Let the Snow

25 Presentes do universo


– Só um gole! — Douglas me censura.

Experimento aquele sabor amargo que desce em chamas por minha garganta.

– Oh, meu Deus, isso é terrível! — Rio.

Havíamos saído a pé para dar uma volta, e acabamos por encontrar uma lojinha que vendia um pouco de tudo. Doug inventou de comprar uma garrafa de bebida alcóolica, e só depois de eu muito pedir, ele me deixara tomar aquele gole.

– Pronto. Agora contente-se com seu refrigerante. — Ele murmura.

– Maldita falta de idade! — Digo, tomando um gole da minha Coca-Cola.

Não tínhamos um lugar certo para ir, apenas íamos, enquanto a neve caia. Pessoas passavam por nós, carros zuniam pelas ruas, e eu via o que ninguém mais podia ver. A falta de tempo das pessoas.

Imaginava como era a vida daquelas pessoas, cada vez que eu via uma nova luz de acender atrás de uma janela fechada. Como será que eles viviam? Quais seriam seus problemas? Será que alguma delas já se sentira tão feliz como eu me sentia naquele momento?

A neve caia, porém, ninguém a observava. Como algo tão lindo poderia passar tão despercebido?
De repente, noto que, naquele exato momento, pessoas morriam, assim como pessoas nasciam. Cientistas poderiam ter descoberto a cura do HIV, o filho caçula de algum casal qualquer poderia ter dado seu primeiro passo naquele momento.

Milhões de vidas no mundo, bilhões de momentos, trilhões de sonhos.

Nós éramos nada!

Se eu sumisse, praticamente ninguém notaria. Apenas quem me rodeava; Douglas, mamãe, meu irmão menor, Fred Welsome e talvez Julia... E só!
As pessoas do mundo inteiro vivem como se o universo tivesse algo especial para cada uma, mas adivinha? Ele não tem! Nós precisamos fazer as escolhas das nossas vidas, nós temos que criar o nosso lugar no universo, por menor que ele seja. Precisamos ter felicidade, precisamos amar. Somente assim podemos sentir que talvez, o universo tenha dado aquele presente para nós, quando na verdade, nos presenteamos o universo com nossas histórias, com nossos momentos, com nossas lembranças.

Um dia, o mundo iria se tornar apenas cinzas. Se o ser humano continuasse a fazer aquilo que eu e Douglas estávamos fazendo — apenas viver o momento — chegaria um dia que o fim do mundo nos visitaria.

Talvez aliens ou anjos visitassem as cinzas e os escombros do que um dia poderia ter sido nosso mundo. Será que eles poderiam sentir as vibrações de todas as vidas que viveram ali? Será que eles poderiam sentir as lembranças, as memórias, dos corpos que estariam debaixo do chão?

Um universo inteiro. Milhões de galáxias. Bilhões de planetas ainda não conhecidos pelo homem.
Nós não somos nada. Nada. Somos um detalhe, uma imperfeição.

Sinto o mundo rodar a minha volta. Meu estômago dói, minha visão fica dupla.

– Acho que estou um pouco bêbada. — Murmuro.

– Não é possível, o álcool não faz efeito tão rápido. — Douglas ri, irônico.

– Douglas, eu...

Sinto meus joelhos falharem.

Caio de quatro no chão, vomitando. Uma dor nauseante martelava em minha nuca, eu ouvia gritos rasgarem a noite, e demoro a perceber que eles são meus. Eu não tinha mais posse de meus movimentos, meu corpo de mexia sozinho, com movimentos incontroláveis. Minha garganta produz um estranho barulho, e por mais que eu tente não consigo calar-me.

Fecho os olhos, esperando aquilo terminar.

~

Assim que tomo consciência, a dor parece sambar em meu peito. Sinto dificuldade para respirar, como se o ar estivesse rarefeito.
Fred Welsome e Douglas Smith encaram-me, atentos.

– O quê aconteceu? — Pergunto, bocejando.

Nenhum dos dois responde. Levanto meus braços para me espreguiçar e... Eu estou nua.

Completamente nua, apenas um lençol branco protegendo meu pudor.

– Oi? O quê está acontecendo?

Meu foco de visão parece ser arrastado para a janela. O sol de inverno aquece brevemente o quarto, estalactites pingando na janela. Vejo aquela coisa, amarela e brilhante, e demoro para perceber.

Meus cachos falsos.

Eu estava sem eles. E Douglas estava ali, estava me vendo daquela maneira.
Fixo meu olhar no espelho em frente da cama. Careca, nua, com pele amarelada e bolsas roxas pendendo de meus olhos.

Morta.

Puxo o lençol e cubro meu rosto, lágrimas queimando em meus olhos.

– SAIAM DAQUI! OS DOIS! — Berro.

– A-Alexandra... — Ouço a voz de Doug se aproximar.

– FIQUE LONGE DE MIM! — Digo.

Sinto-o puxar o lençol, logo fico com meu rosto exposto novamente. Lágrimas rolavam de meu rosto, não consigo olhar para Douglas. Não queria que ele me visse daquele jeito.

– Por favor. Não me faça passar por essa humilhação. — Sussurro.

– Meu amor. Eu fiquei tão preocupado. — Ele diz, me abraçando com força.

– D-Doug... O quê aconteceu?

– Eu amo você. Eu amo você. — Sua voz parecia sofrida.

– Doug... Por que está me dizendo isso? — Pergunto, temerosa, sinto meu coração vacilar.

Os olhos de Douglas marejam.

– Porque você... — Douglas suspira, fechando os olhos ao falar o resto — Já está tudo certo. Você... vai pra casa, Alexandra.