Mariane, por favor, não. Não na frente dela, agora que ela está assim... — Fred diz, chamando a atenção de minha mãe.
– Isso mesmo, Fred, ensine para essa boca suja como falar palavrão é feio! — Digo, cruzando os braços, me sentindo uma professora.
Douglas encara todos nós com uma cara confusa. De certo porque não entendia nenhuma palavra. Era engraçado, coitadinho!
– Não se preocupe, Doug, é melhor você nem saber o quê essa boca suja está falando! — Tranquilizo-o, dando leves batidinhas em sua cabeça, como um carinho.
~
Doug deixou de segurar minha mão depois que eu lhe expliquei sobre como, teoricamente, aquela ação não era própria para uma demonstração de afeto. Ele ficava ali, me encarando, e de vez em quando eu o puxava e lhe dava um beijo, e minha mãe fazia aquele barulho estrangulado estranho, mas que era engraçado, e me fazia rir.
Doug me dava comida na boca. Era legal, eu lhe pedir para fazer aviãozinho e ele fez. O gosto da comida ruim de hospital ficava mais saborosa quando ele me dirigia a colher até minha boca. Eu tocava o seu rosto enquanto mastigava, notando cada traço, desde suas leves marcas de expressão até os traços do seu queixo. Ele não dizia nada, e quando eu apertava a bochecha dele, ele ria e beijava minha mão.
Segurar a mão não. Agora beijar... Sim.
Beijar significava que você amava a pessoa. Porque você não a prende, você apenas demonstra o seu amor deixando-a com as mãos livres para fazer o que quisesse, tomar as decisões que quisesse, e que você mesmo assim a amaria. Que lindo!
– Eu também te amo! — Digo, mas eu estava mastigando, então minha boca fica suja de molho.
Douglas sorri, e limpa meu rosto com um guardanapo de pano.
– Não mais que eu. — Ele diz, com um suspiro.
~
– Por que está me olhando assim? — Pergunto, nervosa.
Doug me encarava com atenção, sentado naquela cadeira, a noite embalando o quarto como um saco plástico e apenas a luz de cabeceira para nos iluminar. Mamãe dormia deitada no sofá, com sua cabeça na coxa de Fred Welsome, que também roncava, sentado.
Doug estava em uma poltrona de frente para mim, ele sequer piscava. Estava escondido nas sombras, já que a lâmpada era pequena e sua iluminação, precária. Seus olhos pareciam brilhar como os de gatos, e aquilo estava me assustando.
– Só estou pensando. — Ele diz, sua voz soa fina.
– Você está com algum tipo de dor? — Digo, preocupada.
– Na verdade... — Parece que consigo ouvir o nó em sua garganta — Estou sim. Eu não deveria te dizer, mas estou tão destruído por dentro que não sei como ainda consigo falar.
– Mas... Mas... Hey, vem cá! — Digo, estendendo as mãos para ele.
Sem hesitar ele caminha e senta ao meu lado na cama, afagando meu rosto.
– Quem fez isso para você? — Digo, abraçando seu braço.
– O universo. — Ele dá uma risada fraca — O universo pode ser cruel quando quer.
– Uau. Eu não posso dar uns tapas no universo, se não faria. Não gosto de te ver chateado. — Digo, fechando os olhos.
– Não estou chateado. Só estou... Estou... Não sei como eu estou. É estranho. — Ele sorri — Agora você precisa dormir, está bem? Não se preocupe. Estarei aqui quando acordar.
Então eu durmo.
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